Esta página vai dedicada aos escritos acadêmicos, ou seja, alguns trabalhos elaborados com rigor científico.
Outrora apresentados para os meus pares na academia, segundo os processos administrativos regimentais, ganharam nova edição, a fim de serem apreciados pelo público em geral.
Trata-se de uma pequena coletânea, pois muitos destes trabalhos não foram aqui publicados.
- “Redescobrindo” a Santa Isabel : Um Estudo
Antropológico sobre a Região da Grande Santa Isabel (4º Distrito do
Município de Viamão) -
INTRODUÇÃO
Esta monografia propõe estudar a Região da Grande Santa Isabel,
a partir das noções de regionalização, identidade cultural e dinâmica de
organização espacial. Percebendo esta região com características potencialmente
diferenciadas daquelas observadas no Município em que se situa, proponho
realizar uma análise etnográfica e historiográfica que subsidiem esta hipótese
inicial de trabalho: a diferença cultural entre a sede do município e a região
da Santa Isabel. Segundo uma perspectiva relacional e dialética, proponho
também investigar o processo de
construção social da memória desta população, bem como os aspectos do
imaginário que são apropriados por viamonenses e isabelenses que na sua tensão
diária e recíproca estabelecem pontos de aproximação e afastamento.
Historicamente tem se observado tensões de interação social,
administrativa e política entre a sede do Município de Viamão e a Região[1] da Santa Isabel. Fatos
históricos do século passado remontam um processo distinto de ocupação destas
duas localidades.
Segundo alguns historiadores
como Clóvis Silveira de Oliveira, o surgimento da “Freguesia de Viamão” está
ligada às viagens que João de Magalhães faz por volta de 1714 por orientação do
então Governador do Rio de Janeiro D. Francisco de Távora que pretendia “fazer
vistorias nos lados do sul”[2]. O povoamento do extremo sul do Brasil
acontece, segundo o historiador Walter Spalding, com a chegada de Dona Ana da
Guerra, irmã do Capitão-mor Francisco de Brito Peixoto, fundador de Laguna e um
dos grandes tropeiros da época, mais seu genro, João de Magalhães, que
estabeleceram-se nos “Campos de Viamão” [3]. Ali, em terras de Dona
Ana, foi erguida uma capelinha em louvor de Nossa Senhora da Conceição e
Santana e, ao seu redor, logo se formaria uma pequena localidade que ficou
conhecida por Lombas de Santana[4].
Em meados de 1740, fato
semelhante provocaria o surgimento de um outro povoado. Francisco Carvalho da
Cunha doaria uma légua de terra para a construção de uma outra capela, a de
Nossa Senhora da Conceição do Viamão, que logo se transformaria em uma igreja.
Em volta desta igreja fundou-se um grande
povoado, povoado de Viamão, que já em 1747 era elevado à categoria de
freguesia.
O povoado de Viamão estava distante do mar (cerca de 120 Km) e
sem possibilidade de erguer qualquer tipo de porto na sua costa, só possuía comunicação com o restante do
Brasil por terra. Porém, em determinado momento, descobriram, a mais ou menos
60 Km de distancia da sede do povoado, uma grande lagoa denominada de “Guaybe”
pelos indígenas. Este fato levou os habitantes de Viamão a criarem um porto
naquele local, o Porto de Viamão. Este mesmo porto passaria a ser denominado
Porto do D’Ornelas ou Porto do Dorneles, quando da radicação de Jerônimo de
Ornelas (mais seus agregados e parentes) naquele mesmo local e de Porto do
Dionísio, quando utilizado como escoadouro da estância de Dionísio Rodrigues
Mendes (Fundador da Capela de Nossa Senhora de Belém, hoje Belém Velho). A
chegada dos casais açorianos, em 1752, marca o início da colonização do então Porto de Viamão (nome
dado a um ancoradouro nos fundos da Sesmaria de Jerônimo de Ornellas, onde está
agora a Praça da Alfândega). Instalados em casas de palha no local onde
encontramos hoje a atual Praça da Alfândega, os casais vindos das Ilhas dos
Açores inauguravam o que viria a ser “um arraial bastante fértil”. [5]
A ocupação efetiva do primeiro trecho do eixo “Porto de Viamão”
– “Freguesia de Viamão” (Rio Guaiba até a atual divisa dos Municípios de Viamão
e Porto Alegre) acontece no momento em que Jerônimo de Ornelas se estabelece no
Porto de Viamão e escolhe o Morro Santana para construir a sede da sua sesmaria
(Segundo Oliveira nas imediações da atual Escola de Agronomia da UFRGS). Nas
medidas atuais, essa sesmaria teria uma área de aproximadamente 14.000 hectares,
abrangendo assim a atual área da Santa Isabel [6].
A SANTA ISABEL
HOJE
A Santa Isabel é uma das regiões da Cidade de Viamão que mais
tem se destacado pelo seu potencial econômico, social, político e humano. A
proposta da atual Administração Pública Municipal denominada de Orçamento
Participativo possibilitou que os moradores do 4º Distrito chegassem
a uma conclusão que já estava construída geograficamente: a Santa Isabel é o
centro de uma região composta por mais de 20 vilas.
Durante o processo de escolha dos representantes (Delegados) das
comunidades junto ao O . P . e das discussões sobre as suas prioridades,
reuniram-se mais de 200 pessoas no Salão Paroquial da Igreja da Santa Isabel,
local definido para a realização destas assembléias. Foi a partir deste momento
que os cidadãos desta região, encontrando os seus pares, perceberam (talvez
pela primeira vez) que ali se encontravam pessoas das seguintes localidades:
Campos da Colina, Condomínio Horizontal da Lomba do Sabão, Diamantina, Irma,
Jardim Lacy, Jardim Universitário, Lanza, Luciana, Medianeira, Monte Alegre,
Monte Castelo, Morro Santana, Nossa Senhora Aparecida, Passo do Sabão, Represa,
Santa Miguelina, Sítio Lomba do Sabão, USBEE e União. Desta forma a Comunidade
da Grande Santa Isabel, como alguns denominam a região, ganha a visibilidade do
seu todo, da sua força de barganha política, do seu poder de organização
popular, enfim adquire uma nova fisionomia social, econômica e política.
Considerada como zona estratégica para as atividades políticas
da maioria dos partidos políticos de Viamão, sondada por redes de lojas
comerciais de diversos tipos que começam ali a se instalar, olhada e pesquisada
pelos técnicos que investigam o crescimento da região metropolitana de Porto
Alegre, almejada por moradores de classe média de Porto Alegre que buscam um
local de residência alternativa ao que a capital dos gaúchos oferece, querida e
amada pelos seus admiradores mais entusiastas, assim a Santa Isabel demonstra
suas especificidades urbanas. Mas o que existe de fato na Santa Isabel ou quais
os elementos que a diferenciam sobremaneira das demais localidades de Viamão
??
Mais do que vila ? Um pouco menos que cidade ? O que é de fato a Santa Isabel
???
A resposta final e acabada para esta pergunta está longe de ser
construída, no entanto, já temos alguns elementos, fruto de investigações
científicas que temos realizado na cidade, que contribuem para esta reflexão
sobre o processo de construção urbana aqui referido.
ALGUNS
PRESSUPOSTOS TEÓRICOS
Para a noção de Cidade
Definir o que é uma
cidade, de fato, não é uma atividade fácil, diante das inúmeras concepções e
noções do que realmente venha a ser uma cidade em toda a extensão do termo. O
urbanista e pesquisador FERNANDO GOITIA em uma BREVE HISTÓRIA DO URBANISMO
afirma que “o estudo da cidade é um tema tão sugestivo como amplo e difuso;
impossível de abordar para um homem só, se levarmos em conta a quantidade de
saberes que haverá de acumular.” Seguindo a sua sugestão de que “não devemos
perder de vista, ao estudar as cidades, as valiosas fontes que a literatura nos
oferece”, trazemos alguns conceitos de cidade construídos por alguns pensadores
que nos antecederam sobre este tipo de estudo.
ARISTÓTELES trabalha com um conceito político de cidade, no
momento em que sugere uma noção de diferenciação entre dois tipos de cidadãos
que compõe as cidades. Neste sentido ele disse que “uma cidade é um certo
número de cidadãos, de modo que devemos considerar a quem devemos chamar
cidadãos e quem de fato é um cidadão (...) Chamamos, pois, cidadãos de uma
cidade aos que tem a faculdade de intervir nas funções deliberativas e
judiciais da mesma e cidadão em geral, ao contrário são aqueles cidadãos que
tem a cidade apenas para a realização da sua vida.” Excluindo a discussão
política colocada na definição de Aristóteles que traz a noção de cidade-estado
da Grécia (o Estado é a Cidade e a Cidade é o Estado) entendemos que, para ele,
uma vez reunidos um determinado número de cidadãos, teríamos uma cidade.
AFONSO, outro pensador das cidades, referindo-se às cidades medievais que não se
concebe sem a proteção de muros ao seu entorno como defesa das ameaças
exteriores, define a cidade como “todo aquele lugar que é fechado com muros,
com arrabaldes e edifícios que se tem com eles”.
CANTILLON, pensador e estudioso do século XVIII, imagina assim a
origem de uma cidade: “Se um príncipe ou um senhor fixa a sua residência em um
lugar que o agrada e se outros senhores o acompanham e ali se estabelecem para
um convívio mútuo e social, este lugar se converterá em uma cidade.” Neste
conceito temos a concepção de uma cidade Barroca, de caráter senhorial e
eminentemente consumidora, onde reina o luxo que foi a origem das grandes
cidades do Ocidente antes do advento da era industrial.
Para os que preferem uma
distinção entre cidade e natureza, considerando a cidade como uma criação
abstrata e artificial do homem, destacamos a concepção de ORTEGA e GASSET: “A
Cidade é um ensaio da sucessão que o homem faz para viver fora e frente ao
cosmos, tomando dele porções seletas e previamente escolhidas.”
A opção que fiz, enquanto pesquisador em ciências sociais, foi
pela análise qualitativa do social, através da proposta e das ferramentas que a
antropologia social oferece para a análise da dinâmica social urbana. Portanto,
mais do que me debruçar sobre uma grande quantidade de dados estatísticos,
tabelas quantitativas e números exatos, proponho perceber a cidade através do
que consigo extrair da sua essência qualitativa, ou seja, a sua cultura, o seu
imaginário, os sentimentos que a permeiam, enfim a sua alma. Digo isto para
introduzir uma outra concepção de cidade, difundida por SPENGLER para quem a
alma (ou o espírito, como preferir) sustenta a dialética da cidade clássica.
Segundo SPENGLER “o que distingue a cidade de uma aldeia (ou
vila) não é a sua extensão, não é o seu tamanho, se não a presença de uma alma
citadina (...) O Verdadeiro milagre é quando nasce a alma de uma cidade.
Subitamente sobre a espiritualidade geral da cultura, destaca-se a alma da
cidade como uma alma coletiva de uma nova espécie, cujos últimos fundamentos
permanecem para os outros em eterno mistério. E uma vez desperta, se forma um
corpo visível. A coleção de casas da aldeias (ou vila), cada uma das quais com
sua própria história, se converte em um único conjunto. E este conjunto vive,
respira, cresce, adquire um rosto familiar e uma forma e uma história internas.
A partir deste momento, apesar das casas em separado, do tempo, da catedral e
do palácio (do governo), constitui a imagem urbana em sua unidade o objeto de
um idioma de formas e de uma história específica que acompanha em seu curso
todo o ciclo vital de uma cultura ”
Para a Dinâmica da Organização Espacial
As duas grandes categorias de análise
científica em ciências sociais são, inevitavelmente, tempo e espaço, conforme a
afirmação de vários autores que trabalhamos. Elas podem estar tão intimamente
relacionadas que, algumas vezes, é quase impossível desconsiderar uma em
detrimento de outra. Neste sentido, nos ensina Bachelard: “É pelo espaço, é no
espaço que encontramos os belos fósseis de duração concretizados por longas
permanências.” (Bachelard, 1993)
Em função disso, além das representações
que remontam o tempo vivido e o tempo lembrado, presentes nesta monografia,
considero a questão espacial como um outro eixo inevitável de apreensão e
análise.
Para esta “caminhada” e essa
“descoberta” sobre a dinâmica espacial que estamos investigando, escolhemos
três autores em especial. A incursão pela espacialidade de alguns perímetros
urbanos nos faz dialogar com Schulz, para quem “el interés del hombre pur el
espacio tiene raíces existenciales: deriva de una necessidad de adquirir
relaciones vitales en el ambiente que le rodea para aportar sentido y ordem a
um mundo de acontecimentos y acciones” (Norberg-Schulz, 1975). O segundo autor,
como já sinalizamos anteriormente, é Bachelard que contribui sobremaneira para
algumas interpretações que somente são possíveis dentro do campo da
Fenomenologia da Imaginação (ou arqueologia do imaginário). Neste sentido, ele
nos incita à algumas ponderações do tipo: “o espaço convida à ação, e antes da
ação a imaginação trabalha” (Bachelard, 1993). O terceiro autor contribui para
uma análise mais específica do fenômeno que estou tentando interpretar como um
tipo de “Regionalismo” no sentido de que “O Regionalismo aponta para as
diferenças que existem entre regiões e utiliza estas diferenças na construção
de identidades próprias” (OLIVEN, 1992).
O esforço de trabalhar com estes autores
e seus pressupostos vai no sentido de tentar perceber as características e
especificidades do campo trabalhado, bem como dos atores sociais e da dinâmica
social colocada neste campo, a partir de
um “olhar vibrátil” (Rolnik, 1997) sobre o espaço e as relações de espacialidade
que envolvem, delimitam e, porque não dizer, definem este universo simbólico e
cultural trabalhados.
Para a questão de Identidade Cultural
Os pressupostos básicos para a discussão
da temática da identidade são oriundos de Renato Ortiz que afirma: “A rigor,
faz pouco sentido buscar a existência de ‘uma’ identidade; seria mais correto
pensá-la na sua interação com outras identidades, construídas segundo outros
pontos de vista.” (ORTIZ, 1994). As noções tomadas por Ortiz de Lévi-Strauss
também são de suma importância para este estudo, por exemplo: “A identidade é
uma espécie de lugar virtual, o qual nos é indispensável para nos referirmos e
explicarmos um certo número de coisas, mas que não possui na verdade, uma
existência real.” (ORTIZ, 1994)
Para as questões de Método de Pesquisa
A
pesquisa qualitativa e, em especial, o método etnográfico e etnológico,
nos estudos de ciências sociais voltados a pesquisa de sociedades complexas do
tipo urbano-contemporaneo-capitalista é aqui o centro da nossa construção
científica. No meu entendimento, é através deste tipo de trabalho que podemos
desenvolver a “ação” e a “imaginação” de que Bachelard nos falou em seus
escritos.
Para a metodologia do trabalho de campo, utilizaremos as
principais técnicas do método etnográfico, como a observação participante,
realização de entrevistas com o uso de gravador, análise de contexto do campo
pesquisado e análise de conteúdo de documentos históricos, reportagens de
jornais e revistas.
Etnografar o campo estudado, representa
para nós, destacar os principais atores sociais, suas características
principais, enfim nos mover no sentido de realizar uma tarefa que se assemelha
com o esforço de “tentar ler um manuscrito estranho, desbotado, cheio de
elipses, incoerências, emendas suspeitas e comentários tendenciosos, escrito
não com os sinais convencionais do som, mas com exemplos transitórios de
comportamento modelado.” (Geertz, 1978)
CONCLUSÃO
Um aspecto que me parece interessante chamar para este momento
do nosso texto é do desafio que sempre está colocado para nós, quando tentamos
“estranhar o familiar”, através de uma pesquisa voltado para um espaço social
que é o nosso próprio, ou seja, o espaço urbano contemporâneo. Aceitando o
convite de Gilberto Velho: “(...) Não há como fugir, nem retardar mais o
processo de assumir o estudo antropológico da nossa sociedade e cultura como
tarefa fundamental.” (Velho, 1980), nos embrenhamos nesta atividade que muito
nos satisfaz intelectualmente.
SPENGLER fala de um processo que culmina com “o nascimento da
alma da cidade” na configuração de uma localidade na sua trajetória até à
conquista do estatuto de cidade. Portanto, segundo este pensador, existe um
momento muito especial e significativo que é “um verdadeiro milagre” e que
define o surgimento da Cidade como tal, a partir do nascimento da sua alma.
Tomando esta concepção de SPENGLER, passamos a analisar o caso
da Santa Isabel, no sentido de perceber qual teria sido este momento em que de
fato nasce (ou não) a alma da cidade, ou
seja, a partir de que momento de sua história a dinâmica social e urbana local
dá a luz à esta “nova cidade”. Vivendo a quase três décadas nesta região e,
portanto, tendo acompanhado os principais acontecimentos que marcaram a
estruturação da Santa Isabel, partimos para a análise do fato ou dos fatos que
teriam definido a sua concepção enquanto cidade. A resposta seria: A conjugação
de dois processos sócio-urbanístico
iniciados no intervalo de 1994 / 1996. O Reordenamento e revitalização
urbana que a “cidade” recebeu a partir do final do ano de 1994 com a construção
da Avenida do Trabalhador, associado ao processo de resgate da cidadania
através do “Orçamento Participativo” implementado a partir de 1996, redefine e
revitaliza a essência da organização
urbana local, transformando estruturalmente a
Santa Isabel e inserindo-a em uma nova realidade e uma nova fase do seu
desenvolvimento político, econômico e social.
BIBLIOGRAFIA
BACHELARD, Gaston. A Poética do Espaço. São Paulo: Martins Fontes, 1993.
GEERTZ, Clifford. A Interpretação das Culturas. Rio de Janeiro: Zahar Ed. , 1978.
MACEDO, Francisco Riopardense de. Porto Alegre: origem e crescimento.
Porto Alegre: Ed. Sulina, 1968.
PESAVENTO, Sandra Jatahy. O Espetáculo de Rua. Porto Alegre: Ed.
da UFRGS, 1992.
OLIVEN, Ruben George. “Nação e Tradição
na Virada do Milênio.” In. A Parte e o
Todo: a diversidade cultural no Brasil-Nação. Porto Alegre, Vozes, 1992,
p.13
ORTIZ, Renato. “Modernidade-Mundo e
identidades.” In: Um Outro Território.
Ensaios sobre a Mundialização. São Paulo. Olho D’Água, s/d. p. 67-89
ROLNIK, Suely. Uma Insólita Viagem à Subjetividade. São Paulo: Ed. Papirus, 1997.
In LINS, Daniel. Cultura e Subjetividade.
VELHO, Gilberto. O Desafio da Cidade. Novas Perspectivas da Antropologia Brasileira.
Rio de Janeiro: Ed. Campus, 1980.
NORBERG-SCHULZ, Christian. Nuevos Caminhos De La Arquitectura -
Existencia, Espacio y Arquitectura. Barcelona: Ed. Blume, 1975.
[1]
Adoto o termo região, reproduzindo uma tendência de alguns informantes, na sua
maioria moradores da Vila Santa Isabel, que utilizam este termo para denominarem o lugar que percebem como um
local que representa algo que é um pouco mais do que uma vila e um pouco menos
que uma cidade. Representantes do Poder Público Municipal, especialmente os
ligados ao “Orçamento Participativo”, adotaram esta terminologia (Região da
Santa Isabel), de alguma forma legitimando-a, pois utilizam um mapeamento da
Cidade de Viamão onde a Santa Isabel figura como núcleo urbano de cerca de 18
vilas que a circundam. Portanto, durante o processo de discussão e deliberação
sobre os recursos públicos municipais, a comunidade da Região da Santa Isabel
(Reunião da Santa Isabel mais as 18 vilas do seu entorno) se reúne no Salão
Paroquial da Igreja da Santa Isabel para discutir e deliberar sobre as suas
prioridades.
[2] Grifo do
historiador citado.
[3] Campos
de Viamão: nome genérico utilizado na época para referir toda a área que
conhecemos hoje no entorno da Cidade de Viamão (Palmares do Sul, Águas Claras,
Tavares, Itapuã e alguns municípios da Grande Porto Alegre como Alvorada,
Gravatai, Cachoeirinha, ...)
[4]
Onde atualmente se encontra o Distrito de Águas Claras / Município de Viamão.
[5]
Expressão usada na primeira referencia registrada em documento sobre a povoação
que se formava no então Porto de Viamão, a qual se desenvolvia rapidamente para
os padrões da época.
[6]
Investigações arqueológicas do Museu Joaquim José Felizardo em parceria com o
Núcleo de História da UFRGS, apontam para a confirmação desta hipótese.
UNIVERSIDADE
FEDERAL DO RIO GRANDE DO SUL
INSTITUTO
DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS
CURSO
DE PÓS-GRADUAÇÃO EM ANTROPOLOGIA SOCIAL
- Estudo Antropológico
de um Espaço
Urbano Singular: Cais do
Porto da Cidade
de Porto Alegre
(ou da Cidade que tem porto até no nome)
-
Autor:
JACQUES JACOMINI
“(...) O
Porto, em que acreditávamos tanto, terminou em frustração, com o projeto de
transformar-se em área de lazer. Os barcos e os trens nos abandonaram, dando
lugar aos caminhões. A indústria fabril, depois de um ciclo de prosperidade,
migrou para outras paragens. O capital internacional não acha muitos atrativos
numa área de caminhos estrangulados e de comunicações roucas.(...)” (Franco, 1997) Sérgio da Costa Franco
- Estudo Antropológico
de um Espaço
Urbano Singular: Cais do
Porto da Cidade
de Porto Alegre
(ou da Cidade que tem porto até no nome)
-
Monografia Acadêmica
“Neste
teatro do passado que é a memória, o cenário mantém os personagens em seu papel
dominante”. Gaston Bachelard
RESUMO
Esta monografia tem
por objetivo trabalhar com o depoimento de dois informantes, a fim de proceder
a análise e a compreensão das suas relações de pertencimento que constróem com o Cais do Porto de Porto Alegre.
