Você assistiu o filme: Stalker?
Assisti e declaro: digno de nota. Portanto, necessito compartilhar.
Qual a relação com a filosofia?
A interpretação filosófica de Stalker transformou o filme em uma das obras mais assistidas e debatidas do cinema. Andrei Tarkovsky usa uma espécie de ficção científica como fachada geral da obra, mas é muito mais do que pode parecer. A verdade é que o autor explora a crise espiritual do homem moderno, aspectos psicológicos da humanidade no seu atual estágio de desenvolvimento, entre outros debates de cunho filosófico, antropológico e estético.
Em um dos monólogos mais famosos do filme, o Stalker cita uma filosofia muito próxima ao Taoismo de Lao Tzu:
"A fraqueza é uma grande coisa, e a força é nada. Quando o homem nasce, ele é frágil e flexível. Quando morre, ele é rígido e duro. [...] O que é duro e rígido não vencerá."
Na Zona, quem tenta impor sua força ou caminhar em linha reta morre. A sobrevivência exige submissão, paciência e maleabilidade. A rigidez da mente racional (o Professor) e o orgulho egoísta (o Escritor) são fraquezas fantasiadas de força.
O clímax filosófico do filme
O clímax filosófico do filem não ocorre através de uma revelação metafísica grandiosa, mas sim através da recusa da revelação. Diante do limiar do Quarto, o Escritor e o Professor paralisam.
A justificativa para essa desistência é sintetizada na parábola do "Porco-Espinho", o antigo mentor do Stalker. Ao entrar no Quarto com a intenção consciente de pedir a ressurreição de seu irmão, Porco-Espinho sai de lá enriquecido pela Zona e, logo em seguida, comete suicídio.
O Quarto não materializou sua prece voluntária, mas sim a ganância inconsciente que residia no núcleo de sua Sombra. O suicídio do mentor é o resultado do colapso psíquico de um homem que foi forçado a enxergar, sem filtros, a sua própria miséria moral.
O Escritor e o Professor compreendem que o Quarto desnudará suas almas de forma impiedosa. O Escritor percebe que seu cinismo e sua crise criativa são escudos contra a própria mediocridade; se o Quarto lhe conceder a genialidade automatizada, sua busca artística perderá o sentido, pois a arte vive da angústia da procura, não da satisfação imediata.
Por sua vez, o Professor, que inicialmente pretendia explodir o local sob o pretexto humanitário de evitar que ditadores usassem o poder do Quarto, desmonta sua bomba ao perceber o próprio orgulho totalitário: ele queria destruir o inexplicável porque a ciência não consegue catalogá-lo ou controlá-lo.
Ao optarem por sentar-se na soleira do Quarto, sob a chuva que goteja do teto em ruínas, os intelectuais assinam o diagnóstico de Tarkovsky sobre o homem contemporâneo. Ou seja, a recusa em entrar no Quarto é o medo do autoconhecimento absoluto.
O homem moderno prefere habitar o vazio existencial e o niilismo seguro da civilização industrializado (o bar em tons de sépia para onde retornam) a ter que suportar o peso da verdade sobre quem ele realmente é.
A Zona, portanto, permanece inviolada não por causa de suas barreiras militares, mas porque a humanidade carece da coragem espiritual necessária para contemplar o próprio reflexo.
Vamos descrever o roteiro do filme:
A estrutura do roteiro narrativo de Stalker (1979).
O filme é dividido em três partes bem distintas e utiliza a cor para separar o mundo real (em tons de sépia) do mundo "surreal" da Zona (em cores vivas).
Ato I:
O Mundo
Sépia
(A Partida)
O Despertar:
O Stalker (Guia) acorda em um quarto miserável ao lado da esposa e da filha doente. A esposa implora para ele não ir, pois ele acabou de sair da prisão. Ele sai escondido.
O Encontro:
O Stalker se reúne em um bar decadente com seus dois clientes: o Escritor (em crise criativa) e o Cientista/Professor (em busca de prestígio).
A Invasão:
Os três entram em um jipe e furam o bloqueio militar fortemente armado que protege a fronteira da Zona.
A Transição:
Eles sobem em uma antiga dresina (veículo de linha férrea).
À medida que se aproximam do coração da Zona, o filme muda de sépia para colorido.
Ato II:
A Zona Colorida
(A Jornada)
As Regras da Zona:
O Stalker explica que a Zona é um organismo vivo, mutável e mortal que reage ao estado psicológico de quem nela entra.
O caminho mais curto nunca é uma linha reta.
O Teste das Porcas:
Para avançar com segurança, o Stalker joga porcas de metal amarradas em tiras de gaze para detectar anomalias gravitacionais invisíveis chamadas "moedores de carne".
O Conflito:
O Escritor tenta desafiar as regras e caminhar em linha reta, mas recua após ouvir uma voz misteriosa.
O Professor demonstra um pragmatismo frio.
O Descanso: Os três adormecem perto de um riacho.
A câmera passa por cima de objetos humanos submersos na água (moedas, armas, um ícone religioso), mostrando o declínio da civilização.
Ato III:
O Limiar do Quarto
(A Revelação)
O Desafio Final:
Eles sobrevivem ao "moedor de carne" através de um túnel escuro e inundado.
Chegam finalmente ao prédio que abriga o "Quarto dos Desejos".
O Telefone:
No limiar do Quarto, o telefone toca.
O Professor atende uma ligação de seu laboratório. Ele revela que trouxe uma bomba atômica de 20 quilotons para destruir a Zona, temendo que homens maus realizem desejos destrutivos.
A Verdade sobre o Quarto:
O Stalker revela a história de seu mentor, "Porco-Espinho".
Ele entrou no Quarto para pedir a vida do irmão, mas o Quarto realizou seu desejo inconsciente mais profundo: riqueza.
O mentor enriqueceu e, por culpa, se enforcou.
A Recusa:
O Escritor percebe que ninguém conhece os próprios desejos inconscientes. O Professor desiste de explodir a bomba e a desmonta. Nenhum deles tem coragem de entrar no Quarto.
Epílogo:
O Retorno ao Sépia
A Desilusão:
O filme volta ao tom sépia.
Os três homens aparecem sentados no mesmo bar do início, exaustos e em silêncio.
O Desabafo:
O Stalker volta para casa. Ele chora nos braços da esposa, lamentando que a humanidade perdeu a fé e que ninguém mais precisa da Zona.
O Milagre:
A cena final volta a ser colorida. A filha do Stalker (que não anda) recita um poema e, aparentemente com o poder da mente (telecinese), move três copos em cima da mesa enquanto um trem passa ao fundo.


