A inconsistência da nossa moral.
Estamos no momento da evolução humana que certamente não tem precedentes na história. Grande parte da humanidade, e justamente a parte que corresponde aquela que criou até agora os acontecimentos de que temos alguma certeza, deixa, pouco a pouco, a religião em que viveu durante quase 20 séculos.
Extinguir-se uma religião não é fato novo. Deve ter se dado mais de uma vez na noite dos tempos. E os analistas do fim do Império Romano fazem-nos assistir à morte do paganismo. Mas, até agora, os homens passavam de um templo que desabava para um templo que se edificava, isto é, saíam de uma religião para entrar noutra. Temos hoje um fenômeno novo de consequências desconhecidas.
II
É inútil recordar que as religiões, pelas suas promessas de além túmulo e pela sua moral, tiveram sempre uma influência enorme na felicidade dos homens, ainda que algumas houve, aliás, importantíssimas como o Paganismo, que não faziam aquelas promessas, nem tinham moral propriamente dita.
Não falaremos das promessas da nossa, pois elas perecem ao mesmo tempo que a fé, embora nós vivamos ainda nos monumentos elevados pela moral, que procedeu daquela fé que se retira. Mas reconhecemos que, não obstante as escoras do hábito, esses monumentos se entreabrem sobre as nossas cabeças, e que, em muitos pontos, já nos achamos sem abrigo, sob um céu imprevisto que já não dá ordens.
Assistimos, portanto, à elaboração mais ou menos inconsciente e febril, de uma moral prematura, porque a sentimos indispensável, feita de destroços colhidos do passado, de conclusões recebidas do bom senso vulgar, de algumas leis entrevistas pela ciência e, enfim, de certas intuições extremas da Inteligência desorientada, que, por um desvio para um mistério novo, retrocede a virtudes antigas, para cujo sustentáculo não basta o bom senso.
Talvez seja curioso tentar colher os principais reflexos daquela elaboração. Parece que está soando a hora, em que muitos perguntam a si próprios se, continuando a praticar uma moral elevada e nobre, num ambiente que obedece a outras leis, eles se não desarmam ingenuamente, e se não representam o ingrato papel de parvos. Querem saber se as razões, que os ligam ainda a velhas virtudes, não são puramente sentimentais, tradicionais e quiméricas e procuram baldadamente em si próprios os auxílios que a razão ainda lhes pode ministrar.