Sendo trabalhadores (um aposentado e outro ainda em atividade) deste espaço
urbano, a sua relação com o Cais está voltada especialmente para uma atividade
laboral que exerceram (ou que exercem) neste local. Eles lembram e recuperam
informações de diferentes camadas e instantes de tempo que viveram no Cais do
Porto. A análise destas informações também nos permite perceber importantes
aspectos da dinâmica social e da organização físico-espacial deste espaço
urbano, sendo este também um dos objetivos desta pesquisa. Dito de outra forma,
pretendemos, entre outras coisas, caracterizar a singularidade deste espaço
urbano, investigando as suas especificidades (arquitetônicas, urbanísticas,
sociais e econômicas), a partir das construções mnemônicas e relatos dos
informantes, bem como das suas observações sobre a organização físico-espacial
deste espaço urbano.
INDICE
Resumo
....................................................................................................................................
03
Introdução
................................................................................................................................
05
1.
O Cais do Porto da Cidade de Porto Alegre
...................................................................... 08
1.1 A Atual
organização Físico-Espacial do Cais do Porto de Porto Alegre
........................... 09
2.
Revisão Crítica da Bibliografia
..........................................................................................
12
3.
O que dizem os informantes sobre o Cais do Porto de
Porto Alegre ................................. 22
Conclusão
.................................................................................................................................
30
Bibliografia
..............................................................................................................................
33
INTRODUÇÃO
O Cais do Porto de Porto
Alegre já foi a principal porta de entrada para a cidade. Viveu momentos de
intensa atividade comercial, fluvial e social. Atualmente o cenário, a dinâmica
social e a organização espacial naquele local demonstram que o Cais vive um
outro período da sua história. Várias transformações ali ocorreram e outras
tantas virão a ocorrer, diante de algumas propostas de reestruturação e
reorganização arquitetônicas, urbanísticas e comerciais do atual Cais do Porto
de Porto Alegre.
Independente
da sua condição de maior ou menor atividade econômica, o Cais do Porto de Porto
Alegre está presente no imaginário do portalegrense como uma referência forte
presente no seu dia a dia. Isto acontece porque freqüentemente temos a história do porto, a cultura do porto, o
trabalho do porto, (...) ressurgindo com novas roupagens, em novas situações,
sobre os mais diferentes aspectos. É a situação em que se grava um novo
comercial de televisão, é o momento em que a cidade recebe uma nova atração
cultural como um imenso navio-biblioteca que ali atracou recentemente ou mesmo
quando o Sr. Beto Albuquerque, Secretário dos Transportes, vai para a imprensa
noticiar que dará prioridade para a navegação, para o transporte hidroviário e
para a recuperação do Porto. Por estes e por outros motivos afirmamos: o Cais do Porto de Porto Alegre é um espaço
urbano singular. Contudo, a imagem que o cidadão desta cidade constroe do seu
porto se altera e se renova constantemente, entre outras coisas, segundo o seu
tipo de relação com este espaço ou conforme a maneira como interage neste
espaço.
A
minha inserção, como pesquisador de iniciação científica, no Projeto Integrado
/ CNPq “Estudo Antropológico de
Itinerários Urbanos, Memória Coletiva e Formas de Sociabilidade no Meio Urbano
Contemporâneo”[1],
me levou a um primeiro contato com o Cais do Porto. Proponho, hoje na condição
de aluno do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social (PPGAS), continuar
esta investigação científica, agregando novos elementos colhidos nas atividades
de campo, bem como, acrescentando novos pressupostos teóricos trabalhados nas
disciplinas curriculares do curso mencionado.
Diante
do universo mais geral, que é toda a cidade, o projeto supra mencionado propunha trabalhar com alguns
micro-universos, fundamentais para o entendimento e a reconstrução etnográfica
da cidade como um todo. O Cais do Porto de Porto Alegre foi um destes
micro-universos selecionados para esta pesquisa e coube a este pesquisador desenvolver as atividades de pesquisa e
análises naquele local.
Comecei
a realizar esta investigação em novembro de 1997, quando passei a realizar
várias idas a campo, a fim de etnografar o Cais do Porto, ou seja, a partir
deste momento, me dispus a “estabelecer
relações, selecionar informantes, transcrever textos, levantar genealogias,
mapear campos, manter um diário e assim por diante” (GEERTZ, 1988)
Abordo
o meu objeto de estudo através do método
etnográfico, (pesquisa qualitativa),
incorporando as técnicas de observação direta e participante e pesquisa direta
e não participante, complementadas com a realização de entrevistas e com a
produção de imagens fotográficas e
iconográficas. Destaco que entendo a observação participante como uma
importante técnica de pesquisa, pois trata-se de “um processo pelo qual mantém-se a presença do observador numa situação
social com a finalidade de realizar uma investigação científica. O Observador
está em relação face-a-face com os observados e, ao participar da vida deles no
seu cenário natural, colhe dados. Assim, o observador é parte do contexto sob
observação, ao mesmo tempo modificando e sendo modificado por este contexto.”[2]
Para esta monografia[3],
o principal objetivo é trabalhar com o
depoimento de dois informantes, a fim de proceder a análise e a compreensão das
suas relações de pertencimento que
constróem com o Cais do Porto de Porto Alegre. Sendo trabalhadores (um
aposentado e outro ainda em atividade) deste espaço urbano, a sua relação com o
Cais está voltada especialmente para uma atividade laboral que exerceram (ou
que exercem) neste local. Eles lembram e recuperam informações de diferentes
camadas e instantes de tempo que viveram no Cais do Porto. A análise destas
informações também nos permite perceber importantes aspectos da dinâmica social
e da organização físico-espacial deste espaço urbano, sendo este também um dos objetivos
desta pesquisa. Dito de outra forma, pretendemos, entre outras coisas,
caracterizar a singularidade deste espaço urbano, investigando as suas
especificidades (arquitetônicas, urbanísticas, sociais e econômicas), a partir
das construções mnemônicas e relatos dos informantes, bem como das suas
observações sobre a organização físico-espacial, deste espaço urbano.
Esta
monografia está dividida da seguinte forma.
Em um primeiro momento, trago
algumas informações introdutórias sobre o Cais do Porto de Porto Alegre e a sua
atual organização físico-espacial. Trata-se de recuperar alguns aspectos
históricos e sociais da configuração da cidade e do seu porto, conjugando-os
com pressupostos teóricos que nos orientam na parte da investigação da
espacialidade deste espaço urbano. O segundo momento deste trabalho está
cunhado em cima de um esforço analítico sobre as prinicpais teorias e autores que norteiam esta investigação
científica. No momento seguinte a este, debruço-me especificamente sobre as
informações trazidas pelos informantes, tentando fazer um esforço de análise e
compreensão, além de descrevê-las.
Nos
anexos, trago algumas imagens fotográficas que produzi durante as atividades de
campo e que colaboram para o entendimento de alguns aspectos trabalhados no
corpo textual desta monografia.
1. O
CAIS DO PORTO
DE PORTO ALEGRE
A
fim de introduzir algumas informações disponibilizadas pela historiografia
sobre Porto Alegre e seus equipamentos urbanos, faremos aqui uma breve e rápida
contextualização do aparecimento do Cais do Porto de Porto Alegre.
A
proposta de se construir o Cais do Porto de Porto Alegre surgiu em 1911 e
estava inserida no seguinte contexto sócio-ambiental: Com o crescimento da cidade
e a necessidade crescente de se incrementar a infra estrutura que permitisse
desenvolver as atividades econômicas e comerciais por vias fluviais, vieram os
primeiros problemas ambientais observados já em 1866. Nesta época foi proibida
a coleta de água no canal do Guaiba [4]
que começava a ter as suas margens poluídas pelos excrementos da população
depositados diariamente pelos “cubeiros”[5]
e por outros dejetos produzidos a partir das inúmeras atividades ribeirinhas.
Juntamente com estes problemas ambientais, surgem
as primeiras ocorrências de doenças contagiosas e pestes, como a epidemia de
cólera que se abateu sobre a cidade entre 1875 e 1876. Assim passam a ser
pensadas alternativas que colaborassem para o saneamento e a melhoria das
condições de higiene do rio e das suas ribeiras.
Em
conseqüência da reunião destes fatores, surge uma alternativa, entendida na época como
uma proposta ideal para estas necessidades de melhoramento e saneamento da
cidade, a construção do Caís do Porto. Assim, no mesmo ano, começa a ser
construído o atual Caís do Porto de Porto Alegre que tinha dois objetivos em
especial:
1
- Unificar a porta de entrada da cidade, melhorando o aspecto para quem
aportava em Porto Alegre, dado que na época, a maior parte do transporte de
passageiros e de cargas acontecia por hidrovias e ferrovias.
2
- Higienizar e normalizar [6] [7]
as atividades econômicas locais, uma vez que nesta época, por volta de 1900,
existiam mais de 30 trapiches na área central da cidade, onde eram
desenvolvidas inúmeras atividades comerciais.
Ao ser concluído, o novo porto, além de
melhorar o escoamento da produção industrial crescente, enfim podia ser
considerado como uma nova e ampliada porta de entrada da cidade que se
construía e se pretendia grande e desenvolvida.
1.1 A Atual Organização Físico-Espacial do Cais do Porto
da Cidade de Porto Alegre
“Não podemos situar o homem e o espaço um do lado do outro. Não podemos
dissociar o homem do espaço” HEIDEGGER
As
duas grandes categorias sempre em pauta para os cientistas sociais, espaço e
tempo, dificilmente podem ser isoladas ou consideradas de forma parcial.
Bachelard cita Gaston Roupnel neste sentido, afirmando que este último o fez
entender “o lento ajuste das coisas e dos tempos, a ação do espaço sobre o tempo
e a reação do tempo sobre o espaço. Com a mesma clareza com que delineia
figuras no espaço, a planície arada nos delineia figuras de duração.”
(BACHELARD, 1988) Portanto, mesmo tendo a ênfase deste estudo repousada nas
noções de temporalidade trazidas pelos informantes, não poderia deixar de
também repousar a minha atenção analítica sobre a espacialidade de Cais do
Porto. E se houver o problema de as categorias tempo e espaço se confundirem ou
se perpassarem de forma equivocada, recorre-se a topoanálise, proposta de
Bachelard que ensina: “Por vezes acreditamos conhecer-nos no tempo, ao passo
que se conhece apenas uma série de fixações no espaço da estabilidade do ser,
de um ser que não quer passar no tempo, que no próprio passado, quando sai em
busca do tempo perdido, quer ‘suspender’ o vôo do tempo. Em seus mil alvéolos,
o espaço retém o tempo comprimido. É essa a função do espaço.”(BACHELARD, 1993)
Na contextualização do surgimento do Cais do
Porto de Porto Alegre é possível perceber alguns aspectos da interação do
porto-alegrense com o seu rio e a sua estrutura portuária. Neste sentido, a
contribuição teórica e metodológica de arquitetos, urbanistas e outros
profissionais de áreas afins colaboram na intervenção antropológica em espaços
urbanos singulares como o que aqui investigamos. Schulz[8]
é um destes profissionais que por intermédio da arquitetura propõe uma nova
maneira de abordar o problema do espaço arquitetônico baseado em três
pressupostos básicos: I – O Espaço Arquitetônico pode ser interpretado como uma
concretização de esquemas ambientais ou imagens que são uma parte necessária da
orientação geral do homem ou de “seu estar no mundo.”; II – O interesse do homem pelo espaço tem raízes
existenciais, ou seja, deriva de uma necessidade de adquirir relações vitais
com o ambiente que o rodeia para colocar sentido e ordem a um mundo de
acontecimentos e ações; III – Sua orientação para os diferentes objetos pode
ser cognitiva ou afetiva. (Norberg-Schulz,
1975)
Coletei várias evidencias físicas, interacionais
e institucionais que me levam a demarcar, dentro deste espaço físico estudado,
perímetros que delineiam o centro do Cais do Porto em contraste com outros
perímetros que delineiam os lugares (periféricos) do Cais do Porto. A
inspiração vem novamente de Schulz que ensina
“en lo que se refiere a la percepción espontánea, el espacio del hombre
está ‘subjetivamente centrado’”(NORBERG-SCHULZ, 1975).
O
centro do Caís do Porto é compreendido pela área que envolve o Pórtico Central,
mais os Armazéns A, A1, B e B1. Os lugares (periféricos) estão no eixo que foge
deste centro, ou seja, para a direita de quem entra pelo portão central, pela
área compreendida entre os Armazéns B2 e B3, para a esquerda de quem entra pelo
portão central, pela área compreendida entre os Armazéns A2 e A7.
Rio Guaiba
|
Lugares Lugares
Entrada Central
Do Cais do Porto
Avenida
Mauá
No
que se refere as suas principais características, poderíamos dizer que o centro
do Cais é bastante vigiado, observado, cuidado e normalizado. Neste setor
circulam diariamente diversas pessoas e automóveis, funcionários permanecem
trabalhando, especialmente os que encarregam-se do controle e da vigilância dos
espaços e dos prédios. O estado de conservação dos prédios, muros, cercas e
portões é razoável e a iluminação é boa. Os lugares são marcados pela
inexistência total de circulação de pessoas ou automóveis, estão totalmente
desguarnecidos de qualquer tipo de aparatos de vigilância e observação. O
estado de conservação dos prédios, muros, cercas e portões é deplorável e a
iluminação é precária.
2. Revisão Crítica da Bibliografia
Neste segmento do texto tentarei, de forma sucinta,
sistematizar os estudos teóricos dos autores pertinentes à temática desta
monografia. O centro desta preocupação teórica está nas concepções de memória e
de tempo-espaço, tendo em Bachelard a ênfase destas noções, por entender que o
estudo da memória, mais do que a busca da rememoração, é a análise das
superposições temporais, da percepção dos ritmos ordenados nas narrativas dos
sujeitos que relacionam o pensamento dramático ao reconhecimento de si e de sua
identidade.
A construção social da memória moderna tem intima relação com
o idealismo que teve a sua contribuição para o
progresso do conhecimento, bem como para a construção dos instrumentos e
concepções que foram penetrantes para esta análise. O idealismo, diz Lefebvre,
se fecha sobre o EU, “Ele porta ao absoluto, uma pequena experiência fortemente
suspeita: a consciência puramente subjetiva”.
Depois da Antigüidade, resgato Aristóteles e a sua “Teoria da Alma” para
fazer a primeira referencia ao estudo da memória contemporânea.
A Teoria da Alma de Aristóteles começa com uma interessante
definição. A Alma é todo o princípio vital de qualquer organismo, a soma de
seus poderes e processos. Nas plantas, a alma é meramente uma força nutritiva e
reprodutora; nos animais, é também a força sensitiva e locomotora; no homem, é
também a força da razão e do pensamento. A Alma, como a soma das forças do
corpo, não pode existir sem ele; os dois são separáveis apenas em pensamento,
mas na realidade um todo orgânico. Uma alma pessoal e particular só pode existir
no seu próprio corpo. Apesar disso, a alma não é material, tampouco morre por
inteiro. Uma parte do poder tradicional da alma humana é passiva: está
vinculada a memória e morre com o corpo que continha esta, mas a razão ativa, o
puro poder de pensamento, é independente da memória, não sendo tocado pela
decadência. A razão ativa é o universal, que se distingue do elemento
individual do homem; o que sobrevive não é a personalidade, com suas afetações
e desejos transitórios, mas a mente em sua forma mais abstrata e impessoal.
Buscando uma referência mais contemporânea sobre o estudo da
memória, é inevitável a presença de Henri Bergson (1859-1941) em qualquer
investigação neste campo de conhecimento. O próprio Bachelard vai afirmar que
de Bergson ele tomará quase tudo com uma
exceção para a concepção bergsoniana da continuidade.
Filósofo, autor de “Essai sur les
données immédiates de la conscience(1889), Matière et mémoire (1896), Le Rire
(1900), L’évolution créatrice (1907), tem o seu trabalho voltado para uma
construção do conhecimento do tipo espiritualista.
Para Bergson, lembrar significa um movimento de vir de baixo,
isto é, vir à tona o que estava submerso, sendo que essa volta ao passado
combina-se com o momento atual e o presente. São portanto, pormenores da nossa
experiência passada que perpassam as lembranças e trazem à tona um momento
único já vivido. É um processo evocativo por meio da memória e refere-se a uma
situação definida e individualizada [9].
O mundo exterior se impondo a todos como uma evidência, ao menos nos seus começos, poderia reconhecer
a supremacia do objeto e se orientar em direção de uma interpretação
materialista. Mas justamente, a evidência e a importância dos fenômenos da
natureza, obrigam a colocar as questões, ou seja, para explicar o real, o homem
inventou o sobrenatural. Os espíritos
são no início mais forte que a matéria que lhes comanda.
A concepção de Memória em Bergson é a de uma memória pura, ou
seja, o passado inteiro está no nosso inconsciente. Temos então a memória como
conservação do passado, este sobrevive, quer chamado pelo presente sob as
formas da lembrança, quer em si mesmo, em estado inconsciente.
Em Bergson, o método introspectivo conduz a uma reflexão
sobre a memória em si mesma, como subjetividade livre e conservação espiritual
do passado, sem que lhe parecesse pertinente fazer intervir quadros
condicionantes de teor social ou cultural. A memória é uma força espiritual
prévia a que se opõe a substância material, seu limite e obstáculo. A matéria
seria, na verdade, a única fronteira que o espírito pode conhecer. A matéria
levaria ao esquecimento. Ela bloqueia o curso da memória. Nessa grande oposição
de memória e matéria, a última aparece como algo genérico, indiferenciado,
espesso, opaco. Em um ponto, entretanto, esse obstáculo é vencido: naquele
vértice do cone[10]
invertido, ponto móvel da percepção que avança no presente do corpo, mas
entreabre a porta às pressões da memória.
No estudo de Bergson defrontam-se, portanto, a subjetividade
pura (o espírito) e a pura exterioridade (a matéria). A primeira filia-se a
memória, à segunda, a percepção. Não há, no texto de Bergson, uma tematização
dos sujeitos que lembram, nem das relações entre os sujeitos e as coisas
lembradas: como um sociólogo para se propor a preencher esse vazio. (Bosi p
16).
Matéria e Memória é uma das primeiras obras de Bergson, esta
destaca-se pela relação com a investigação científica: orienta-se pela
biologia.
Seu título demonstra que a estrutura da memória é considerada
como decisiva para a estrutura filosófica da experiência. Na verdade, a
experiência é matéria da tradição, tanto na vida privada quanto na coletiva.
Forma-se menos com dados isolados e rigorosamente fixados na memória, do que
com dados acumulados, e com freqüência inconscientes, que afluem à memória.
Bergson não tem, por certo, qualquer intenção de especificar historicamente a
memória. Ao contrário, rejeita qualquer determinação histórica da experiência,
evitando com isto, acima de tudo, se aproximar daquela experiência, da qual se
originou sua própria filosofia, ou melhor, contra a qual ela foi remetida. É a
experiência inóspita, ofuscante da época da industrialização em grande escala.
Os olhos que se fecham diante desta experiência confrontam outra de natureza
complementar na forma de sua reprodução espontânea. A filosofia de Bergson é
uma tentativa de detalhar e fixar esta imagem reproduzida.
Segundo Bergson, para medir o tempo, a ciência fabrica o
verdadeiro dado temporal, ou seja, a duração. Ao contrário do tempo da ciência,
a duração não é quantitativa, mas apenas qualitativa. A mesma hora do relógio
pode parecer interminável, se vazia ou se ocupada pelo tédio ou pela espera, e
pode parecer um instante, se preenchida por uma vida psicológica intensa.
Para
Bergson, a consciência deriva de um processo inibidor da condução do estímulo à
ação respectiva. Ação e percepção dependem do esquema corporal, do presente e
do ambiente. Na percepção existe o vazio entre a ação e a reação, povoado de
imagens que, trabalhadas, tornar-se-ão signos da consciência. Abre-se a
possibilidade da indeterminação da ação consecutiva, complexificação e
matização do pensamento. Bergson opõe percepção atual à lembrança. Este
universo último não se constituiria da mesma forma que se disse se constituem as
percepções e idéias.
A fim de ilustrar o que está afirmando, Bergson propõe “O
cone da memória”[11]. A
proposta é mostrar que, entre outras coisas, existe uma diferença evidente
entre o espaço profundo e cumulativo da memória e o espaço raso e pontual da
percepção imediata..
