quinta-feira, 16 de julho de 2026

Stalker (Filme de Tarkovsky - 1979)


 Você assistiu o filme: Stalker?

Assisti e declaro: digno de nota. Portanto, necessito compartilhar.

Qual a relação com a filosofia?


A interpretação filosófica de Stalker transformou o filme em uma das obras mais assistidas e debatidas do cinema. Andrei Tarkovsky usa uma espécie de ficção científica como fachada geral da obra, mas é muito mais do que pode parecer. A verdade é que o autor explora a crise espiritual do homem moderno, aspectos psicológicos da humanidade no seu atual estágio de desenvolvimento, entre outros debates de cunho filosófico, antropológico e estético.


Em um dos monólogos mais famosos do filme, o Stalker cita uma filosofia muito próxima ao Taoismo de Lao Tzu:


"A fraqueza é uma grande coisa, e a força é nada. Quando o homem nasce, ele é frágil e flexível. Quando morre, ele é rígido e duro. [...] O que é duro e rígido não vencerá."


Na Zona, quem tenta impor sua força ou caminhar em linha reta morre. A sobrevivência exige submissão, paciência e maleabilidade. A rigidez da mente racional (o Professor) e o orgulho egoísta (o Escritor) são fraquezas fantasiadas de força.


O clímax filosófico do filme

        O clímax filosófico do filem não ocorre através de uma revelação metafísica grandiosa, mas sim através da recusa da revelação. Diante do limiar do Quarto, o Escritor e o Professor paralisam. 

        A justificativa para essa desistência é sintetizada na parábola do "Porco-Espinho", o antigo mentor do Stalker. Ao entrar no Quarto com a intenção consciente de pedir a ressurreição de seu irmão, Porco-Espinho sai de lá enriquecido pela Zona e, logo em seguida, comete suicídio.

         O Quarto não materializou sua prece voluntária, mas sim a ganância inconsciente que residia no núcleo de sua Sombra. O suicídio do mentor é o resultado do colapso psíquico de um homem que foi forçado a enxergar, sem filtros, a sua própria miséria moral.

        O Escritor e o Professor compreendem que o Quarto desnudará suas almas de forma impiedosa. O Escritor percebe que seu cinismo e sua crise criativa são escudos contra a própria mediocridade; se o Quarto lhe conceder a genialidade automatizada, sua busca artística perderá o sentido, pois a arte vive da angústia da procura, não da satisfação imediata. 

        Por sua vez, o Professor, que inicialmente pretendia explodir o local sob o pretexto humanitário de evitar que ditadores usassem o poder do Quarto, desmonta sua bomba ao perceber o próprio orgulho totalitário: ele queria destruir o inexplicável porque a ciência não consegue catalogá-lo ou controlá-lo.

        Ao optarem por sentar-se na soleira do Quarto, sob a chuva que goteja do teto em ruínas, os intelectuais assinam o diagnóstico de Tarkovsky sobre o homem contemporâneo. Ou seja, a recusa em entrar no Quarto é o medo do autoconhecimento absoluto. 

        O homem moderno prefere habitar o vazio existencial e o niilismo seguro da civilização industrializado (o bar em tons de sépia para onde retornam) a ter que suportar o peso da verdade sobre quem ele realmente é.

         A Zona, portanto, permanece inviolada não por causa de suas barreiras militares, mas porque a humanidade carece da coragem espiritual necessária para contemplar o próprio reflexo.



Vamos descrever o roteiro do filme:


 A estrutura do roteiro narrativo de Stalker (1979).

 O filme é dividido em três partes bem distintas e utiliza a cor para separar o mundo real (em tons de sépia) do mundo "surreal" da Zona (em cores vivas).


Ato I:

 O Mundo

 Sépia

 (A Partida)

O Despertar: 

O Stalker (Guia) acorda em um quarto miserável ao lado da esposa e da filha doente. A esposa implora para ele não ir, pois ele acabou de sair da prisão. Ele sai escondido.