Na análise interna e diferencial da memória o passado
conservado não atua no presente de forma homogênea. Bosi, trabalhando com
Bergson, destaca que temos aqui dois tipos de memória, a memória hábito e a
memória lembrança. A Memória hábito é
referente aos mecanismos motores, esquemas de comportamento guardados pelo
corpo, dos quais se vale, muitas vezes, automaticamente. Adquire-se pelo
esforço da atenção e pela repetição. Se dá pelas exigências da socialização,
parte de nosso adestramento cultural e uma outra memória – referente à
lembranças independentes de quaisquer hábitos, isoladas, singulares,
ressurreições do passado. Caráter não mecânico, mas evocativo. Lembrança pura
se atualiza na imagem-lembrança. Matéria latente nas zonas profundas do
psiquismo (inconsciente). Não raro, a relação entre as duas memórias é
conflitiva. A imagem lembrança se refere a uma situação definida e única, ao
passo que a memória hábito já se incorporou às práticas do dia-a-dia, parecendo
fazer um só com a percepção do presente.
Pensador presente em muitos dos estudos de memória (obrigatório para uns,
dispensável para outros), Maurice Halbwachs é o autor que passamos a contemplar
a partir deste momento. Halbwachs, estudioso das relações entre memória e história
pública, relativiza a ênfase na pureza da memória e propõe uma a Teoria
Psicossocial no contexto do estudo da memória. Se, para Bergson, o confronto se
dá entre a subjetividade do espírito (memória) e a exterioridade da matéria
(percepção pura), Halbwachs vai afirmar que lhe falta uma tematização do
sujeito que lembra, dos nexos interpessoais, das relações entre os sujeitos e
as coisas lembradas, enfim, o tratamento da memória como fenômeno social.
Halbwachs não vai estudar a memória em si, mas os quadros
sociais da memória. A memória do indivíduo depende de seu relacionamento com
seus grupos de convívio e referência. Dando relevo às Instituições Formadoras
do Sujeito, relativiza o princípio caro a Bergson de conservação do passado
inteiro pelo espírito. Ao contrário, realça a iniciativa da vida atual, das
representações que povoam a consciência atual do sujeito no desencadeamento do
curso da memória. Na maioria das vezes, lembrar é reconstruir com imagens de
hoje as experiências do passado, sendo a lembrança só excepcionalmente onírica.
“A Memória não é sonho, é trabalho” (BOSI, 1994). Lembrar o passado no presente
exclui a identidade entre imagens de um e de outro, propondo sua diferença em
termos de ponto de vista.
Halbwachs amarra a memória da pessoa à do grupo, e esta à
memória coletiva de cada sociedade. As imagens oníricas também não tem caráter
puro. Sua aparente indeterminação pelo
presente que se deve à frouxidão relativa da consciência que os acompanha é
compensada pela intervenção constante que
a auto-imagem do eu faz sempre que o passado remoto é sonhado ou evocado. De
qualquer forma, é no sonho que o espírito está mais afastado da sociedade.
O instrumento socializador da memória é a linguagem. Aproxima
e unifica no mesmo espaço histórico-cultural diversas dimensões de imagem.
Espaço, tempo, causa e conseqüência, entre outras noções gerais coletivas e
inerentes à língua estão presentes em todo tipo de representação, não havendo,
assim, criações puramente individuais. As convenções verbais constituem o
quadro mais estável e elementar da memória coletiva.
A interpretação social de Halbwachs à capacidade de lembrar é
radical. Não se trata apenas de um condicionamento externo de fenômenos
internos. Já no interior da lembrança trabalham noções gerais de filiação
institucional, veiculadas pela linguagem.
Graças às noções gerais, imagens resistem e transformam-se em
lembranças. Só se tornam imagens evocáveis as imagens do sonho sobre as quais
nossa atenção e reflexão se fixaram quando acordados, enfeixadas antes que se
esvaíssem.
O estudo das lembranças de pessoas idosas é um verdadeiro
teste para a hipótese psicossocial da memória. Nelas é possível encontrar uma
história social bem desenvolvida: já
atravessaram determinado tipo de sociedade, com características bem marcadas e
conhecidas; já viveram quadros de
referência familiar e cultural igualmente reconhecíveis, enfim, sua memória
atual pode ser desenhada sobre um pano de fundo mais definido do que o de quem
ainda está absorvido nas contradições de um presente que solicita mais
intensamente do que a uma pessoa de idade.
Halbwachs opõe o
sentido da evocação do velho ao do adulto: este, entretido nas tarefas do
presente, não procura habitualmente na infância imagens relacionadas com sua
vida cotidiana, sendo a hora de evocação a do repouso. Para ele, memória é
fuga. O velho, ao lembrar do passado, não está descansando das lides
cotidianas, mas se ocupando consciente e atentamente do próprio passado, da
substância mesma de sua vida. O que rege a atividade mnemônica é a função social exercida atualmente por quem
lembra. No momento em que o homem maduro deixa de ser membro ativo da
sociedade, resta-lhe a função de lembrar, de ser a memória do grupo, da
família, da instituição e da sociedade. Espécie singular de obrigação social
que não pesa sobre indivíduos de outras idades. A pressão dos preconceitos e as
preferências da sociedade dos velhos podem recompor a biografia individual e
grupal ideologicamente.
Como citei no início deste trabalho, Bachelard representa uma
referência especial para este estudo, em função da particularidade da sua
proposta analítica e da sua expressividade intelectual. Portanto, vamos
acompanhar agora alguns dos principais aspectos que recolhemos da sua vida e
obra.
Gaston Bachelard (1884-1962), docente na Sorbonne (Prosa
filosófica e historiador das ciências do conhecimento), autor de “A formação do
espírito científico”, inova, revoluciona e altera significativamente as bases
do pensamento científico ao escrever a “A dialética da duração”[12]
e ao defender pressupostos como “ A continuidade psíquica não é um dado, mas
uma obra”[13].
Bachelard, mais do que um filósofo, pois foi um fenomenólogo
ou um arqueólogo da vida humana, propõe um estudo dos níveis de simbolização do
real, das camadas das lembranças e associações. Portanto, pode ser nominado
também como um “geólogo da imaginação” ou “alquimista da alma humana”.
Epistemologicamente é adversário dos que chama “continuistas da cultura”, ou seja dos que queriam que a passagem seja
insensível do conhecimento comum ao conhecimento científico, do empirismo
ingênuo ao racionalismo, da observação fortuita à experimentação
calculada. Ele critica aos continuistas
históricos, que crêem facilmente reviver os eventos na continuidade do tempo, dando
insensivelmente a toda história a unidade e a continuidade de um livro. O tempo histórico é identificado como o tempo
da leitura, e a realidade histórica ao livro que a descreve, a história da
ciência se torna a experiência imaginário de um leitor.
Longe das concepções de continuidade bergsoniana, concebe o
tempo como algo que se perde e nos perde, numa fragmentação incessante de
instantes. Bachelard e Proust, analisam a descontinuidade temporal, pois o
tempo é ritmo, camada, censura infinitamente reconduzida. O tempo é vibração e exige uma análise ela
mesma vibrante, de maneira que seja uma
simples tradução desta oscilação dos instantes em nós, sem portar nenhuma restruturação conceptual. A
análise do tempo deve ser uma ritmanálise[14],
um ensaio de adequação jamais alcançada entre a palavra que resta e o momento
que passa, uma simples relação de frases em fuga.
A ritmanálise é a harmonia do segundo, construção de uma
harmonia explicativa que se superpõe à harmonia quase melódica do tempo e de
sua descontinuidade. A vida, nos seus
progressos, é feita de tempos bem ordenados, ela é feita verticalmente, de
instantes superpostos ricamente orquestrados, ela se re-liga a ela mesma,
horizontalmente, pela ajusta cadencia dos instantes sucessivos unificados no
papel. A linguagem fixa o movimento em estática, reduz a descontinuidade em
frases bem ordenadas, impõe ao ritmo dos instantes o ritmo das palavras.
Critica a história normalizada representada por uma linha
progressiva, símbolo da continuidade. Sim, existe uma continuidade que deve ser
apreendida entre a razão e o imaginário.
Há uma continuidade que é uma ilusão, ela nos parece ser espontânea e de
legitimidade. E são nossas certezas
imediatas que projetamos sobre a história para lermos no desenvolvimento da
história a mesma continuidade que pensamos ter.
Para Bachelard a verdadeira prudência metodológica é de postular uma
descontinuidade desde que estejamos certo que uma mudança se produz, enquanto
que a tendência habitual é de postular uma continuidade subjacente.
Bachelard vai propor uma filosofia do repouso, pois admiti
o repouso como direito do pensamento e um dos elementos do devir. Em “A
Dialética da Duração” externa a convicção de que o repouso está no âmago do
ser, mesclado ao devir compartilhado deste último, deve ser sentido no nível da
realidade temporal que fundamenta a consciência e a pessoa. Sendo que é na
parte impessoal da pessoa que o filósofo deve buscar zonas e razões do repouso,
para com elas fazer um sistema filosófico deste. A inteligência aparecerá como
uma função que cria lazeres e os fortalece. A consciência pura aparecerá como
potência de espera e guarda, como liberdade e vontade de nada fazer.
Poderes negadores do espírito, dialética do ser na
duração: o espírito poderia chocar-se com a vida, opor-se a hábitos
inveterados, fazer o tempo refluir sobre si mesmo para suscitar renovações do
ser, retornos a condições iniciais. Ações positivas e negativas do tempo como
igualmente importantes.
Ao esvaziar o tempo vivido daquilo que tem de
excessivo, na tarefa de seriar os diversos planos de fenômenos temporais, se
descobre que os fenômenos não duram do mesmo modo. A diversidade temporal dos
fenômenos é imperfeitamente resumida numa concepção de tempo único e contínuo.
Não há nenhum sincronismo entre a passagem das coisas e a fuga abstrata do
tempo. É necessário estudar os fenômenos temporais cada qual segundo um ritmo
apropriado e um ponto de vista particular.
A postulação metafísica da existência de lacunas na
duração é tarefa do estudo, e opõe-se a concepção contínua de Bergson.
Examinando os diversos planos do encadeamento do psiquismo, percebemos as
descontinuidades de sua produção. Assim, a continuidade psíquica não é um dado,
mas uma obra.
De Roupnel toma a noção que ensina sobre “o lento a
ajuste das coisas e dos tempos” e a ação do espaço sobre o tempo e a reação do
tempo sobre o espaço. A concepção de Roupnel - A noção de ritmo exprimiria
melhor o que se passa – vai influir significativamente a obra de Bachelard. A
noção de ritmo exprimiria melhor o que se passa. O que dura, permanece, é o que tem razões para recomeçar. Ao lado da
duração pelas coisas há a duração pela razão. Toda duração verdadeira é
essencialmente polimorfa; a ação real do tempo reclama a riqueza das
coincidências, a sintonia dos esforços rítmicos.
Bachelard critica duramente a concepção tradicional da
historiografia, pois considera que a
continuidade que os historiadores comprovam ao lerem os eventos num ato
continuo, não é nada mais que nossa emoção, nosso tormento, nossa melancolia e
o papel da emoção não é talvez que de acalmar a novidade sempre hostil. Dessa forma podemos supor que a vontade de
postular um continuum subjacente não é outra coisa que o desejo de deixar subsistir
no presente alguma coisa do passado que assegura, diminuindo o aporte da
mudança observada afim que ela não pareça como total. Este desejo pode ter o nome de medo. Medo do
novo, medo da mudança, meda da mobilidade, a mobilidade estando indissociável
da transformação. É necessário de
colocar em relevo aqui a presença de um julgamento moral, aliás confessado por
Bachelard em outros lugares. A distinção que nos avançamos entre uma boa e uma
ma continuidade ia neste sentido. O bem, termo assim freqüente sob forma
adverbial em sua obra, é ligada ao movimento.
Igualmente ligado ao leve (leveza, superficial). De fato a má
continuidade é introduzida pelo sentimento, a emoção, a alma. “A alma coloca a
confusão desses sentimentos sob as determinações descontínua do espírito”. Mas não devemos nos deixar prender nessas fantasias morais ou
imaginárias, esta má continuidade é também contrária a um só método. O medo do
novo é uma vontade de fechar o sistema dos conhecimentos, de lhes fixar uma vez
por todas, entretanto que lhe pesando sua aparência à mania não científica de
colecionar as observações sem procurar a distinguir aquelas que podem ser
significativa.
Existe a boa continuidade que encontramos no domínio
científico. O pensamento científico é o princípio que dá o plus de continuidade
a uma vida, ele é, entre tudo, rica de uma potência de coerência temporal ou,
para empregar um conceito de Korzybski, o pensamento científico é eminentemente
time-binding. Nos reencontramos aqui,
uma vez mais ao mesmo tempo, os termos de continuidade e de vida. Acrescenta-se
aqui o verbo “ligar” e propõe a superposição seguinte: contra a ilusão
continuista e o realismo que o sustenta,
parece que o tempo e o discurso cientifico são descontínuos. Conceito e
instante jogam o mesmo papel. É sobre o
fundo dessa descontinuidade que pode se estabelecer, pela ligação, uma
continuidade verdadeira e não ilusória, que esta continuidade comanda a vida do
saber ou a linha geral da história das ciências.
O instante não é para ele de nenhuma forma a fronteira
indiferente entre o passado e o futuro. Ao contrário, é o instante presente que
funda ao mesmo tempo o passado e o futuro porque ele é pura passagem, puro
movimento. “O passado se hierarquiza no presente sob a forma de um desenho,
nesse desenho as lembranças decididamente envelhecidas são eliminadas. E o
desenho projeto no futuro uma vontade já formada, já desenhada. O ser
duradouro, tem bem no instante presente onde se decide o cumprimento de um
desenho, o benefício de uma verdadeira presença” (BACHELARD, 1994). O ser que vive o instante de forma dinâmica é
justamente o que dura. O movimento é
possível graças a uma hierarquização, a
colocada em ordem do passado. O tempo é
uma ordem e não é outra coisa, e toda ordem é um tempo. O instante real supõe
uma multiplicidade de elementos ligados segundo uma hierarquia. O desenho que
faz do ser um ser duradouro procede, em engajando um psiquismo polimorfo numa
ação escolhida com discernimento. A necessidade da pluralidade é regularmente
afirmada nos contextos mais diversos. Assim é sempre a mesma conclusão: um
processo homogêneo não é jamais evolutivo. Só uma pluralidade pode durar, pode
evoluir, pode almejar o devir. E o devir
é uma pluralidade polimorfa. Se nossas tentativas de superposição são
alguma coisa de ser admissível, é preciso deduzir que o conceito é ele mesmo
uma multiplicidade ordenada, de mesmo que ele é dado na hierarquia em uma ordem
mais geral.
A boa continuidade é então possível a partir de uma
descontinuidade que não isola os elementos estáticos, mas dinâmicos. E se o pensamento científico pode dar a vida
uma continuidade é bem por que os conceitos não se cimentarão. O Instante verdadeiro é um tempo e cria uma verdadeira duração e a
imagem verdadeira obra de continuidade. A palavra não existe em si, mas tem
sentido num sistema que porta em poética o nome de complexos. A poética é sem
dúvida uma disciplina, ela é talvez uma ciência. Ela tem o rigor e a exigência, que é de
testemunho e de purificação.
Para encerrar, reforçaria mais uma vez que, em
Bachelard, a noção de ritmo é a noção temporal fundamental, pois os fenômenos
da duração são construídos com ritmos
que não estão fundados numa base temporal regular e uniforme. Ensina
Bachelard: “Para durarmos, é preciso então que confiemos em ritmos, ou seja, em
sistema de instantes. (...)
3. O QUE DIZEM OS INFORMANTES SOBRE O CAIS DO PORTO
“O velho não se contenta, em
geral, de guardar passivamente que as lembranças o desperte, ele procura
precisá-las, ele interroga outros velhos, compulsa seus velhos papéis, suas
antigas cartas e, principalmente, conta aquilo de que se lembra quando não
cuida de fixá-lo por escrito. Em suma, o velho se interessa pelo passado bem
mais que o adulto, mas daí não se segue que esteja em condições de evocar mais
lembranças desse passado do que quando era adulto, nem, sobretudo, que imagens
antigas, sepultadas no inconsciente desde sua infância, ‘recobrem a força de
transpor o limiar da consciência’ só então.”[15]
Em
um outro momento desta pesquisa[16],
optei por trabalhar com os depoimentos dos
entrevistados que, a partir das suas lembranças, construíam referências
de pertencimento afetivo e social ao espaço do Cais do Porto de Porto Alegre,
destacando o tempo vivido no passado a partir de um porto vivo (o porto antigo), rememorado diante da situação atual de um
porto morto (o porto atual). Naquele
momento, destaquei depoimentos do tipo: “ Ta morto! Isso aqui morreu! Eu sou do tempo em que isso
vivia cheio de navios, tinha uns ancorados aguardando espaço pra encostar pra
carregar ou descarregar.” (C. D.)
Destaquei
que a memória do porto vivo (antigo)
remetia às lembranças das inúmeras atividades comerciais, econômicas e sociais
ali vivenciadas pelos entrevistados. O Porto Antigo está articulado
minemonicamente ao movimento de pessoas, a ocupação dos espaços, a produção de
serviços, enfim aos símbolos - mitos da vida. Naquelas entrevistas, foi
relatado, com um imenso sentimento de saudade, o tempo em que o cais recebia
diariamente inúmeros navios de cargas e de passageiros, configurando assim uma
dinâmica portuária intensa e bem articulada com a dinâmica social da cidade de
Porto Alegre. Metáforas muito interessantes são utilizadas para lembrar deste
período de intensa atividade do porto vivo como, por exemplo, a que fala de
“uma plantação de navios”: “ A gente olhava assim aquela plantação de navio!
Parecia uma plantação... tudo ancorado..., um batendo do lado do outro,
esperando a hora de encostar no cais prá descarregar ou carregar. Navios
estrangeiros, de toda nacionalidade! Navios grandes. Hoje só vem caíque,
naviozinho pequeno, barquinho pequeno.” (M. C.)
Em
um contraste direto com a referencia ao porto vivo, havia a referencia ao porto
morto. A memória do porto morto remetia às lembranças das exíguas atividades
comerciais, econômicas e sociais
vivenciadas atualmente. Destacava que o Porto, no seu formato atual,
estáva articulado minemonicamente a inexistência de movimento de pessoas, a desocupação
dos espaços, a ociosidade e a decrepitude dos equipamentos e das instalações, a
apatia dos poucos trabalhadores que ainda permanecem atuando, enfim aos
símbolos - mitos da morte. Agregava a isto as expressões “isto aqui morreu”, “o
cais está morto”, pois eram utilizadas diversas vezes pelos entrevistados para
falar da atual dinâmica do cais do porto e remete a estas características de
não vida[17].
Para esta monografia, selecionamos apenas
dois informantes, a fim de proceder a análise e a compreensão das suas relações
de pertencimento que constróem com o
Cais do Porto de Porto Alegre. Sendo trabalhadores (um aposentado e outro ainda
em atividade) deste espaço urbano, a sua relação com o Cais está voltada
especialmente para uma atividade laboral que exerceram (ou que exercem) neste
local. Eles lembram e recuperam informações de diferentes camadas e instantes
de tempo que viveram no Cais do Porto.
O
Engenheiro Abreu Lima possui 31 anos de trabalho no setor portuário, tendo sido
subdiretor geral, diretor geral interino e administrador do Porto de Porto
Alegre. Começou as suas atividades em 1952 como funcionário do DEPREC
(Departamento Estadual de Portos, Rios e Canais), tendo trabalhado alguns anos
também na PORTOBRAS em Brasília. Além disso foi um dos fundadores do Instituto
de Pesquisas Hidráulicas (IPH) da UFRGS, onde lecionou por vários anos. Possuía
um grande acervo de mapas, plantas, livros e demais materiais informativos
sobre pesquisas hidráulicas, história de construção e desenvolvimento do Porto
de Porto Alegre, projetos sobre enchentes e inundações, entre outros temas
desta área. Não tendo mais espaço e condições de armazenamento para este
acervo, decidiu doar para a biblioteca do IPH, onde se encontra até hoje.
Apesar de já estar aposentado a muito tempo, ainda demonstra estar atualizado
sobre os assuntos da sua área, através de contatos com colegas engenheiros do
Brasil e do exterior e também através das pesquisas que faz na Internet.
Apesar
de ter a idade bastante avançada (cerca de 70 anos), demonstra total lucidez e
plena condição de lembrar de situações muito específicas e pontuais da sua
carreira profissional. Cita, por exemplo, com muita satisfação uma intervenção
(uma das mais importantes) da sua administração que perdura até hoje:
“Lembro da
situação em que eu introduzi uma melhoria no sistema de balizamento da lagoa
(rio), com uma modificação no sistema de lanternas que antes eram todas
abastecidas com acetileno. Um sistema muito bem bolado, sabe ?! e feito aqui,
aqui em São Leopoldo por este rapaz que está ai muito popularizado por este
aéromovel, o Coester. Fez um sistema espetacular. É o sistema que ainda está
sendo usado.”
Abreu
Lima refere o tempo tendo como
referência a sua condição de trabalhador da área portuária, utilizando
algumas expressões do tipo:
“Só para te
dar uma idéia do tempo em que eu trabalhava (...)”
Durante toda a sua fala, destacou e até me
solicitou que não aderisse a “uma visão saudosista” do Cais do Porto, pois
considera que o porto deve ser avaliado a partir da sua principal função:
transporte. Isto não remete a uma posição desprovida de sentimentos e emoções
fortes, porém são emoções e sentimentos percebidos através de uma relação
essencialmente de trabalho com o Porto. A sua atividade profissional, ou seja,
a sua intervenção técnica neste local, que o diferencia de qualquer outra
intervenção mais humanista, esta muito presente na sua fala. Neste sentido
afirmou:
“Porto
nenhum morre, essa coisa que o porto morreu é besteira. (...)
Qual era o
interesse das pessoas ali no porto? Transporte, transporte de passageiros. Isto
não existe mais. Agora, o que realmente interessa para o porto, para o navio?
Carga. A carga existe, ela está aí, ela precisa ser buscada, estimulada,
aparecendo carga no porto o navio vem.”
Em
determinado momento fala do corporativismo das categorias profissionais da sua
área de atuação, destacando:
“Qual o problema de ser corporativo ? Existem tantas corporações no Brasil”
O assunto que mais o motivou foi a questão
das cheias e os sistemas de proteção contra enchentes adotados em Porto Alegre
e em outros países como os Estados Unidos. Lançou mão de materiais (relatórios,
plantas e pesquisas da Internet) para falar da sua posição favorável quanto a
permanência do Muro da Mauá como um dos instrumentos de proteção da cidade contra
as cheias. Pelo menos até o momento em que ele possa ser substituído por um
outro dispositivo tão eficaz quanto o atual. Demonstra total conhecimento de
todo o sistema de contenção de cheias de Porto Alegre, citando, além do muro,
os demais dispositivos de segurança com os seus respectivos fins (reservatórios
nos Rios Jacuí e Taquari, aterros como o da Avenida Beira Rio, dicks de
contenção, comportas, etc.). Afirma:
“Creio que
um dispositivo sozinho não dê conta do recado, então eu acho que o sistema tem
que ser uma combinação de vários dispositivos, além de estimular o
reflorestamento nas cabeceiras, evitar o açoriamento dos canais (...) são uma
série de coisas que devem ser trabalhadas em conjunto (...)”
Salienta que o problema das enchentes está
presente em todo o mundo e está intimamente relacionado com a relação do homem
e o seu meio ambiente (rios, mares, córregos, etc.), pois a agressão ao meio é
recorrente em todas as partes do globo, então o rio “diz”:
“Mexeste no
meu plano de cheias, agora vou voltar para ele.”
Destaca
um engenheiro dos EUA (Corpo de Engenheiros do Exército Americano de onde
recebe alguns relatórios) que trabalha no monitoramento de enchentes para o
século 21, de onde tira inspiração para a sua própria tese que está baseada na
idéia de que o procedimento mais adequado para evitar novas catástrofes no
mundo inteiro, provocado por cheias e enchentes, seria a adoção de um
procedimento (relativamente) simples: devolver para os rios o seu plano de
cheias. Diz que o maior erro da intervenção humana nas áreas de ribeiras de rio
foi a ocupação do plano de cheias, portanto o mais sensato seria devolver esta
área para os rios.
Valdemir Lima Fernandes tem 36 anos, é servidor
público estadual, policial civil, (Departamento Estadual de Investigações
Criminais) e trabalha em turnos de 24 horas (plantões alternados que divide com
mais três colegas) no cais do porto no atendimento à ocorrências policiais. Diz
que, além de a sua área de intervenção ser toda a extensão do Rio Guaiba,
também possui outras atividades como
professor de mergulho, entre outras atividades que cita mais adiante:
“Trabalho
no porto na área de combate ao crime na água ou sobre a água ou até debaixo
d’água.(...)
Nós estamos
aqui a muito tempo por causa da ilha do presídio. Nós somos os egressos da ilha
do presídio. A ilha do presídio era do controle da polícia civil. Com o
encerramento das atividades lá, viemos para cá com a atribuição de patrulhar
toda a bacia (...)
Se houver
crimes nas ilhas, nós atendemos. Se necessário, solicitamos apoio do DEPREC.”
Valdemir exalta as suas potencialidades e qualidades
profissionais, afirmando que possui vários cursos profissionalizantes que o
qualificam para esta atividade no porto (mecânico de embarcações, motorista
profissional, instrutor de mergulho e pára-quedismo, etc.) e que, além disso,
possui outras habilidades nas áreas dos esportes aquáticos e náuticos. Devido a
esta sua qualificação, afirma que até já tentou sair deste local de trabalho,
porém não existe outro profissional com a sua qualificação profissional para
substitui-lo. Neste sentido, afirma:
“Trabalho
aqui a 12 anos, mas estou a disposição (do Estado do RS) para operações em todo
o Estado, já trabalhei em todo o Estado, onde tem calamidades e situações de
emergência.”
Quando pergunto sobre a sua sensação de trabalhar no porto, relata:
“A navegação
no inverno é ruim, por que tem vento e tem chuva, ai da vontade de não fazer,
porque é frio, né ! Aqui tem dias que o vento arranca as telhas (aponta para o
telhado de um galpão).”
Relata as enchentes que presenciou, destacando
que as mais fortes foram as de 1983 e 1986, situação em que trabalhou
intensamente no socorro aos flagelados oriundos das ilhas do Guaiba:
“Minha
função é coordenar o recolhimento de flagelados em toda a bacia. Buscando
gente, levando ranchos, trazendo doentes, transportando pessoas com
dificuldades, (...) Em 83 trabalhamos dez meses sem parar. Sábado, Domingo,
direto, sem parar, sem folga em nenhum dia. Em 83 a água passava por cima desta
pedras aqui (aponta para a beira do rio). Também coordenei aqui no Delta muitas
campanhas de vacinação ”
O informante demonstra que percebe a sua
atividade profissional como fato definidor da sua relação com o rio e com o
porto e é através desta atividade que ele constroe as suas impressões deste
espaço urbano:
“Então eu
conheço a bacia (e o porto) desta forma, né !
Vacinando o pessoal, atendendo ocorrência, buscando algum crime nas
ilhas. Derrepente alguém mata alguém, arrombamento de residências, furtos em
casas, já deu também furto de gado nas ilhas. Dá de tudo um pouco, agora as
ocorrências estão mais calmas. O acesso por terra para as ilhas está mais
facilitado, então diminuiu o nosso trabalho por água. (...)
Só existe
um posto policial na Ilha da Pintada, então nós tínhamos um posto policial ambulante (flutuante)
instalado em uma lancha que visitava as ilhas regularmente, averiguando os
problemas.”
Fala com tranqüilidade da freqüência com que
aparecem cadáveres boiando no rio, afirmando que entre os meses de janeiro e
fevereiro a incidência aumenta. Diz que o porto é muito procurado por pessoas
com problemas psíquicos e suicidas que freqüentemente aparecem caminhando sem
destino certo até a beira do rio e que alguns tentam a morte lançando-se ao
rio.
Perguntado sobre qual das atividades que realiza
com maior satisfação, responde:
“A atividade
mais prazerosa é a busca de provas de crimes em baixo da água. Só para
descobrir uma quadrilha de ladrões de carros, eu mergulhei durante 15 dias e
encontrei vários chassis de carros e motos que foram jogados no rio.”
Demonstra amplo conhecimento da dinâmica local em
terra, água e ar, ao comentar aspectos das embarcações que passavam por nós
durante a entrevista, destacando o nome dos barcos, a sua função (carga,
rebocadores, turismo, etc.), falando dos acidentes em terra com automóveis e
pessoas que já cairam no rio e conversando sobre as manobras dos aviões que
decolavam do Aeroporto Salgado Filho e faziam as suas manobras por sobre as
nossas cabeças.
Tomando os dois depoimentos em um todo, podemos
verificar claramente aspectos comuns entre as falas de Valdemir Fernandes e
Abreu Lima e outros aspectos que estão presentes em um e não em outro e vice
versa.
A forma e o tipo de relacionamento que ambos
constróem com o Cais do Porto de Porto Alegre é a mesma, ou seja, possuem uma
relação com este local dada segundo as especificidades das suas atividades de
trabalho que desenvolvem ( ou desenvolveram) neste local. Relativizadas, com as
devidas proporções, em função das diferentes carreiras e qualidades
profissionais que possuem, Abreu Lima é um engenheiro civil e Valdemir é um
policial, os dois informantes referem sempre que a sua impressão e o seu
conhecimento do Cais do Porto é dada por esta sua interação essencialmente
laborial com este espaço da cidade. Situação totalmente antagônica teríamos,
por exemplo, se um deles fosse engenheiro e o outro artista plástico, poeta,
escritor ou outra coisa do gênero.
A posição diante desta experiência relacional com
o Cais do Porto é diferente no depoimento de Abreu Lima, quando relacionado com
o depoimento de Valdemir Fernandes. Lima vive com a situação de quem já
encerrou a sua carreira, externa a posição do dever cumprido e a sua fala vai
sempre no sentido: “eu fiz ...”, “eu realize ....”, “no meu tempo de trabalho
....” Fernandes, profissional ainda em atividade na área portuária, fala de seu
cotidiano de trabalho, das sensações de atividades que ainda realiza e que
pretende ainda aperfeiçoar, ampliar ou simplesmente perpetuar. Neste sentido,
Bosi, trabalhando com a concepção psicossocial de Halbwachs, destaca:
“Para o adulto ativo, vida
prática é vida prática, e memória é fuga, arte, lazer, contemplação. É o
momento em que as águas se separam com maior nitidez. Bem outra seria a
situação do velho, do homem que já viveu sua vida. Ao lembrar o passado ele não
está descansando, por um instante, das lides cotidianas, não está se entregando
fugitivamente às delícias do sonho: ele está se ocupando consciente e
atentamente do próprio passado, da substância mesma da sua vida.” (BOSI, 1994)
Contudo, apesar de reconhecer a amplitude do
pensamento de Halbwachs e a sua importância para os estudos de memória,
acredito que, a fim de vencer as superfícies e penetrar na essência deste
conhecimento transmitido pelos informantes é necessário lançar mão do aparato
teórico bachelardiano. Portanto, relembramos que para ter a impressão de
que duramos, precisamos substituir nossas recordações, num meio de esperança ou
de inquietação, numa ondulação dialética. Não há recordação sem esse tremor do
tempo, sem esse frêmito afetivo. Mesmo nesse espaço que acreditamos pleno, a
evocação, a confidência, a narrativa ocupam o vazio dos tempos inativos; sem
cessar, quando recordamos, estamos misturando, ao tempo que serviu e ofereceu,
o tempo inútil e ineficaz. Reviver o
tempo desaparecido é apreender a inquietude de nossa morte. Consciência de
fragmentos de morte e de nada no decorrer de nossa vida. Não se pode mais
atribuir continuidade ao tempo ao pressentir tão vivamente os desfalecimentos
do ser.
Bachelard tem
uma frase em “A Dialética da Duração” que trago para o encerramento deste
bloco, pois ela fala mais do qualquer outra frase que eu pudesse aqui
construir:
“A Vida, em seus sucessos, é feita com tempos bem
ordenados; é feita, verticalmente, de instantes superpostos ricamente
orquestrados; liga-se a si mesma, horizontalmente, pela justa cadência dos
instantes sucessivos unificados numa função.” (BACHELARD, 1950)
![]() |
CONCLUSÃO
Este estudo antropológico está ainda em andamento,
pois, como foi colocado no início deste, hoje na condição de mestrando do PPGAS
/ IFCH / UFRGS, venho trabalhando constantemente neste pesquisa. Portanto, as
conclusões que aqui apresento não são
finais e acabadas. O que aqui apresento são, na verdade, alguns pontos
conclusivos que já foi possível acessar até a atual fase desta investigação
científica.
A singularidade deste espaço urbano estudado: o Cais
do Porto da Cidade de Porto Alegre, está presente no imaginário dos
portalegrenses, de um modo geral, e, de uma forma muito especial, no imaginário
dos trabalhadores do Porto (em atividade e inativos). Como pode-se constatar
através das lembranças articulados pelos informantes que entrevistei, o porto
possui toda uma dinâmica interna própria, uma cultura particular, uma economia
e uma sociabilidade muito específica, muito sua, portanto, particular e
singular. A duração do tempo portuário e a organização do seu espaço talvez
sejam as duas maiores evidências desta singularidade.
Experimentei por diversas vezes uma determinada
experiência de “Choque”[19]
entre a velocidade e a temporalidade sentida na área intraportuária em relação
ao que sentia no momento seguinte a saida do porto[20].
O contraste, por exemplo, entre a corrida intensa e desmedida da urbanidade do
centro de Porto Alegre (automóveis, pessoas, etc.), especialmente da Avenida
Mauá e adjacências em relação a tranqüilidade, ao ritmo pausado e regrado que
se tem dentro do porto é muito grande,
gritante e, até suponho que para muitos, agressivo.
A beira do rio observa-se o deslocamento das
embarcações que lentamente desenham formas geométricas na água, dando a
impressão de que a sua velocidade médio-ideal é bastante antagônica daquela que
a nossa cultura urbana solicita e imprime. Parece que as estas pessoas não
“perdem” ou “ganham” tempo, elas “apenas” vivem o seu ritmo que não é o nosso
ritmo médio-ideal urbano. Em terra, na área portuária acontece algo análogo,
pois o deslocamento tanto de pedestres como de veículos não está organizado
essencialmente sob a norma das regras de trânsito, não é vigiado pelos
controladores eletrônicos de velocidade (caetanos e pardais), nem é balizado
por sistemas físicos de contenção do tipo sonorizadores, quebra-molas, etc.
Todos estes fatores reforçam a nossa tese da
singularidade deste espaço urbano, refúgio para “dementes”, como foi relatado
por um entrevistado, local de refúgio e abrigo não só para embarcações, mas
também para seres humanos que não encontrando outro local para o seu repouso ou
para viverem os seus devaneios, se dirigem para o cais do porto.
As diversas informações colhidas juntos aos
meios de comunicação de massa da cidade (Rádio, televisão e Jornal) também
caminham neste sentido. É grande o número de comerciais de TV, por exemplo, que
utilizam o porto para produzirem as suas imagens publicitárias. Os armazéns,
guindastes, muros “contracenam” com modelos, atores e atrizes famosos nacional
e internacionalmente, destacando e reforçando as características deste espaço
urbano que representou e continua a representar uma referência muito forte para
a cultura e para a história da cidade de Porto Alegre. É também grande o número
de vezes que entrevistas publicadas nos jornais tematizam sobre o porto. Por
vezes é um novo projeto de lei que propõe recuperar aquele espaço, ou uma
viagem do secretário dos transportes que vai até Brasília para solicitar mais
verbas para as atividades portuárias, enfim o Cais do Porto de Porto Alegre
aparece muito na mídia nos mais diversos formatos, pelas mais diversas razões e
com um variado tipo de finalidades.
A par da mídia, acredito que os entrevistados são portadores (guardiões) de
uma definição de tempo construído segundo as suas lembranças articuladas num
cotidiano vivido de trabalho com o porto. Portanto, este espaço urbano é
singular e os portadores da sua memória também o são, pois com “o esforço de rememoração criam tempos e espaços específicos que grudam os
sujeitos que lembram a tempos e espaços singulares”. (ECKERT, 1997) Deste modo,
surgem maioria das construções mnemônicas que remetem as fortes sensações e
relações de pertencimento dos trabalhadores e ex-trabalhadores com o cais do
porto de Porto Alegre.
A referência a continuidade e a descontinuidade do
tempo e dos espaços surge como um ponto chave para a nossa investigação
(especialmente para aqueles depoimentos que citamos e que forma trabalhados no
salão de iniciação científica). Encontramos em Bachelard e na sua dialética da
duração algumas respostas interessantes. Segundo a sua proposta de empenharmos
o que denominou de “ritmoanálise”, percebemos que o que vivemos são estruturas
espaço-temporais, ou seja, o eterno drama da reatualização do passado no
presente[21].
Neste sentido a antropóloga Cornelia Eckert
propõe: “sugiro uma etnografia da lembrança da duração e não uma
etnografia da lembrança do passado” (ECKERT, 1997)
A conclusão de que existe uma “alma portuária” presente neste espaço e
neste tempo é uma das conclusões, dentre as demais, que mais nos perplexifica.
Encontramos Arquitetos, urbanistas, sociólogos e antropólogos falando desta
“alma”[22]
nas referências que fazem sobre diversas cidades, praças e outros espaços e
lugares urbanos. A “alma” (ou as almas) do Cais do Porto podem ser sentidas
especialmente nas zonas mortas, lugares onde não há mais vida, conforme
referências dos entrevistados.
No que tange ao processo de revitalização dos
“velhos” portos, parece que esta é uma prática que acontece no mundo inteiro,
segundo o que investigamos. Há, entre urbanistas, arquitetos e demais
profissionais desta área uma espécie de necessidade em executar urgentemente
uma inscrição do novo sobre o velho, através das intervenções urbanísticas e
arquitetônicas. Esta é uma tendência mundial, global. Portanto, aponta-se para
o fato de que o reordenamento e as remodelações propostos para o Cais do Porto
da Cidade de Porto Alegre são produtos
de um processo de mudanças históricas, econômicas e sociais que extrapolam as
fronteiras citadinas locais, estando inseridas no corpo de uma cosmovisão
globalizada e globalizante (complexa e moderna) que vem determinando a
organização e reorganização dos grandes espaços urbanos contemporâneos .
BIBLIOGRAFIA
1. AGUIAR,
Douglas Vieira de. O Porto e a Cidade.
In Wrana Panizi e João Rovatti / Estudos Urbanos: Porto Alegre e Seu
Planejamento. Porto Alegre: Ed. UFRGS / Prefeitura Municipal de POA, 1993.
2.
BACHELARD, Gaston. A Dialética da Duração. São Paulo: Ed. Ática, 1988.
3.
----------------- ,-------- . A Poética do Espaço. São Paulo: Martins Fontes, 1993.
4.
BOSI, Ecléa. Memória
e Sociedade – Lembranças de Velhos. São Paulo : Ed. Queiroz e EDUSP, 1987.
5. CASTELLO,
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contemporâneas. Porto Alegre: UFRGS, Faculdade de Arquitetura. Anotações para
a palestra no Painel Porto Alegre e o Muro, organizado pela prefeitura
Municipal de POA, Departamento de Esgotos Pluviais, na Usina do Gasômetro.
Porto Alegre, julho de 1993.
6. COSTA,
Elmar Bones da. História Ilustrada de
Porto Alegre. Porto Alegre : Ed. Já Editores, 1997.
7.
ECKERT, Cornelia. Antropologia
do Cotidiano e Estudo das Sociabilidades a Partir das Feições do Medo e das
Crises na Vida Metropolitana. Porto Alegre: UFRGS. Projeto de Pesquisa,
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8.
--------- ,------------. Memória e Identidade: Estudo Etnográfico dos Ritmos Temporais e da
Duração Social de uma Comunidade de Trabalho no Sul da França. Porto
Alegre: UFRGS. Artigo, 1997.
9.
FUNDAÇÃO DE ECONÔMIA E ESTATÍSTICA DO ESTADO DO RS
(FEE). Anuários Estatísticos do Rio
Grande do Sul.
10.FRANCO, Álvaro. Porto Alegre – Biografia de Uma Cidade.
Porto Alegre: Ed. Tipografia do Centro S. A . (final do século / inicio deste)
11.FRANCO, Sérgio da Costa. Guia Histórico de Porto Alegre. Porto
Alegre: Ed. da Universidade / PMPA, 1988.
12.________ , ___________ . Porto Alegre e Seu Comércio. Porto
Alegre: Ed. Associação Comercial de Porto Alegre, 1983.
13.GEERTZ, Clifford. A Interpretação das Culturas. Rio de
Janeiro: Ed. Zahar, 1978.
14.GOITIA, Fernando Chueca. Breve História do Urbanismo. Madrid:
Ed. Aliança Editorial, 1970.
15.JACOMINI, Jaques. Um Olhar Etnográfico Sobre O cais do Porto
da Cidade de Porto Alegre: aspectos da historiografia, da dinâmica social e da
espacialidade do Porto de ontem, de hoje e de amanhã, articulados com os
aspectos da historiografia, da dinâmica social e da espacialidade de uma cidade
que tem porto até no nome. Artigo
16.NORBERG-SCHULZ, Christian. Nuevos Caminhos De La Arquitectura -
Existencia, Espacio y Arquitectura. Barcelona: Ed. Blume, 1975.
17.ROCHA, Gilmar. Cidade à Deriva. Belo Horizonte: Ed. PUC Minas, 1997.
18.SPALDING, Walter. Pequena História de Porto Alegre. Porto
Alegre: Ed. Sulina, 1967.
19.VIRILIO, Paul. O Espaço Crítico. Rio de Janeiro: Ed. 34, 1993.
20.ZALUAR, Alba. Desvendando Máscaras Sociais. São Paulo: Ed. Livraria Francisco
Alves S . A .
21.ZIMMERMANN, Sérgio Luis Duarte. Porto dos Casais. Exposição sobre o
Projeto do Arquiteto ALBERTO ADOMILLI
[1] Projeto
coordenado pelas Professoras Dras. Cornelia Eckert e Ana Luiza Carvalho da
Rocha / Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social (PPGAS) / Instituto de
Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) / Universidade Federal do Rio Grande DO Sul
(UFRGS)
[3] Esta
monografia representa, além de uma atividade regular de encerramento das
atividades proposta pela Disciplina “Individualismo, Sociabilidade e
Memória”, um esforço de trabalhar com um
recorte de uma pesquisa maior que culminará com a realização da minha dissertação
de mestrado.