O Encontro:

 O Stalker se reúne em um bar decadente com seus dois clientes: o Escritor (em crise criativa) e o Cientista/Professor (em busca de prestígio).

A Invasão:

 Os três entram em um jipe e furam o bloqueio militar fortemente armado que protege a fronteira da Zona.

A Transição:

 Eles sobem em uma antiga dresina (veículo de linha férrea).

 À medida que se aproximam do coração da Zona, o filme muda de sépia para colorido.


Ato II:

 A Zona Colorida

 (A Jornada)

As Regras da Zona: 

O Stalker explica que a Zona é um organismo vivo, mutável e mortal que reage ao estado psicológico de quem nela entra.

 O caminho mais curto nunca é uma linha reta.

O Teste das Porcas:

 Para avançar com segurança, o Stalker joga porcas de metal amarradas em tiras de gaze para detectar anomalias gravitacionais invisíveis chamadas "moedores de carne".

O Conflito:

 O Escritor tenta desafiar as regras e caminhar em linha reta, mas recua após ouvir uma voz misteriosa.

 O Professor demonstra um pragmatismo frio.

O Descanso: Os três adormecem perto de um riacho.

 A câmera passa por cima de objetos humanos submersos na água (moedas, armas, um ícone religioso), mostrando o declínio da civilização.

Ato III:

 O Limiar do Quarto

 (A Revelação)

O Desafio Final:

 Eles sobrevivem ao "moedor de carne" através de um túnel escuro e inundado.

 Chegam finalmente ao prédio que abriga o "Quarto dos Desejos".

O Telefone:

 No limiar do Quarto, o telefone toca.

 O Professor atende uma ligação de seu laboratório. Ele revela que trouxe uma bomba atômica de 20 quilotons para destruir a Zona, temendo que homens maus realizem desejos destrutivos.

A Verdade sobre o Quarto:

 O Stalker revela a história de seu mentor, "Porco-Espinho".

 Ele entrou no Quarto para pedir a vida do irmão, mas o Quarto realizou seu desejo inconsciente mais profundo: riqueza.

 O mentor enriqueceu e, por culpa, se enforcou.

A Recusa:

 O Escritor percebe que ninguém conhece os próprios desejos inconscientes. O Professor desiste de explodir a bomba e a desmonta. Nenhum deles tem coragem de entrar no Quarto.

Epílogo:

 O Retorno ao Sépia

A Desilusão:

 O filme volta ao tom sépia.

 Os três homens aparecem sentados no mesmo bar do início, exaustos e em silêncio.

O Desabafo:

 O Stalker volta para casa. Ele chora nos braços da esposa, lamentando que a humanidade perdeu a fé e que ninguém mais precisa da Zona.

O Milagre:

 A cena final volta a ser colorida. A filha do Stalker (que não anda) recita um poema e, aparentemente com o poder da mente (telecinese), move três copos em cima da mesa enquanto um trem passa ao fundo.

quarta-feira, 15 de julho de 2026

Hendrik

 


A Zona

 




A Zona


"A Zona é a Zona, é a vida, e o homem, ao atravessá-la, ou se quebra ou se aguenta. Se ele resiste, depende do seu sentimento de dignidade própria, da sua capacidade de distinguir o essencial do que é passageiro." (TARKOVSKY, 2010, p. 223).


Gente 

Essa tradução não foi feliz!

Vou re escrever para você:


Instante.

Viver (ou não viver).

Dignidade.

Capacidade.

Capacidade de ser digno, diante da indignidade.

O algoz

sempre senta ao lado.

Mas o teu 

I N S T A N T E

é distinto do instante agonístico.

Vencer, buscando.

Esquecer que o algoz senta ao lado.

Sanidade.

Insanidade.

Avançar?

Recuar?

Estacionar?

Viver o INSta não é viver o instante.

Invista numa caminhada sóbria.

Pavimente a estrada

da passagem segura.

A grande questão é:

Viver com dignidade, 

saldar a Mãe Divina, dizendo:

Caminho de retorno, sim!

Indignidade, não!

 


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