[4] Segundo
denominação geográfica, o Rio Guaiba é lago, pois une dois grandes volumes de
águas navegáveis, o Rio Jacuí e a Lagoa dos Patos. O Jacuí desce em turbulência
de sua nascente localizada no Planalto, cerca de 400 metros acima do nível do
mar. Ao atingir a Depressão Central, a 100 metros de altitude, suas águas
correm para o leste e vão diminuindo a velocidade, de acordo com o suave
declive da planície. No trajeto final, próximo a Porto Alegre, o Jacuí recebe
as águas do Taquari, do Caí, do Sinos e do Gravatai, formando um delta, uma
enorme bacia de decantação onde se acumula a terra arrancada das encostas do
Planalto. Essas águas calmas e barrentas são despejadas no Guaíba, apenas cinco
metros acima do nível do mar. O Guaiba desemboca na Lagoa dos Patos que lança
suas águas no Oceano Atlântico, 250 Km ao sul.
[5] Cubeiros
- indivíduos que carregavam e limpavam os “Cubos”, recipientes onde eram
armazenados os excrementos das residências mais abastadas. Uma vez cheios, eram
levados até as margens do rio pelos escravos (e depois pelos funcionários da
prefeitura que assumiram este serviço) e ali descarregados e lavados para
voltarem a ser utilizados nas residências.
[6] Um
relatório da época dizia: “É preciso melhorar o porto tanto do ponto de vista
econômico como estético e sobretudo higiênico.”
[7] O princípio de “isolar
espacial e temporalmente implica reunir ordenadamente”, difundido pelo
movimento que se conhece como “medicalização (ou normalização / higienização)
das cidades” observados no Brasil durante a segunda metade do século passado é
abordado de uma forma bastante interessante por Roberto Machado Et All em “Danação da Norma : Medicina Social e
Constituição da Psiquiatria no Brasil”.
[8] Schulz
chama a nossa atenção para o fato de que foi HEIDEGGER o primeiro pensador a
trabalhar com a noção de que “a existência é espacial.” Portanto,
Merleau-Ponty, Bachelard e Bollnow devem muito a Heidegger.
[9] Neste
sentido, ver “O Cone da Memória” In. BOSI, Ecléa Memória e Sociedade - lembranças de velhos 4 ed., pg. 46-8
[10] idem
[11]
BOSI, Ecléa Memória e Sociedade -
lembranças de velhos 4 ed., pg. 46-8
[12]
BACHELARD, Gaston A dialética da duração
Ática, 2ª ed., São Paulo, 1994, 135p.
[13]
Bachelard afirma que “a nossa primeira tarefa é a postulação metafísica da
existência de lacunas na duração, isto é uma tarefa do estudo, e opõe-se a
concepção contínua de Bergson. Assim, a continuidade psíquica não é um dado,
mas uma obra.”
[14]
INSPIRADO Em “La rythmanalise” de LÚCIO PINHEIRO DOS SANTOS (Professor de
Filosofia da Universidade do Porto / Brasil) , publicação da Sociedade de
Filosofia e Psicologia do Rio de Janeiro, 1931), comenta: “Há lugar em
psicologia para uma ritmanálise,
assim como se faz psicanálise.” A
idéia é de regulação dos tempos psíquicos a partir de uma desorganização
direcionada a quebrar as falsas permanências e durações mal feitas. Ou como
disse o Próprio Bachelard :“É preciso curar a alma que sofre por meio de uma
vida ritmica, por um pensamento rítmico, por uma atenção e um repouso rítmicos.
É antes de tudo desembaraçar a alma das falsas permanências, das durações mal
feitas, desorganizando-a temporalmente.”
[15] M.
Halbwachs, Les cadres sociaux de la mémoire. In. Bosi
[16] Momento
em que apresentei esta mesma pesquisa, em um estágio de investigação anterior a
este, no X Salão de Iniciação Científica, realizado em 1998 na UFRGS.
[17] Além
desta lembranças dicotômicas vida e morte, os entrevistados trouxeram outros
elementos muito interessantes sobre o Cais do Porto de Porto Alegre na sua
convivência com os espaços urbanos que o circundavam. Ouvimos vários relatos
que falam da existência de uma forte relação entre o Mercado Público de Porto
Alegre (Antigo Mercado das Frutas) e o Porto de Porto Alegre, dada a sua
proximidade físico-geográfica e a sua afinidade comercial e social. Vários permissionários
do Mercado Público são de origem portuguesa, estes relatam com emoção a sua
chegada na cidade, em um primeiro contato bastante intimo e sentimental com o
Cais do Porto:
“ O primeiro passo que eu dei ali, o primeiro degrau que eu pisei em
Porto Alegre foi no Cais do Porto, aqui atrás do Mercado, e dali era só
atravessar o Mercado Livre, que era o Mercado das Frutas, e a Júlio de
Castilhos e eu estava dentro de casa já. Então aquilo ficou. Agora, tu chega
ali tá um baita de um muro. E auto prá la, auto prá ca. Tu fica louco. Isso
fica dentro da gente”. (S. A.)
Esta relação do Mercado
Público com o Cais do Porto é alterada com a construção do Muro da Avenida
Mauá, como podemos perceber nos relatos seguintes:
“Aqui tinha bastante movimento, mas não tinha esse paredão ai. A gente saia livre. Só saia ali, tinha lugar
prá sair. Não e como esse paredão, tem tudo trancado. Só pode entrar por lá ou
por aqui ”. (C. B.)
“O muro trouxe realmente um certo prejuízo para a cidade, pois antes
você chegava ao cais por vários lugares. Hoje, não. Você chega ao cais por
zonas, mas o muro não tem nada a ver com esta visão romântica, porque nem
sequer o por do sol e mais bonito naquela direção.” (A. L. E)
[18] Imagem
genérica que criei para ajudar a pensar a proposta de Bachelard dos ritmos,
ondulações e instantes.
[19]
Conforme concepção trabalhada por Simmel e Benjamim, ao trabalharem sobre as
formas de sensibilidade e socialização do homem moderno na metrópelo.
[20] Nos
primeiros relatos de campo eu já destacava estes aspectos da dinâmica deste
local: “A travessia da Av. Mauá (em direção ao Cais do Porto) é, sem nenhuma
dúvida, “uma manobra bastante arriscada”. Neste local o transito de veículos é
muito grande e a velocidade média dos automóveis, caminhões e coletivos também
é alta em função da avenida ser extensa (uma grande reta), larga (com 3 faixas de rolagem) e não existir
nenhum dispositivo inibidor da velocidade (com exceção do semáforo). Existe uma
faixa de segurança e uma semáforo quase em frente a entrada principal do Caís
do Porto, o que, teoricamente, facilitaria a travessia dos pedestres, no
entanto nem sempre é bem assim. Os motoristas costumam aproveitar ao máximo o
tempo destinado para a sua travessia, transitando no momento em que o sinal
fica no amarelo e até nos primeiros instantes em que o sinal aponta a cor
vermelha, ou seja, propõe a sua parada e permite a passagem para o pedestre
[21]
Bachelard afirma: Nesse teatro do passado que é a memória, o cenário mantém os
personagens em seu papel dominante,”
[22] Segundo
SPENGLER “o que distingue a cidade de uma aldeia (ou vila) não é a sua
extensão, não é o seu tamanho, se não a presença de uma alma citadina (...) O
Verdadeiro milagre é quando nasce a alma de uma cidade. Subitamente sobre a
espiritualidade geral da cultura, destaca-se a alma da cidade como uma alma
coletiva de uma nova espécie, cujos últimos fundamentos permanecem para os
outros em eterno mistério. E uma vez desperta, se forma um corpo visível. A
coleção de casas da aldeias (ou vila), cada uma das quais com sua própria
história, se converte em um único conjunto. E este conjunto vive, respira,
cresce, adquire um rosto familiar e uma forma e uma história internas. A partir
deste momento, apesar das casas em separado, do tempo, da catedral e do palácio
(do governo), constitui a imagem urbana em sua unidade o objeto de um idioma de
formas e de uma história específica que acompanha em seu curso todo o ciclo
vital de uma cultura ”
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A CONDIÇÃO PÓS-MODERNA
UNIVERSIDADE
FEDERAL DO RIO GRANDE DO SUL
INSTITUTO
DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS
CURSO
DE CIÊNCIAS SOCIAIS
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A CONDIÇÃO PÓS-MODERNA : UMA PESQUISA SOBRE AS ORIGENS
DA MUDANÇA CULTURAL - DAVID
HARVEY -
Autor:
JACQUES JACOMINI
Fichamento
Ficha (Resumo)
HARVEY, David. A Condição Pós-Moderna - uma pesquisa sobre as
origens da mudança cultural. São Paulo: Ed. Loyola, 1993.
PANORAMA GERAL DO LIVRO
A obra de Harvey que nos ocupamos neste momento é,
sobre o meu ponto de vista, um trabalho instigante e muito interessante sobre
uma das temáticas mais discutidas e analisadas nas ciências sociais
contemporâneas, a pós-modernidade. O livro, no seu todo, traz um texto rico de
conceituações, discussões e pressupostos colocados dentro deste campo de
debate, modernidade X pós-modernidade. Além do texto, propriamente dito,
encontramos ainda nesta obra uma série de recursos iconográficos, (gravuras,
fotos, imagens de algumas obras de arte, ...), de tabelas, esquemas e de
gráficos ilustrativos que tornam o seu conteúdo ainda mais interessante e
esclarecedor. Portanto, em resumo, trata-se de uma publicação da mais alta
relevância para todos os intelectuais e pesquisadores interessados em empenhar
este debate, moderno X pós-moderno, tão presente e tão necessário no meio
acadêmico e científico.
O livro está dividido em 4 partes, mais uma introdução
que o autor chama de “a tese”, um prefácio e a parte dos agradecimentos. Para
este fichamento, nos determos somente sobre a parte 4a. - A Condição
Pós-Moderna - pois seguimos a orientação do professor da cadeira neste sentido.
Um aspecto que chama a atenção do leitor no livro, no
que concerne a sua estrutura, é a forma pontual como aborda os temas que propõe
discutir. Nesta parte 4, por exemplo, temos 9 pontos (ou tópicos) que abordam
diversas questões que estão colocadas no seio da discussão moderno X
pós-moderno, desenvolvidos de uma forma pontual, sintética e divididos entre si
dentro do corpo geral do livro.
19
A Pós-Modernidade como condição histórica
Este ponto do texto vai
discutir “As práticas estéticas e
culturais têm particular suscetibilidade à experiência cambiante do espaço e do
tempo exatamente por envolverem a construção de representações e artefatos espaciais
a partir do fluxo da experiência humana.
Elas sempre servem de intermediário entre o Ser e o Vir-a-Ser”. (pag.
293)
Surge, dentro desta perspectiva de
uma abordagem espacial e temporal, a abordagem da estética como um elemento
constituinte da pós-modernidade. Neste sentido, o autor afirma: “É possível escrever a geografia histórica da
experiência do espaço e do tempo na vida social, assim como compreender as
transformações por que ambos têm passado, tendo por referência condições
sociais e materiais. (...) Aí, as
dimensões do espaço e do tempo têm sido sujeitas à persistente pressão da
circulação e da acumulação do capital, culminando (em especial durante as crises
periódicas de superacumulação que passaram a surgir a partir da metade do século
passado) em surtos desconcertantes e destruidores de compressão do
tempo-espaço.
As respostas estéticas a condições
de compressão do tempo-espaço são importantes, e assim têm sido desde que a
separação, ocorrida no século XVIII, entre conhecimento científico e julgamento
moral criou para elas um papel distintivo.
20
Economia
com espelhos
Para empenhar uma discussão sobre o
que chama de “o triunfo da estética sobre a ética” e sobre “a construção de
imagem na política”, Harvey toma uma situação social-econômica e política no contexto histórico recente dos E. U. A . .
“Economia vodu” e “Economia de
espelhos” são metáforas que o autor utiliza para realizar uma crítica sobre as
situações sócio - econômicas que envolvem a eleição de Ronald Reagan, “um
ex-ator de cinema”, e a política desencadeada por esta eleição que Harvey
denomina de “política mediatizada moldada apenas por imagens.” (pag. 295)
O autor coloca algumas conseqüências econômicas e
sociais sobre esta situação política que destaca no cenário dos E. U. A .:
“Uma maré montante de desigualdade social engolfou os
Estados Unidos nos anos Reagan, alcançando em 1986 o ponto mais alto do período
de pós-guerra; na época os 5 % mais pobres da população, que tinham melhorado
gradualmente sua parcela da renda nacional para uma proporção de quase 7% no
início dos anos 70, viram-se com somente 4,6%.
Entre 1979 e 1986, o número de famílias pobres com filhos aumentou 35 %
e, em algumas grandes áreas metropolitanas, como Nova Iorque, Chicago,
Baltimore e Nova Orleans, mais da metade das crianças vivia em famílias com
renda abaixo da linha de pobreza. (...)
Um aumento do número de pessoas sem
moradia marcou um estado geral de deslocamento social caracterizado por
confrontos. Os doentes mentais foram devolvidos aos cuidados. de suas comunidades, (...)” (pag. 296)
Harvey continua discutindo este
panorama socio-econômico norte-americano, salientado as suas mazelas e
introduzindo as idéias do que denomina de uma “economia de cassino”, e de uma
nova cultura yuppie, com seus atavios de pequena nobreza , estreita atenção ao
capital simbólico, à moda e ao design e
de qualidade de vida urbana”. (pag. 300)
Para clarear mais ainda as suas
posições, o autor traz gráficos que remontam alguns aspectos econômicos que
está discutindo, bem como relatos de pessoas que tiveram suas vidas permeadas
por estas mazelas sociais que coloca como fruto de uma ordem política e social
implantada pelo governo norte-americano da época:
“Tenho 37 anos. Pareço ter
52. Algumas pessoas dizem que a vida nas
ruas é livre e fácil... Ela não é livre nem fácil. Não se recebe dinheiro nenhum. O pagamento é a sua saúde e a sua
estabilidade mental.”
“O nome do meu país é apatia.
Minha terra está coberta de vergonha.
O meu olhar vê as hordas sem teto passando pela chama túrgida do serviço
de bem-estar social. Ele procura quartos
e calor, alguns cabides em lugar protegido, uma gaveta; um lugar quente para
tomar sopa - para isso serve a liberdade.”
Este ponto é finalizado com o autor
falando de “um mundo abarrotado de
ilusão, de fantasia e de fingimento”.
21
O
Pós-Modernismo como o espelho dos espelhos
Este ponto do texto é bastante
breve e inicia com a afirmação do autor de que
“Uma das condições principais da pós-modernidade é o fato de ninguém
poder ou dever discutí-la como condição histórico-geográfica.” Isto é dito para
introduzir uma discussão dicotômica posterior onde entra no debate a economia e
a cultura.
O autor vai afirmar que “o
pós-modernismo surgiu em meio a este clima de economia vodu, de construção e
exibição de imagens políticas e de uma nova formação de classe social” (pag.
301), mapeando o que considera como os primórdios do pós-modernismo. Considera
ainda o fenômeno já citado anteriormente: “ (...) a passagem da ética para a
estética como sistema de valores dominante”.
22
Modernismo
fordista versus pós-modemismo
flexível, ou a
interpretação
de tendências opostas no capitalismo como um todo.
Este ponto é marcado por uma tabela
(pag. 304) onde o autor coloca aspectos característicos de dois momentos
históricos distintos, “o modernismo fordista” e o pós-modernismo flexível”.
Chama a atenção para o fato de que realizou esta tarefa utilizando uma técnica
muito em voga na pós-modernidade, “a colagem.” Trata-se de uma análise
comparativa realizada com base em pressupostos trabalhados por outros autores.
Referindo a tabela, Harvey afirma que “Ela ajuda a explicar como O Capital de Marx é tão rico em percepções
daquilo que constitui o foco do pensamento atual. Ela também auxilia a
compreensão das razoes por que as forças culturais que atuavam, por exemplo, na
Viena fin-de-siècle constituíram uma
mistura tão complexa que é quase impossível dizer onde começa ou termina o
impulso modernista. Com a sua ajuda,
podemos dissolver as categorias do modernismo e do pós-modernismo num complexo
de oposições que exprime as contradições culturais do capitalismo.” (Pag. 305)
Para maiores
detalhes, vide-tabela.
23
A lógica
transformativa e especulativa do capital.
Com a afirmação de que “O capital é
um processo, e não uma coisa”, o autor inicia mais este tópico do texto, com o
objetivo de empenhar uma discussão sobre cultura e capital (ou capitalismo).
Após algumas explicitações
sobre o capitalismo, o autor afirma: “Costuma-se considerar a vida cultural um
plano exterior a esta lógica capital.
(...) Considero este argumento errôneo em dois sentidos (...).” (pag.
307)
Em resposta a esta discussão,
destacaria o trecho em ele afirma: “Precisamente porque o capitalismo é excursionista
e imperialista, a vida cultural , num número cada vez maior de áreas, vai ficando ao alcance do nexo do
dinheiro e da lógica de circulação do capital.”
(pag. 308)
Harvey chama Bourdieu para este
debate, dizendo: “É esse o ponto em que podemos voltar a invocar a tese de
Bourdieu (...) segundo a qual cada um de nós possui poderes de improvisaçao
regulada, moldada pela experiência, que nos permite ter 'uma capacidade
interminável de engendrar produtos - pensamentos, percepções, expressões, ações
- cujos limites são fixados pelas condições historicamente situadas' de
sua produção; (...) E, sugere Bourdieu,
por meio de mecanismos desse tipo que toda ordem estabelecida tende a produzir ‘a naturalização de sua própria
arbitrariedade’, expressa no 'sentido de limites' e no ‘sentido de realidade,
que formam por sua vez, a base de uma 'adesão inerradicável à ordem
estabelecida' (...)” (pag. 308)
24
A obra de arte na era da reprodução eletrônica e dos
bancos de imagens.
A temática da “produção cultural” e
da “formação de juízos estéticos” no contexto da pós-modernidade é o eixo
central de análise deste ponto do texto.
Para iniciar a discussão, Harvey
cita Benjamin lembrando : “Em princípio, uma obra de arte sempre foi
reprodutível”, mas lembra que “a reprodução mecânica 'representa uma coisa
nova'”. Neste sentido, o autor coloca que “os avanços nas tecnologias da reprodução
eletrônica e da capacidade de armazenar imagens acentuaram consideravelmente as
previsões de Benjamim” (pag. 311), ou seja o nível tecnológico atual permitiu
uma aceleração extremamente grande da reprodução, armazenamento, recuperação e emissão
de obras de arte, de textos, documentos, imagens enfim de tudo o que é
produzido nos meios ópticos e eletrônicos.
O trecho a seguir explana o cerne
da questão discutida neste tópico do texto: “O que de fato está em jogo aqui,
contudo, é uma análise da produção cultural e da formação de juízos estéticos
mediante um sistema organizado de produção e de consumo mediado por divisões do
trabalho, exercícios promocionais e arranjos de marketing sofisticados. E, em nossos dias, o sistema inteiro é
dominado pela circulação do capital (com freqüência multinacional).” (pag. 311)
Dentro de todo este debate proposto
até aqui, Harvey propõe a análise de “duas questões importantes que se destacam
pela sua relevância direta para a compreensão da condição da pós-modernidade
como um todo.”
Para desenvolver a primeira questão,
o autor chama Benjamim novamente para o debate, fala de “capital simbólico”,
esclarecendo: “Em primeiro lugar as relações de classe vigentes nesse sistema
de produção e de consumo são de um tipo
peculiar. Sobressai aqui antes o puro
poder do dinheiro como meio de domínio do que o controle direto dos meios de
produção e do trabalho assalariado no sentido clássico. Um efeito colateral tem sido reavivar o
interesse teórico pela natureza do poder do dinheiro (em oposição ao de classe)
e pelas assimetrias passíveis de daí advirem (cf. o extraordinário tratado de
Símmel sobre The philosophy of money).”
(Pag. 312)
Para exemplificar, cita o caso das
“Estrelas da Mídia”: “As estrelas da mídia,
por exemplo, podem receber altos salários, mas ser espantosamente exploradas
pelos seus agentes, gravadoras, magnatas da mídia etc. Tal sistema de relações monetárias
assimétricas vincula-se à necessidade de mobilizar a criatividade cultural e a
inventividade estética não somente na produção de um artefato cultural, mas
também em sua promoção, embalagem e transformação em algum tipo de espetáculo
de sucesso. Mas o poder monetário assimétrico
não promove necessariamente a consciência de classe. Ele leva a exigências de liberdade individual
e de livre iniciativa. (...)” (pag. 312)
Para desenvolver a segunda questão,
o autor renova o debate com Benjamim, afirmando: “Em segundo lugar, o desenvolvimento de uma produção
e de um markenting culturais numa escala
global também foi um agente primordial de compressão do tempo-espaço, em
parte porque projetou um musée
imaginaire, um clube de jazz ou uma sala de concerto na sala de estar de
todos, mas também por várias outras razões que Benjamin considerou:
“As nossas
tavernas e as nossas ruas metropolitanas, os nossos escritórios e salas
mobiliadas, as nossas estações ferroviárias e as nossas fábricas pareciam ter
nos aprisionado irremediavelmente.
Surgiu então o filme e explodiu esse mundo-prisão com a dinamite de um
milésimo de segundo, de modo que agora, em meio às suas ruínas e detritos
espalhados, seguimos calma e audaciosamente.
Com o close-up, o espaço se expande; com a câmara lenta, o movimento é
estendido... Evidentemente, abre-se para a câmera uma natureza distinta da que
se abre para o olho nu - no mínimo porque um espaço inconscientemente penetrado
é substituído por um espaço conscientemente explorado (Benjamin, 1969, 236)”
. (pag. 313)
25
Respostas à
compressão do tempo-espaço
Neste tópico a discussão central é a “compressão do
espaço-tempo” e as suas várias respostas. O autor vai trabalhar com 4 linhas:
“ A primeira linha de defesa é a fuga para um tipo de
silencio exaurido, blasé ou
encoraçado e inclinar-se diante do
sentido avassalador de quão vasto, intratável e fora do controle individual ou
mesmo coletivo tudo é. A informação excessiva, afirma-se, é uma das melhores induções
ao esquecimento. (...)
Dentro deste campo de análise, o
autor aborda a questão do “desconstrucionismo”, afirmando que o desconstrucionismo terminou, apesar das
melhores intenções dos seus praticantes mais radicais, por reduzir o
conhecimento e o significado a um monte desordenado de significantes . Assim
fazendo, produziu uma condição de niilismo que preparou o terreno para o
ressurgimento de uma política carismática e de proposições ainda mais
simplistas do que as que tinham sido desconstruídas.” (pag. 315)
“A segunda eqüivale a uma negação voluntariosa da
complexidade do mundo, e a uma inclinação a representar essa complexidade em
termos de proposições retóricas com alto grau de simplificação. São abundantes os slogans, da direita até a
esquerda do espectro político, sendo apresentadas imagens sem profundidade para
captar sentidos complexos. Supõe-se que
as viagens, mesmo imaginárias e vicárias, ampliam a mente, mas, com a mesma
freqüência, elas terminam por confirmar preconceitos.” (pag. 315)
“A terceira resposta tem sido
encontrar um nicho intermediário para a vida intelectual e política que recusa
a grande narrativa, mas nem por isso deixa de cultivar a possibilidade de uma ação
limitada. Trata-se do ângulo
progressista do pos-modernismo, que acentua a comunidade e a localidade, as
resistências locais e regionais, os movimentos sociais, o respeito pela
alteridade etc. Trata-se de uma tentativa de extrair ao menos um mundo
apreensível da infinidade de mundos possíveis que nos são mostrados diariamente na tela da televisão.
(...)”
“A quarta resposta tem sido tentar montar no tigre da
compressão do tempo-espaço mediante a construção de uma linguagem e de imagens
capazes de espelhá-la e, quem sabe, dominá-la.
Eu ponho os escritos frenéticos de Baudrillard e Vírilio nessa categoria, porque eles parecem
diabolicamente inclinados a fundir-se
com a
compressão do tempo-espaço e a reproduzi-la em
sua própria retórica extravagante. Já vimos esse tipo de resposta
antes, mais especificamente nas extraordinárias evocações feitas por Níetzsche
em A Vontade de Poder. (...)
26
A crise do materialismo histórico
Retomando
um pouco a discussão anterior, neste
tópico o autor a firma que “o estranho é quão radicais algumas dessas respostas
deram a impressão de ser e quão difícil foi para a esquerda, em oposição à direita, lidar com elas.”
A partir de então, ele passa a analisar as percepções
existentes na “direita tradicionalista” e na “nova esquerda”:
“Da perspectiva da direita tradicionalista,
os excessos dos anos 60 e a violência de 1968 pareciam subversivos ao
extremo. Talvez por isso a descrição de
Daniel Bell em The cultural
contradictions of capitalism, embora partindo inteiramente de um ponto de
vista direitista que visava à restauração do respeito pela autoridade, tenha
sido mais precisa que muitas tentativas esquerdistas de perceber o que estava
acontecendo. Outros autores, como
Toffler e até McLuhan. viram a significação da compressão do tempo-espaço e das
confusões por ela geradas de modo que a esquerda não podia ver, justamente por
estar tão profundamente envolvida em criar a confusão. (...)”
“A nova esquerda preocupava-se com
uma luta para libertar-se das algemas duais
da política da velha esquerda, particularmente em sua representação por
partidos comunistas tradicionais e pelo marxismo 'ortodoxo', e dos poderes
repressivos do capital corporativo e das instituições burocratizadas (o Estado,
as universidades, os sindicatos etc.). Ela via a si mesma, desde o começo, como
uma força cultural e político-econômica, tendo ajudado a produzir a virada para
a estética que o pós-modernismo representava. (...)” (pag. 319)
Neste mesmo sentido, o autor coloca que “a nova
esquerda tendia a abandonar a sua fé tanto no proletariado como instrumento de
mudança progressista como no materialismo histórico enquanto modo de
análise. André Gorz deu adeus à classe
operária e Aronowitz anunciou a crise do materialismo histórico. Assim, a nova
esquerda perdeu sua capacidade de ter uma perspectiva crítica sobre si mesma e
sobre os processos sociais de
transformação que estiveram na base da emergência de modos pós-modernos de
pensamento.
Na continuação, o autor segue na sua crítica aos
autores citados e as suas propostas desconstrutivistas do materialismo
histórico, dizendo:
“Insistindo que eram a cultura e a política que
importavam, e que não era razoável nem adequado invocar a determinação
econômica mesmo em última instância (para não falar de invocar teorias da
circulação e da acumulação do capital ou de relações de classe necessárias na
produção), ela foi incapaz de conter sua
própria queda em posições ideológicas que
eram fracas no confronto com a força recém-encontrada dos
neo-conservadores, e que a forçavam a competir no mesmo terreno da produção de
imagens, da estética e do poder ideológico quando os meios de comunicação
estavam nas mãos dos seus oponentes.” (pag. 320)
27
Rachaduras nos espelhos, fusões nas extremidades
Este tópico inicia com uma pequena provocação
analítica, com a frase “Sentimos que o pós-modernismo acabou”, que vai
reintroduzir a discussão do “desconstrutivismo” no cenário da pós-modernidade.
A partir de então, o autor retoma uma perspectiva analítica que já havia
traçado sobre situações conjunturais econômicas e sociais da sociedade
norte-americana, a fim de introduzir um debate sobre o que P. Lévy (1996)[1]
chamaria de virtualização das sociedades contemporâneas, ou seja “a influencia
do capital fictício” e as operações econômicas realizadas via on-line, através
das redes informatizadas que atuam no hiperespaço (eu prefiro cyberespaço).
Destacaria alguns trechos:
“ Fortunas feitas da noite para o
dia pelos jovens, agressivos e implacáveis operadores no, hipe respaço das operações financeiras
instantâneas se perderam com muito maior, velocidade
do que foram adquiridas. A economia da cidade de Nova Iorque e de outros importantes centros financeiros foi
ameaçada pela rápida queda do volume negociado.
Mas o resto do mundo permaneceu estranhamente imóvel. 'Mundos diferentes', foi a manchete do Wall Street Journal, ao comparar a visão
'misteriosamente distante' de Main Street, EUA, com a de Wall Street.
Sobre esta questão dos “mundos
diferentes”, lembro um pouco a atual crise das bolças que se observou a nível
mundial como um contraponto interessante com esta situação levantada por
Harvey, feita com base em aspectos econômicos e sociais do final da década de
80. Não proporia um debate, neste momento, mas fica a dúvida se hoje ainda
poderíamos considerar a situação mundial, com base no caso das crises nas
bolsas observadas em praticamente todo o globo, como “mundos diferentes”,
sugerida pelo autor em questão.
“A influencia do capital fictício é ainda mais hegemônica;
ele cria seu próprio mundo fantástico de riqueza e ativos nominais enormes.
(...)”
O autor recoloca a metáfora das “rachaduras” para
referir crises vivenciadas tanto no plano econômico, como do plano intelectual,
onde vai falar de “rachaduras num edifício intelectual”.
Retomando a afirmativa do próprio título deste tópico
(ou capítulo), - Rachaduras nos espelhos, fusões nas extremidades - , Harvey
vai dizer que : “As rachaduras nos espelhos podem não ser muito grandes e as fusões
nas extremidades podem não ser muito marcantes, mas o fato de todas elas
existirem sugere que a condição da pós-modernidade passa por uma súbita evolução,
talvez alcançando um ponto de autodissolução em alguma coisa diferente. Mas o
quê ?” (Pag. 325)
Seguindo nesta perspectiva, o autor coloca a sua posição
pessoal sobre o questionamento supra mencionado, afirmando que “não é possível
dar resposta fazendo abstração das forcas político-econômicas que ora
transformam o mundo do trabalho, das finanças, (...)”. A partir de então vai tecendo algumas
análises a nível mundial das tendências que considera como verdadeiras para os
próximos anos, no campo social, político e econômico. Chama novamente W.
Wenders para o debate, definindo-o como neo-romântico (fato que discordo, pois
considero que o cineasta em questão se aproxima mais de uma “neo-arqueologia”, ou
mesmo de uma antropologia pós-moderna do que de um “neo-romantismo” [2])
e reafirma sua tendência marcadamente marxista, fato que perpassa todo o texto,
defendendo os pressupostos que encerram esta obra, dentro da idéia “de que nem tudo
está perdido” (ou alguma coisa assim):
“Além disso, há uma renovação do materialismo
histórico e do projeto do Iluminismo. Por meio do primeiro, podemos começar a
compreender a pós-modernidade como condição histórico-geográfica. Com essa base
crítica, torna-se possível lançar um contra-ataque da narrativa contra a
imagem, da ética contra a estética (...). Uma renovação do materialismo
histórico-geográfico pode na verdade promover a adesão a uma nova versão do
Projeto do Iluminismo. (...)” (pag. 325)
A frase derradeira: “Há alguns que desejam que
retomemos ao classicismo e outros que buscam que trilhemos o caminho dos
modernos. Do ponto de vista destes
últimos, toda época tem julgada a realização da 'plenitude do seu tempo, não
pelo ser, mas pelo vir-a-ser'. Minha concordância não poderia ser maior.” (pag.
326)
[1] Afirmação
feita com base na leitura de LÉVY, Pierre. O Que é o Virtual. São Paulo: Ed.
34, 1996.
[2] Afirmação
feita com base na leitura WENDERS, Wim.
A Paisagem Urbana (La Verité des Images). Paris, Lárche, 1992. In. Revista do Patrimônio
Histórico e Artístico Nacional.
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UNIVERSIDADE
FEDERAL DO RIO GRANDE DO SUL
INSTITUTO
DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS
CURSO
DE PÓS-GRADUAÇÃO EM ANTROPOLOGIA SOCIAL
EXERCÍCIO DE AVALIAÇÃO acadêmica (01)
SALEM, Tânia. "A "despossessäo
subjetiva": dos paradoxos do individualismo. In: Revista Brasileira
Ciências Sociais n° 18, ano 7, fev. 1992.
Autor:
JACQUES JACOMINI
Introdução
A proposta de Tânia Salem no artigo A “Despossessão Subjetiva”:
dos paradoxos, do individualismo é bastante interessante e adequada para
realizarmos uma espécie de fechamento das discussões que realizamos até agora
na disciplina “Individualismo, Sociabilidade e Memória”. Assim entendemos esta atividade
de avaliação e assim nos empenhamos na feitura deste pequeno ensaio.
Para a construção deste ensaio, seguimos a seguinte orientação
estrutural: Em um primeiro momento – Despossessão Subjetiva ? – trazemos
questões mais gerais tomadas do artigo de Salem, como os seus objetivos e
princípios norteadores, inspirações e influências teóricas. Neste ponto
destacamos ainda a divisão dos blocos (ou momentos) que compõe o trabalho da
autora.
Em um segundo momento - Retomando autores e suas concepções –
tentamos trazer para este ensaio
considerações sobre alguns dos autores trabalhados por Salem. Dentre
eles, elegemos Simmel para uma retomada mais pausada. Sobre este último,
realizamos inicialmente um apanhado mais geral sobre a sua teoria e,
posteriormente, uma explanação mais específica sobre as suas concepções de
indivíduo.
1.
Despossessão Subjetiva ?
Como a própria autora coloca, o objetivo deste trabalho é
“repensar o modo como cientistas sociais vêm tematizando a categoria moderna de
Pessoa, consubstanciada na noção de indivíduo e, em especial, na de indivíduo
psicológico”. Este esforço analítico de Tânia Salem tem nome: “A Despossessão
subjetiva”. A premissa básica é a de que há uma instância no interior do
próprio sujeito que o constrange às expensas de sua vontade e consciência.
A abordagem desenvolvida pela autora visa “depreender
descontinuidades significativas na representação do sujeito psicológico,
relativamente à de seu predecessor – o indivíduo jurídico”. Salem destaca ainda
que o indivíduo psicológico só adquire sentido e inteligibilidade em um
universo individualista.
O Artigo, desenvolvido em dois blocos (além da apresentação): “Do
‘Individualismo possessivo’ ao sujeito psicológico: inflexões e
descontinuidades” e “Das articulações entre a ‘despossessão subjetiva’ e a
configuração individualista”, chama para o debate diversos pensadores que
trabalhamos em sala de aula dentre os quais Dumont e Simmel aparecem em relevo. Dentre aqueles que não
abordamos e que a autora utiliza na sua análise, destacaria a presença de
Foucault que “ainda que não se referindo explicitamente à destituição do
sujeito sobre si mesmo, a tangência, e a elucida parcialmente, ao invocar as
conseqüências derivadas do fato de saber / poder formarem a partir do século
XIX um todo indissociável.”
Ao citar Gauchet & Swain – A História da individualização é,
de outro lado e necessariamente, a história de uma despossessão ou de uma
destituição subjetiva – fica claro para nós a fonte (ou uma das fontes) de
inspiração que Salem toma para articular a construção deste texto, bem como o
porque de defini-lo “A Despossessão Subjetiva”.
Retomando Autores e suas Concepções
Salem destaca que os primórdios da investigação sobre este tema
estão calcados na obra de Mauss, porém é Dumont que “é o autor contemporâneo
que mais extensa e sistematicamente se empenhou na relativização e na crítica
contumaz da moderna categoria de indivíduo”.
Tendo como tese central a oposição entre individualismo e holismo,
a contribuição de Dumont, segundo a autora, revelou-se insuficiente para a
apreensão da categoria moderna de indivíduo. Diante desta situação, a
recorrência as teses de Simmel, Lasch, Sennett, Ariès, Foucault, entre outros é
a alternativa capaz de “suprir o ‘elo falante’ relativamente ao eixo analítico
dumontiano.” Diante dos pensadores “alternativos” que colaboram para a
“despossessão subjetiva”, destacados por Tânia Salem, elegemos Simmel para
realizarmos um aprofundamento maior sobre as suas concepções.
Para Simmel, a sociedade existe onde vários indivíduos entram em
interação. Esta ação reciproca se produz sempre por determinados instintos ou
para determinados fins. Instintos eróticos, religiosos ou simplesmente sociais,
fins de defesa ou ataque, de jogo ou ganho, de ajuda ou instrução, estes e infinitos outros fazem com que o
homem se encontre num estado de convivência com outros homens, com ações a
favor deles, em conjunto com eles, contra eles, em correlação de circunstâncias
com eles. Essas interações significam que os indivíduos, nos quais se encontram
aqueles instintos e fins, fora por eles levados a unir-se, convertendo-se numa
unidade, numa "sociedade". Pois unidade em sentido empírico nada mais
é do que interação de elementos. O mundo não poderia ser chamado de uno, se
cada parte não influísse de algum modo sobre as demais, ou se em algum ponto se
interrompesse a reciprocidade das influências.
A unidade ou sociaçäo pode ter diversos graus, segundo a espécie e
a intimidade que tenha a interação - desde a união efêmera para dar um passeio
até a família - desde as relações por prazo indeterminado até a pertinência a
um mesmo Estado - desde a convivência fugitiva num hotel até a união estreita
de uma corporação medieval. Simmel designa como conteúdo ou matéria da sociaçäo
tudo quanto exista nos indivíduos (portadores concretos e imediatos de toda a
realidade histórica) - como instinto, interesse, fim, inclinação, estado ou
movimento psíquico -, tudo enfim capaz de originar ação sobre outros ou a
recepção de suas influências.
Dito de outra forma, podemos considerar conteúdos (materiais)
versus formas de vida social onde:
1°) uma delas é que em qualquer sociedade humana pode-se fazer uma
distinção entre seu conteúdo e sua forma.
2°) é que a própria sociedade em geral se refere à interação entre
indivíduos. Essa interação sempre surge com base em certos impulsos ou em
função de certos propósitos. Os instintos eróticos, os interesses objetivos, os
impulsos religiosos e propósitos de defesa ou ataque, de ganho ou jogo, de auxilio
ou instrução, e incontáveis outros, fazem com que o homem viva com outros
homens, aja por eles, com eles, contra eles, organizando desse modo,
reciprocamente, as suas condições - em resumo, para influenciar os outros e
para ser influenciado por eles. A
importância dessas interações esta no fato de obrigar os indivíduos, que
possuem aqueles instintos, interesses, etc.; a formarem uma unidade -
precisamente, uma "sociedade".
A sociaçäo só começa a existir quando a coexistência isolada dos
indivíduos adota formas determinadas de cooperação e de colaboração, que caem
sob o conceito geral da interação. A sociaçäo é, assim, a forma realizada de
diversas maneiras, na qual os indivíduos constituem uma unidade dentro da qual
se realizam seus interesses. E é na base desses interesses - tangíveis ou
ideais, momentâneos ou duradouros, conscientes ou inconscientes, impulsionados
casualmente ou induzidos teleologicamente - que os indivíduos constituem tais
unidades.
Em qualquer fenômeno social dado, conteúdo e forma sociais
constituem uma realidade unitária. Uma forma social desligada de todo conteúdo
não pode ter existência, do mesmo modo que a forma espacial não pode existir
sem uma matéria da qual seja forma. Tais são justamente os elementos,
inseparáveis na realidade, de cada ser e acontecer sociais: um interesse, um
fim, um motivo e uma forma ou maneira de interação entre os indivíduos, pelo
qual ou em cuja figura aquele conteúdo alcança realidade social. Portanto,
temos nem só objetividade, nem só subjetividade. Somente quando a vida desses
conteúdos adquire a forma da influência reciproca, só quando se produz a ação
de uns sobre os outros - imediatamente ou por intermédio de um terceiro - é que
a nova coexistência social, ou também a sucessão no tempo, dos homens, se
converte numa sociedade.
Para clarear um pouco mais a tese
geral de Simmel, destacamos a seguinte citação:
“Por sociedade não entendo apenas o conjunto complexo dos
indivíduos e dos grupos unidos numa mesma comunidade política. Vejo uma
sociedade em toda parte onde os homens se encontram em reciprocidade de ação e
constituem uma unidade permanente ou passageira. Logo, em cada uma dessas uniões produz-se um
fenômeno que caracteriza, da mesma forma, a vida individual; a cada instante,
forças perturbadoras, externas ou não, opõem-se ao agrupamento, e este, se for
deixado a agir por sua própria conta, não tardarão elas a dissolvê-lo, isto é,
a transferir seus elementos para agrupamentos estranhos. ... Nessa
circunstância, temos a sociedade como uma unidade sui generis, distinta de seus
elementos individuais”.
No que tange a questão específica da concepção de indivíduo em
Simmel, podemos afirmar que “indivíduo em Simmel afirma-se como um ser
proprietário de si, tanto perante a sociedade quanto de um ponto de vista
subjetivo”.
O indivíduo psicológico em Simmel fala de um sujeito fundado em
uma autonomia subjetiva radical capaz de erigir em torno de si um abrigo intimo
que o protege dos "outros".
Sobre a concepção de
indivíduo moderno, temos Simmel em uma posição diferenciada de Dumont e
Pacpherson, pois estes apresentaram uma preocupação sobre o plano formal ou
externo do indivíduo (indivíduo jurídico), enquanto que Simmel debruçou-se de
forma explícita sobre o domínio mais propriamente interno do indivíduo
(indivíduo psicológico).
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As Regras do Método Sociológico
Edição de texto em andamento.
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TRABALHO
MONOGRÁFICO APRESENTADO NA
UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO SUL
INSTITUTO DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS
CURSO DE PÓS-GRADUAÇÃO EM ANTROPOLOGIA SOCIAL
DENOMINADO
- As Festas
Populares Religiosas de
Santa Isabel e
de Nossa Senhora da
Imaculada Conceição: uma
análise comparativa entre
os dois maiores
festejos católicos da
Cidade de Viamão
-
Autor:
Jacques Jacomini
INDICE
Introdução ..............................................................................................
03
1. Os traços identitários formadores das santidades em
debate
1.1 Santa Isabel .................................................................................
05
1.2 Nossa Senhora da Imaculada
Conceição...................................... 07
2. Os festejos populares religiosos pesquisados
3. Dados históricos sobre as comunidades estudadas ............................
13
4. Análise comparativa entre as duas festas populares
religiosas pesquisadas 16
Conclusão ..............................................................................................
19
Bibliografia ............................................................................................
21
Anexos ...................................................................................................
23
INTRODUÇÃO
A presente
monografia representa o esforço de concluir os trabalhos realizados na cadeira
Teorias da Cultura, ministrada pelo Professor Ruben Oliven, do Programa de
Pós-Graduação em
Antropologia Social / Instituto de Filosofia e Ciências
Humanas / Universidade Federal do Rio Grande do Sul, através da análise de um
tema específico no âmbito do conhecimento das teorias da cultura.
As festas
populares de cunho religioso estão presentes em quase todo o território
nacional. Cada localidade ou cidade possui traços característicos e uma
dinâmica bastante peculiar, segundo a tipologia de significação e de
simbolização que os agentes religiosos e comunitários imprimem nos seus
eventos. Diante deste contexto mais geral, selecionamos duas festas religiosas
que acontecem no município de Viamão para fazer uma análise comparativa entre
as suas principais características. No contexto mais teórico, nos embasamos no
pressuposto de que “nenhum objeto, nenhuma coisa é ou tem movimento na sociedade
humana, exceto pela significação que os homens lhe atribuem” (SAHLINS, 1979).
Portanto, tentaremos perceber, com base na pesquisa realizada, os aspectos
concernentes a carga de simbolização e de construção social dos significados
que envolvem, delimitam ou delineiam estas duas festas populares.
A cidade de
Viamão é uma das maiores, em termos de população (220.000 habitantes) e
extensão territorial (1.487 Km2), da região metropolitana de Porto Alegre (Ver
anexo 1). Neste município existe uma divisão distrital que aponta para a
formação de dois grandes centros urbanos: região central, sede administrativa e
política do município, e região da Grande Santa Isabel, centro comercial ligado
mais diretamente a Porto Alegre. Percebendo que existe duas festas religiosas
populares ligadas a cada um destes dois pólos físico-geográficos, proponho
realizar uma análise etnográfica e historiográfica de alguns aspectos sociais
ligados a religiosidade destas duas localidades, através dos eventos anuais
mais significativos para estas comunidades: a festa de suas padroeiras.
A região da grande Santa Isabel tem a sua
devoção pela santa que a denomina, Santa
Isabel (Ver anexo 2) e a região central de Viamão tem a sua devoção voltada
para Nossa Senhora da Imaculada
Conceição (Ver anexo 3). Orientado por uma perspectiva relacional e dialética,
iniciarei o trabalho com a descrição das principais características e
especificidades das santas e das festas em debate, investigando os principais aspectos das festividades
realizadas em torno da adoração de ambas as santas. Em um segundo momento,
trabalho com alguns dados históricos que colaboram no entendimento da atual
dinâmica social observada nas comunidades observadas. Na parte final do
trabalho, me proponho a realizar uma análise comparativa entre as duas festas,
resgatando e apontando as suas principais semelhanças e diferenças,
relacionando-as com a dinâmica social e história destas duas localidades. Nos
anexos apresento iconografias referentes as construções textuais deste trabalho
que enriquecem e reapresentam alguns dados já expostos no corpo da monografia.
Quanto a
metodologia empregada, é importante destacar que abordo o meu objeto de estudo
através do método etnográfico, (pesquisa qualitativa), incorporando as
técnicas de observação direta e participante, complementadas com a realização
de entrevistas e com a produção de imagens fotográficas e iconográficas. Destaco que entendo a
observação participante como uma importante técnica de pesquisa, pois trata-se
de “um processo pelo qual mantém-se a presença do observador numa situação
social com a finalidade de realizar uma investigação científica. O Observador
está em relação face-a-face com os observados e, ao participar da vida deles no
seu cenário natural, colhe dados. Assim, o observador é parte do contexto sob
observação, ao mesmo tempo modificando e sendo modificado por este contexto.”[1]
1. OS TRAÇOS IDENTITÁRIOS
FORMADORES DAS SANTIDADES
EM DEBATE
1.1 SANTA ISABEL
“Ó
Deus,
destes
para nós o exemplo de vida de Santa Isabel
que
reconheceu e venerou Cristo nos pobres e doentes.
Daí
a todos nós, por sua inercessão,
Seguir
o exemplo de vida, no serviço aos pobres e aflitos,
Amando-os
como Cristo os amou.
Amém.
Ave
Maria ...
Santa
Isabel, rogai por nós !”
Oração
à Santa Isabel
Delinear os
traços formadores e fundadores das santidades em debate, foi um anseio deste
pesquisador na construção do presente trabalho, diante da carga simbólica e
imaginativa que estão empregnados. Atividade que não foi muito fácil devido as
fontes disponíveis para pesquisa. Lançamos mão de alguns panfletos, livros e
outros impressos cedidos pelas paróquias e colhemos relatos dos padres que são
responsáveis pelas igrejas pesquisadas, a fim de ter algumas informações
básicas sobre as santas Isabel e Imaculada Conceição.
Segundo as
informações colhidas nas entrevistas com o Padre Carlos e Padre Leoclides,
párocos da Igreja Matriz de Santa Isabel, esta santa nasceu na Hungria em 1207,
ainda muito jovem casou-se com o Duque Luís IV, tornando-se rainha da Hungria.
Isabel era de caráter vibrante e muito dedicada à oração, possuindo grande amor
para com os pobres e doentes e trabalhava contra toda injustiça feita ao seu
povo. O seu marido a apoiava neste intuito de auxiliar os mais necessitados,
porém com a morte de seu marido em uma batalha campal, ela foi obrigada, pela
sogra e cunhadas, a deixar a corte, com vinte anos e mãe de três filhos. A sua
expulsão aconteceu justamente pela sua opção de auxiliar e apoiar com afinco e
retidão os mais pobres e necessitados, contrariando assim a sua orientação
social de nobre que a cobrava um outro tipo de postura diante dos pobres. Desde
então, abandonou a sua condição social anterior e passou a dedicar-se
exclusivamente aos pobres. Ingressou na Ordem Terceira Franciscana,
dedicando-se com afinco no auxílio a pessoas doentes. O desfecho desta história
acontece com a sua morte que aconteceu em 17 de novembro de 1231, quando
possuía apenas 24 anos e encontrava-se em uma situação de extrema pobreza e
sofrendo de uma doença não nominada, mas mencionada como irreversível para os
níveis tecnológicos da medicina praticada na época.
Como podemos
perceber pelos relatos dos religiosos entrevistados, é muito presente no seu
imaginário a opção da santa pelos pobres e doentes, o sofrimento que passou na
defesa destes, a sua expulsão do castelo em que morava devido a esta opção,
após a morte do seu marido, fatos que delineiam a conduta moral e social da
Santa Isabel.
A opção pelos pobres e pela justiça social
colhida da história de Isabel orienta toda a filosofia de trabalho e
organização da paróquia da Santa Isabel até hoje. Os religiosos declaram que,
na oportunidade da fundação da paróquia, a comunidade que procurava uma santa
para ser a sua padroeira fez a sua opção pela Santa Isabel justamente pelo fato
de que estas características da sua trajetória de vida eram significativas para
esta comunidade formada por pessoas muito humildes, pobres e sofredoras devido
a uma série de carências econômicas e sociais. Perguntados sobre os detalhes
desta escolha, os religiosos comentam que a opção pode ter sido realmente
definida muito mais por influência da vivência dos párocos da época que eram
europeus e traziam na bagagem um pouco da história da Isabel da Hungria do que
pela ansiedade popular de possuir uma padroeira com quem se identificassem, uma
vez que os primeiros moradores da região não tinham contato com este tipo de
informação.
Na sua imagem
esculpida em gesso presente na Igreja Matriz da Santa Isabel merece destaque
alguns ornamentos, cores e formas. As cores predominantes na sua vestimenta são
o vermelho, o azul e o verde e o dourado da sua coroa. Em uma mão ela carrega
um cesto com rosas e na outra, uma espécie de bastão. Segundo o Padre Carlos,
em determinada situação, Santa Isabel, ainda rainha da Hungria, havia pegado um
cesto de pães para distribuir entre os pobres em uma atitude que contrariava a
sua família devido a situação social que ocupava. Ao distribuir os pães, as
suas cunhadas e sua sogra surprenderam-na, tentando impedila de tal ato. Isabel,
tentando simular a sua investida, evitando assim o conflito com sua família
haveria realizado o seu primeiro milagre, através da transformação dos pães em
rosas.
1.2 NOSSA SENHORA DA
IMACULADA CONCEIÇÃO[2]
“Se
o Brasil nasceu à sombra da Cruz, organizou-se, cresceu, prosperou amparado
sempre pela mãe santíssima, venerada ternamente e invocada sob numerosos
títulos, cada qual mais belo e expressivo ... Entre os títulos marianos
prevalece o da Imaculada, que exorna, com muitos secundários, mais de 350 dos
templos principais. E era natural. Desde os primórdios floresceu em Terras de
Santa Cruz a devoção à Imaculada Conceição de Maria, implantada pelos
descobridores.”
Papa
Pio XII numa alocução de 1954
A tradição que
envolve a cultuação à Imaculada Conceição de Maria Santíssima está intimamente
relacionada a cultura portuguesa e aos colonizadores portugueses que aportaram
no Brasil na época do descobrimento. Em 1646 o Rei D. João IV consagrou
Portugal e todos os seus domínios (inclusive o Brasil) a Nossa Senhora da
Conceição. Alguns teólogos afirmam que o culto à Imaculada Conceição faz parte
das mais antigas e veneráveis tradições brasileiras e que desde o seu
nascimento, o Brasil vive sob o manto e o patrocínio de Maria Imaculada.
Nos primeiros
séculos da história da igreja, o privilégio da Imaculada Conceição era
tranqüilamente e sem contestações professado de modo implícito, no paralelo,
com muita freqüência estabelecido pelos padres da igreja, entre Eva e Maria.
Assim como a
antiga Eva saíra pura e imaculada das mãos divinas, assim também a nova Eva,
Maria, deveria ter saído das mãos do criador, pura e imaculada. Isto é tanto
mais razoável quanto a primeira Eva haveria de legar a morte a toda a sua
descendência, enquanto a Segunda Eva daria a todos os seus filhos o oposto, ou
seja, a vida. Seria contraditório que tivesse incorrido na culpa de Eva
precisamente aquela que foi ordenada por Deus para a reparação de tal culpa.
Também era
freqüente, nos padres da igreja, tanto do Oriente quanto do Ocidente, a
proclamação da absoluta pureza e santidade de Nossa Senhora e nessa proclamação
estava, sem dúvida, implícita a verdade da Imaculada Conceição, pois a mancha
do pecado original não poderia compaginar-se com tão ilibada pureza e tão
exímia santidade.
Nossa Senhora da
Conceição é conhecida também como Patrona do Exército Brasileiro. A “Canção do
Soldado”, hino do exército, era um antigo cântico em louvor da Imaculada.
Segundo narração do General Dionísio Cerqueira, em suas memória sobre a Guerra
do Paraguai, que na véspera da Batalha de Tuiuti (23 de maio de 1866) “ao toque
de recolher, às oito da noite, todos os corpos formaram. Depois da chamada, os
sargentos puxaram as companhias para a frente da bandeira e rezou-se o terço.
Alguns praças, os melhores cantores, entoaram em voz vibrante, sonora e cheia
de sentimento, a velha canção do soldado brasileiro: Ó Virgem da Conceição,
Maria Imaculada, vós sois a advogada dos pecadores, e a todos encheis de graça
com a vossa feliz grandeza. Vós sois dos céus, princesa, e do Espírito
Santo, Esposa. Maria mãe de graça, mãe
de misericórdia, livrai-nos do inimigo e protegei-nos à hora da morte, Amém.”[3] Durante a Guerra do
Paraguai, todas as noites o exército brasileiro se perfilava e, em conjunto,
rezava o terço, sendo acompanhado pelas bandas de música.
Nossa Senhora da
Conceição é também padroeira do Seminário Maior de Viamão e nomina a sua
instituição de ensino: Faculdade de Filosofia Nossa Senhora da Imaculada
Conceição (FAFIMC). Esta é a única instituição de ensino superior do município,
situa-se na margem da RS-040 (parada 48) e traz na parte superior do prédio uma
grande imagem da santa na cor branca, juntamente a um grande relógio. Durante a
noite, para quem transita pela RS, a imagem da santa é bastante visível e chama
bastante a atenção das pessoas que por ali passam devido a sua beleza,
imponência e a um bom sistema de iluminação que facilita a visualização mesmo a
quilômetros de distância da imagem.
Na sua imagem
esculpida presente na Igreja Matriz de Viamão
merece destaque alguns ornamentos, cores e formas. As cores predominantes na
sua vestimenta são o vermelho, o azul e
o dourado da sua coroa. Tem as mãos postas e está coberta por um vasto manto
bastante colorido.
2. OS FESTEJOS POPULARES RELIGIOSOS
PESQUISADOS
As principais
atividades da festa da padroeira da Santa Isabel são realizadas na semana que circunda a data da morte da
Santa, 17 de novembro, porém os festejos mais gerais acontecem durante todo o
mês de novembro. Isto acontece em função de que os festejos são divididos em
duas programações, uma programação chamada de “Social” e outra denominada de
“Religiosa”. O centro dos eventos é a própria paróquia e a organização fica a
cargo de uma comissão de organização chamada de “festeiros” composta por 30
pessoas na oportunidade em que acompanhamos. Nos meses que antecedem o evento,
os festeiros fazem diversas reuniões na igreja antecipando todos os
procedimentos necessários para a realização da festa da padroeira. Estas
reuniões e a organização como um todo são realizadas em parceria com as
Comunidades Eclesiais de Base (CEBES) e as capelas localizadas nas vilas próximas ao núcleo
central da Vila Santa Isabel ligadas à igreja matriz.
A programação
religiosa tem por objetivo reunir os devotos da santa mais ligados as
atividades regulares da paróquia em torno das missas especiais, grupos de
orações, procissões, entre outras celebrações religiosas. Na oportunidade em
que acompanhamos as atividades da festa, observamos que esta programação
religiosa iniciou no dia quinze de novembro com uma missa onde estiveram
presentes todas as comunidades religiosas ligadas à Igreja Matriz de Santa
Isabel e o tema era em “Louvor e Partilha das Santas Missões”. O encerramento
das atividades do programa religioso aconteceu no dia vinte e um de novembro,
denominado como o “Domingo da Padroeira”, com missa temática, “Sede Santos como
vosso Pai é Santo”, procissão e uma missa solene após a procissão com o tema “A
Exemplo de Santa Isabel caminhamos à Santidade”. Talvez um dos momentos mais
esperados desta programação tenha sido a procissão luminosa que aconteceu no
dia dezenove de novembro com saída da Igreja Matriz em direção à Comunidade
Scalabrini, uma das dez comunidades religiosas ligadas à matriz que localiza-se
na Vila Luciana, proximidades da Vila Santa Isabel. Nesta oportunidade a fé e a
adoração da santa sai do universo paroquiano e ganha a publicidade popular
pelas principais ruas da vila, com uma grande adesão dos moradores que não
estão ligados diretamente a igreja, fiéis e seguidores mais freqüentes.
A programação
social tem por objetivo reunir a comunidade de um modo geral, tentando
propiciar a possibilidade de participação daqueles agentes sociais que não
estão ligados mais diretamente as atividades de cunho estritamente religioso.
É a oportunidade para que as
personalidades públicas como o prefeito da cidade e demais autoridades
públicas, empresários, etc. participem dos festejos populares religiosos
emprestando o seu prestígio social para o evento e, ao mesmo tempo,
aproveitando um espaço público de grande adesão da comunidade local para
divulgar as suas idéias, externar as suas posições através de um pronunciamento
oficial ou mesmo atuando nos bastidores da festa. Na oportunidade em que
acompanhamos as atividades da festa, observamos que esta programação social
iniciou no dia seis de novembro com um jantar dançante com música ao vivo, onde
foi servido churrasco, galeto, feijão mexido, abóbora caramelada e buffet de
saladas, além de outros pratos quentes. O encerramento das atividades do
programa social aconteceu no dia vinte e oito de novembro, com a realização de
um chá de confraternização onde foi realizado um concurso de escolha da Rainha
Infantil da Festa.
Um dos momentos
mais esperados desta programação para uma grande parte de comunidade carente da
região talvez seja o “Almoço da
Solidariedade”. No dia quatorze de novembro aconteceu um almoço especial
oferecido para pessoas pobres e carentes da comunidade da Santa Isabel. Esta é
uma atividade impregnada de significado religioso defendida pelos padres e
responsáveis pela paróquia que afirmam: sendo a Santa Isabel protetora e
zeladora dos pobres e doentes, este momento dos festejos é voltado
especialmente para aquelas pessoas que não possuem recursos para participar dos
outros momentos da festa onde são cobrados ingressos, convites, etc. Para ter
acesso a este almoço, as pessoas interessadas procuram com antecedência a
secretaria da igreja, declarando a sua situação de carência, para serem
cadastradas, recebendo uma ficha que deve ser apresentada no dia do almoço.
Paralelo ao “Almoço da Solidariedade”, acontece o “Almoço Festivo da Padroeira”
no “Domingo da Padroeira”, domingo mais próximo no calendário ao dia da santa,
17 de novembro. Este é o ponto alto da programação social e aconteceu no dia
vinte e um de novembro na oportunidade em que acompanhávamos as festividades do
ano de 1999. O cardápio básico é composto por galeto e buffet de saladas e
pratos quentes. Além do almoço festivo, oportunidade em que o salão paroquial
ficou inteiramente tomado pela comunidade com a presença de, aproximadamente,
500 pessoas, nesta mesma oportunidade aconteceram brincadeiras do tipo
“Pescaria”, realização de rifas promocionais e sorteio de brindes. No almoço
estiveram presentes autoridades do município como o prefeito municipal,
vereadores e empresários. Após ao almoço aconteceu uma “domingueira”, baile ao
estilo gaúcho com presença de músicos tradicionalistas que animaram a festa até
o início da noite de Domingo.
“...
havia um povo que, no final do ano, lá pelo mês de dezembro, reunia-se para
louvar e agradecer o amor de Deus pai manifestado em Nossa Senhora , que em sua Imaculada Conceição
trouxe salvação ao mundo. Juntos eles revezavam, refletiam e celebravam ! Com
alegria e fé, foram passando essa tradição adiante ...
Agora
no ano de 1999, você e sua família estão convidados para participar da novena e
da festa de Nossa Senhora da Conceição. Será um momento de encontros,
reencontros e, sobretudo, de muita fé. Venha ! Sua presença é muito importante
para continuarmos esta história ! ”
Texto divulgado no panfleto chamando a
comunidade para a festa da Nossa Senhora da Imaculada Conceição
As principais
atividades da festa da padroeira de Viamão são realizadas no mês de dezembro. Os festejos possuem uma
programação geral com atividades religiosas e sociais. O centro dos eventos é a
própria paróquia e a organização fica a cargo de uma comissão de organização
chamada de “festeiros” composta por 27 pessoas na oportunidade em que
acompanhamos. Nos meses que antecedem o evento, os festeiros fazem diversas
reuniões na igreja antecipando todos os procedimentos necessários para a
realização da festa da padroeira. Estas reuniões e a organização como um todo
são realizadas em parceria com as capelas localizadas nas vilas próximas ao
núcleo central da igreja matriz de
Viamão.
A programação
observada iniciou no dia 29 de novembro e se estendeu até o dia 8 de dezembro.
No período de 29 de novembro a 07 de dezembro foi realizada uma Novena em
louvor à Nossa Senhora da Conceição. Cada dia da novena foi dedicado a um tema
específico do tipo: “Maria, Mãe fiel e corajosa”, “Maria Mãe dos caminhantes”,
“Maria, rainha das famílias”, ... O tema central da festa do ano de 1999 foi:
“Com Maria rumo ao Novo Milênio”. Entre os dias 1º e 3 de dezembro aconteceram apresentações artístico-culturais na frente
da igreja, atividade que envolveu um grande número de viamonenses,
especialmente no dia 03 de dezembro, oportunidade na qual a Orquestra Sinfônica
de Porto Alegre (OSPA) se apresentou pela primeira vez na cidade de Viamão.
Para a realização desta atividade houve uma espécie de parceria entre a
paróquia e a Prefeitura Municipal de Viamão, através da Secretaria Municipal de
Cultura. No dia 5 de dezembro ocorreu o almoço festivo à Nossa Senhora da
Conceição no salão paroquial da matriz, reunindo cerca de 300 pessoas. Entre
elas, estiveram presentes representantes dos poderes público executivo e
legislativos, entre outras autoridades. O prefeito municipal, o presidente da
Câmara de Vereadores e demais integrantes dos poderes executivo e legislativo
prestigiaram o evento. O cardápio principal do almoço era composto de churrasco
e buffet de saladas. Um comunicador, através de um sistema de som com
alto-falantes distribuídos no entorno da igreja, fazia o trabalho de emissão de
recados e animador da festa. Após ao
almoço foi realizada uma missa e uma procissão. No encerramento das
festividades, dia 8 de dezembro, houve novamente um almoço comemorativo, uma
missa e uma procissão luminosa pelo centro da cidade de Viamão.
A programação
pesquisada e observada que tem por objetivo reunir a comunidade de um modo
geral, tentando trazer um bom número de viamonenses a participar das
festividades da padroeira merece um destaque. Pelo fato de que as grandes vilas
populares de Viamão e, portanto, a maior densidade da massa populacional
encontram-se nas margens da RS 040, especialmente no trecho entre as paradas 32
e 42, a
adesão destes viamonenses nas festividades da padroeira realizada no centro da
cidade não acontece de uma forma expressiva. Agrega-se a estes aspectos
geográficos e populacionais uma “Cultura” de deslocamento do tipo pendular
desta população citada em direção ao centro de Porto Alegre e não ao centro de
Viamão.
Segundo relatos
dos religiosos entrevistados, a Festa do Divino Espírito Santo que acontece
anualmente no centro de Viamão talvez tenha uma expressão e uma adesão popular
maior que as festividades realizadas em torno da padroeira da cidade. Esta
festa possui características semelhantes a festa da padroeira, especialmente
devido a sua origem cultural de cunho luso-brasileira.
3. ALGUNS DADOS HISTÓRICOS
SOBRE AS COMUNIDADES
EM DEBATE
Nesta parte do
trabalho, trazemos alguns dados históricos que remontam ao início do povoamento
das comunidades que estamos investigando. Cabe destacar as diferenças entre os
períodos histórico de fundação da Paróquia do Centro de Viamão em contraste com
o período histórico que define a fundação da Paróquia da Santa Isabel.
Segundo alguns historiadores como Clóvis
Silveira de Oliveira, o surgimento da “Freguesia de Viamão” está ligada às
viagens que João de Magalhães faz por volta de 1714 por orientação do então
Governador do Rio de Janeiro D. Francisco de Távora que pretendia “fazer
vistorias nos lados do sul”[4]. O povoamento do extremo sul do Brasil
acontece, segundo o historiador Walter Spalding, com a chegada de Dona Ana da
Guerra, irmã do Capitão-mor Francisco de Brito Peixoto, fundador de Laguna e um
dos grandes tropeiros da época, mais seu genro, João de Magalhães, que
estabeleceram-se nos “Campos de Viamão” [5].
Ali, em terras de Dona Ana, foi erguida uma capelinha em louvor de Nossa
Senhora da Conceição e Santana e, ao seu redor, logo se formaria uma pequena
localidade que ficou conhecida por Lombas de Santana[6]. Neste momento se materializa, através
da capela, o primeiro ato efetivo de adoração à Nossa Senhora da Imaculada
Conceição.
Em meados de 1740, fato semelhante provocaria o
surgimento de um outro povoado. Francisco Carvalho da Cunha doaria uma légua de
terra para a construção de uma outra capela, a de Nossa Senhora da Conceição do
Viamão, que logo se transformaria em uma igreja. Esta segunda capela chegou a
categoria de igreja e permanece no local onde ainda hoje encontramos a Igreja
Matriz de Viamão. Em volta desta igreja
fundou-se um grande povoado, povoado de
Viamão, que já em 1747 era elevado à categoria de freguesia.
Já relacionando
a ocupação do centro de Viamão com a sua periferia, é interessante destacar um
outro dado que remonta à dinâmica social e espacial desta época e que sugere um
tipo de interpretação que aqui empenhamos. Na sua relação com o mundo exterior,
o povoado de Viamão estava distante do mar (cerca de 120 Km ) e sem possibilidade
de erguer qualquer tipo de porto na sua costa,
só possuía comunicação com o restante do Brasil por terra. Porém, em
determinado momento, descobriram, a mais ou menos 60 Km de distância da sede do
povoado, uma grande lagoa denominada de “Guaybe” pelos indígenas. Este fato
levou os habitantes de Viamão a criarem um porto naquele local, o Porto de
Viamão. Este mesmo porto passaria a ser denominado Porto do D’Ornelas ou Porto
do Dorneles, quando da radicação de Jerônimo de Ornelas (mais seus agregados e
parentes) naquele mesmo local e de Porto do Dionísio, quando utilizado como
escoadouro da estância de Dionísio Rodrigues Mendes (Fundador da Capela de
Nossa Senhora de Belém, hoje Belém Velho). A chegada dos casais açorianos, em
1752, marca o início da colonização do
então Porto de Viamão (nome dado a um ancoradouro nos fundos da Sesmaria de
Jerônimo de Ornellas, onde está agora a Praça da Alfândega). Instalados em
casas de palha no local onde encontramos hoje a atual Praça da Alfândega, os
casais vindos das Ilhas dos Açores inauguravam o que viria a ser “um arraial
bastante fértil”. [7]
A primeira
ocupação do trecho inicial no eixo “Porto de Viamão” – “Freguesia de Viamão”
(Rio Guaiba até a atual divisa dos Municípios de Viamão e Porto Alegre)
acontece no momento em
que Jerônimo de Ornelas se estabelece no Porto de Viamão e
escolhe o Morro Santana para construir a sede da sua sesmaria (Segundo Oliveira
nas imediações da atual Escola de Agronomia da UFRGS). Nas medidas atuais, essa
sesmaria teria uma área de aproximadamente 14.000 hectares ,
abrangendo assim a atual área da Santa Isabel [8].
Contudo, uma ocupação mais efetiva observada na área da Santa Isabel remonta
aos anos 50 e 60 do século XIX foi uma
das primeiras a sofrer a ocupação urbana característica da segunda metade deste
século no município. Segundo a nossa pesquisa, percebemos que até ao final da
década de 40, toda esta área, situada a Leste do Morro Santana, num extenso
vale, era rural, compreendida por várias chácaras e tambos de leite. O primeiro
loteamento a surgir foi denominado “Lomba do Sabão”, inscrito no Cartório de Registro de Imóveis do Município
em 07 de janeiro de 1944. A
ocupação efetiva dos altos da atual Avenida Liberdade (Via do Trabalhador), no
entanto, só ocorreu a partir de 1953, com o loteamento “Nossa Senhora
Medianeira” .
O referido
loteamento surgiu no lugar onde se situava a chácara do agrimensor Francisco Hormes, que adquiriu a propriedade
de Breno Alves (morador de Porto Alegre). Hormes veio de Taquara e como devoto
de Nossa Sra. Medianeira, ao fazer o loteamento, reservou um pedaço de área
verde para a construção de um santuário, a primeira capelinha católica da região,
localizada na rua Dr. Nilo. Desta forma, inicia-se a ocupação urbana do
território, surgindo também os equipamentos de infra-estrutura. Ao lado da área
reservada à Capela foi instalado uma bomba d’água com poço artesiano para o
abastecimento, identificada pela população como “Bica”, cujo vertedouro ainda
existe bem como a referida bomba d’água. Com o passar dos anos, o local foi
abandonado e ocupado por moradias irregulares. Somente na década de 80 é que
membros da comunidade católica reiniciaram o processo de utilização da Capela,
que já foi ocupada por uma escola que incendiou e mais tarde foi instalado no
local um posto policial. Atualmente a área é utilizada por um Clube de Mães.
A Igreja da
Santa Isabel[9]
teve sua primeira sede onde hoje localiza-se a Escola Estadual Walt Disney e o
centro Espirita Caminho da Luz, confluência das ruas Medianeira e Lisboa (Ver
mapa anexo). Sobre as razões que ocasionaram a mudança do local da igreja,
existem duas afirmativas recorrentes nas falas dos nossos informantes. A
primeira indica que os padres perceberam que havia um maior fluxo de pessoas
nas imediações da atual Avenida Liberdade,
resolvendo, portanto transferi-la para onde ela está atualmente. A
Segunda depõe sobre uma calamidade
acontecida em torno de um grande vendaval que destruiu a igreja localizada na
confluência das Ruas Lisboa e Medianeira e esta seria uma das razões do
deslocamento do centro religioso para um outro local, em função de existir uma
avaliação que a atual localização não era mais viável para o centro religioso.
Existe um questionamento popular sobre a posse do primeiro sino da Igreja da
Santa Isabel que, após ao vendaval, haveria sido transportado, juntamente com o
resto dos materiais de construção da igreja para a comunidade Santo Agostinho
na Vila Augusta. O sino que era da Santa Isabel, ainda está, segundo depoimento
de moradores entrevistados, na igreja da Vila Augusta.
4. ANÁLISE
COMPARATIVA ENTRE AS
FESTAS POPULARES RELIGIOSAS
PESQUISADAS
A comparação
analítica que realizamos entre a festa da padroeira de Viamão com a festa da
padroeira da Santa Isabel nos permite
traçar alguns eixos distintivos entre estes dois eventos populares viamonenses.
A festa da
padroeira de Viamão, Nossa Senhora da Imaculada Conceição, possui um caráter
mais oficial a nível da municipalidade local, quando comparada a festa da
padroeira da Santa Isabel, uma vez que trata-se da festa da padroeira ca Cidade
de Viamão, independente da maior ou menor adesão de seus munícipes. Esta
oficialidade é observada claramente, por exemplo, diante da parceria entre a
paróquia da matriz de Viamão e o poder público municipal que entra como
patrocinador direto e co-organizador dos eventos festeiros da matriz como
ocorreu em 1999, onde houve todo um engajamento da prefeitura, através da sua
Secretaria Municipal de Cultura, no sentido de viabilizar as apresentações
artísticos-musicais durante os festejos, especialmente a apresentação da
Orquestra Sinfônica de Porto Alegre. Neste sentido, a festa de Santa Isabel tem
um caráter mais comunitário e popular e menos oficial, no que concerne na sua
relação com a administração pública local. Os agentes sociais que atuam na sua
organização são mais informais, oriundos das camadas mais populares das
redondezas da paróquia, emprestam uma originalidade de festa popular de cunho
religioso típico de cidades mais interioranas. Ao passo que a festa da
Imaculada conceição não contando com uma adesão popular das mesmas proporções
da Santa Isabel, possui um caráter mais formal e institucional, pois conta com
o apoio profissional de técnicos da administração pública local que colabora na
sua organização. Portanto, temos a festa da Imaculada Conceição com uma adesão
popular muito menor do que a festa da Santa Isabel. Segundo a nossa perspectiva
de análise social e diante da realidade observada em campo, isto acontece
devido ao contexto social em que encontram-se estas duas paróquias. A paróquia
de Santa Isabel encontra-se em meio a cerca de 15 vilas populares onde a população conta com uma renda média que não
ultrapassa dois salários mínimos, nível de escolaridade que circunda as
iniciais séries do 1º grau, enfim trata-se de uma comunidade carente
em todos os sentidos. A paróquia da Matriz de Viamão encontra-se em uma área
nobre da cidade, um dos centros históricos de maior expressão da região
metropolitana, com uma população de alto poder aquisitivo, atendida na maior
parte de suas necessidades de estrutura físico-social como saneamento, rede de
água e eletricidade, sistema bancário e de serviços públicos, etc.
Analisando o
material de divulgação das festa religiosas em debate (Ver anexo 6), observamos
alguns detalhes que devem ser aqui lembrados. O material de divulgação da festa
da padroeira de Santa Isabel é bem mais simples, não contendo lista de
empresários colaboradores, se comparado ao material de divulgação da festa da
Imaculada Conceição que traz uma lista extensa de apoios de empresários locais.
Esta observação reforça a tese anteriormente exposta, no que diz respeito ao
nível de popularidade dos dois eventos. O material da Santa Isabel representa
ter um custo financeiro menor do que o produzido pela matriz de Viamão que
possui um colorido mais rico e expressivo do que o anterior. Neste materiais é
interessante destacar também que no chamamento da festa de Nossa Senhora da
Imaculada Conceição a imagem central é a do templo religioso e não a da santa.
Isto não acontece no material de chamamento para a festa de Santa Isabel que
traz uma imagem com baixa qualidade gráfica de um busto da santa e não a do seu
templo. A constatação direta para esta opção se dá pelo fato de que o templo da
Conceição é um prédio histórico construído no século passado, tombado pelo
Instituto do Patrimônio Histórico Nacional, sendo por isso muito procurado e contemplado
por pessoas que diariamente o visitam com objetivo de simples contemplação ou
mesmo para fins de pesquisa e análise científica.
Para concluir
esta comparação analítica, não poderíamos de dar destaque para as origens
culturais e étnicas fundadoras das duas igrejas que tem reflexo direto nas
festividades por elas organizadas. Fica bem claro para nós a origem
luso-brasileira na fundação da Igreja da Nossa Senhora da Imaculada Conceição,
ligada aos traços dos primeiro colonizadores que aqui chegaram nos séculos
passados. Já em 1549, quando D. João III, Rei de Portugal, determinou enviar ao
Brasil o Governador-Geral Tomé de Sousa, e com este vieram o Padre Manuel da
Nóbrega e os primeiros jesuítas, temos a nominação desta santa em um dos três
navios de Tomé de Souza: o Salvador, Nossa Senhora da Ajuda e Nossa Senhora da
Conceição. Foram essas as invocações das três primeiras igrejas edificadas na
cidade do Salvador, onde Tomé de Souza fixou a sede do seu governo: São
Salvador (que deu nome à capital); Nossa Senhora da Ajuda e Nossa Senhora da
Conceição da Praia que ficava então nos arredores e hoje fica dentro da cidade.
No caso das origens fundadoras da Igreja de Santa Isabel, percebemos que a
influência que incide sobre a sua fundação remete para um outro período
histórico bem mais recente, décadas de 40 e 50 do século XIX e que a
descendência cultural e étnica também possuem uma outra matriz. Foram
imigrantes europeus[10] oriundos da Itália,
Alemanha e Suécia os primeiros fomentadores do projeto de se ter a comunidade
religiosa reunida em torno de um templo católico. Diante da necessidade de se
eleger a padroeira da localidade, sederam a alternativa trazida pelo pároco da
época que era de origem sueca e propôs que se elegesse a Santa Isabel da Hungria[11], em função das suas
características populares e assistenciais. Estes imigrantes viviam em uma
realidade social bastante difícil, diante da necessidade de fundar de fato toda
uma estrutura e um aparato de cidade que não possuíam, frente a uma série de carências
econômicas optaram pela sugestão do pároco Guilherme Span, primeiro padre desta
paróquia.
CONCLUSÃO
Os sistemas
simbólicos (alimentares, de vestuário, publicitários, religiosos, etc.) possuem
processos dinâmicos de significação que lhe atribuem sentido, segundo o
contexto social e cultural[12] em que estão inseridos.
Esta é um eixo conclusivo deste trabalho que realizamos, segundo a orientação
das teorias da cultura. Ou seja, as festas populares religiosas pesquisadas estão
inseridas em um sistema simbólico de cunho religioso com processos próprios de
significação construídos conforme o contexto social em que estão inseridas. A
exemplo do que nos ensina Sahlins existe uma razão cultural em nossos hábitos
alimentares, de vestimenta e de cunho religioso que define a nossa relação com
os elementos inseridos dentro destes sistemas de significado. Alexandre Bergamo
destaca um pressuposto muito próximo
deste que citei de Sahlins quando afirma: “O Sentido da moda está em que a
roupa significa algo, e esse significado, além de diferir em função do grupo
pesquisado e de sua posição no interior da estrutura social, imprime e
direciona diferentes condutas para esses diversos grupos sociais.” (BERGAMO,
1998)
Ao propor o
relacionamento duas festas populares
religiosas das padroeiras de Santa Isabel e de Viamão, não havíamos travado
contato com o trabalho de Geertz – Os Usos da diversidade – mas até parece que
já havíamos, pois na afirmativa “Imaginar diferenças continua sendo uma ciência
da qual todos nós temos necessidade” (GEERTZ, 1999) está contida toda a nossa
intenção e a nossa necessidade de refletir sobre as prováveis diferenças entre
os dois contextos sociais aqui expostos. Para além das criações grotescas e
desconexas com as realidades sociais devidas, esta necessidade de que fala
Geertz está intimamente ligada a um pressuposto bachalardiano. Esta percepção
do poder da imaginação é um tema essencialmente bachelardiano e, segundo o meu
ponto de vista, deve ser assim encarado. Bachelard vai propor a fenomenologia
da imaginação, conjugada com uma fenomenologia da imagem poética, destacando “a
imagem vem antes do pensamento” (No sentido de uma arqueologia das imagens).
Tomando a casa como exemplo, Bachelard mostra como a imaginação é capaz de
sobrepujar as percepções do real: “Ao seu valor de proteção, que pode ser
positivo, ligam-se também valores imaginados, e que logo se tornam dominantes.”
(Bachelard, 1988)
A nossa hipótese
inicial de trabalho, no que concerne as diferenças sociais entre as duas
comunidades estudadas, se confirmam no encerramento desta monografia. Através
da análise dos festejos populares em destaque, percebemos que as diferenças na
ocupação do território, bem como a distinta formação étnica e social das áreas avaliadas
se refletem hoje na organização das comunidades religiosas e nas dinâmicas
populares e sociais de um modo geral presentes nestas localidades. Percebemos,
portanto que “o significado é socialmente construído” (GEERTZ, 1999), segundo a realidade e o contexto social em que estão
inseridos. Os esquemas de significação social referentes a Santa Isabel diferem
dos esquemas de significação social do restante de Viamão devido aos diferentes
contextos histórico-sociais que estas comunidades se fundaram e se construíram.
Os dados históricos e etnográficos demonstraram que a “diferença imaginada” por
este pesquisador, segundo os resultados deste trabalho, foi verificada nos
dados colhidos em campo.
Para finalizar esta conclusão, gostaria de destacar a importância
que a antropologia tem neste trabalho de relação com as diferenças sociais,
diante da sua proposta de sempre relativizar os nossos pré-conceitos no
processo de construção e de investigação dos nossos objetos de estudo. Dentro
da área antropológica, a etnografia merece ser lembrada, a exemplo do que
Geertz avalia sobre os usos da etnografia: “Ela é a grande inimiga do
etnocentrismo, do confinamento de pessoas em planetas culturais onde as únicas
idéias que precisam invocar são ‘aquelas em torno daqui’, não porque assuma que
as pessoas são todas iguais, mas porque sabe quanto elas não o são e como são
incapazes, ainda assim, de se desconsiderarem mutuamente. Mesmo que um dia
tenha sido possível e mesmo que hoje provoque saudades, a soberania do familiar
empobrece a todos; (...) A Etnografia, ou uma delas em todo caso, é sem dúvida
fornecer, como fazem a história e as artes, narrativas e cenários para
refocalizar a nossa atenção.” (GEERTZ, 1999)
BIBLIOGRAFIA
1. BACHELARD,
Gaston. A Poética do Espaço. São
Paulo: Martins Fontes, 1993.
2. BERGAMO,
Alexandre. “O Campo da Moda”.
Revista de Antropologia, vol. 41, No. 2, 1998.
3. COELHO,
Marcos de Amorim. Geografia do Brasil.
São Paulo: Ed. Moderna, 1990.
4. GANDIM,
Jairo. História da Paróquia da Santa
Isabel. Mimeo. Viamão: 29 de abril de 1997.
5. GEERTZ,
Clifford. A Interpretação das Culturas.
Rio de Janeiro: Zahar Ed. , 1978.
6. ---------------------.
“Os Usos da Diversidade”. Porto Alegre: Ed. Da UFRGS. Horizontes Antropológicos, No. 10, 1999, p. 13-34
7. MACEDO,
Francisco Riopardense de. Porto Alegre:
origem e crescimento. Porto Alegre: Ed. Sulina, 1968.
8. OLIVEN,
Ruben George. “Nação e Tradição na Virada do Milênio.” In. A Parte e o Todo: a diversidade cultural no Brasil-Nação. Porto
Alegre, Vozes, 1992, p.13
9. ORTIZ,
Renato. “Modernidade-Mundo e identidades.” In: Um Outro Território. Ensaios sobre a Mundialização. São Paulo. Olho
D’Água, s/d. p. 67-89
10.
-------------------. “Uma Cultura
Internacional-Popular”. In. Um Outro
Território. Ensaios sobre a mundialização. São Paulo: Olho d’água, s/d, p.
67-89.
11.
SAHLINS,
Marshall. “La
Pensée Bourgeoise.” In. Cultura e Razão Prática. Rio de
Janeiro: Zahar, 1979.
12.
SANTOS, Armando Alexandre dos. O Brasil sob o manto da Imaculada. São
Paulo: Ed. Artpress, 1996.
13.
VELHO, Gilberto. O Desafio da Cidade. Novas Perspectivas da Antropologia Brasileira.
Rio de Janeiro: Ed. Campus, 1980.
ANEXOS
(As imagens que compõe os anexos estarão disponíveis no
Site www.fotolog.terra.com.br/acidadedesantaisabel)
[2] “Virgem
bendita, que pela vossa Conceição anunciaste o próximo despontar do Divino Sol,
sêde, nós vos rogamos, a luz do nosso espírito, alegria do nosso coração, a
nossa defesa nos perigos, sustento nas tentações, auxílio naquelas virtudes que
vos tornaram tão admirável aqui na terra e tão gloriosa no céu.” Oração à Imaculada Conceição
[3]
Reminiscências da Campanha do Paraguai, Editora da Biblioteca do Exército, Rio
de Janeiro, 1980, p.155.
[4] Grifo do
historiador citado.
[5] Campos
de Viamão: nome genérico utilizado na época para referir toda a área que
conhecemos hoje no entorno da Cidade de Viamão (Palmares do Sul, Águas Claras,
Tavares, Itapuã e alguns municípios da Grande Porto Alegre como Alvorada,
Gravatai, Cachoeirinha, ...)
[6]
Onde atualmente se encontra o Distrito de Águas Claras / Município de Viamão.
[7]
Expressão usada na primeira referencia registrada em documento sobre a povoação
que se formava no então Porto de Viamão, a qual se desenvolvia rapidamente para
os padrões da época.
[8]
Investigações arqueológicas do Museu Joaquim José Felizardo em parceria com o
Núcleo de História da UFRGS, apontam para a confirmação desta hipótese.
[9]
Oficialmente a primeira missa da paróquia foi rezada no dia 3 de abril de 1960
às 10 horas pelo padre Guilherme Sponn da Congregação dos Oblatos de São
Francisco de Sales.
[10] Marcos
de Amorim Coelho em Geografia do Brasil demonstra graficamente que a imigração
para o Brasil foi bastante expressiva entre os anos de 50 a 55.
[11] Segundo
relatos dos padres existe mais de uma Santa Isabel na Igreja Católica, portanto
eles reafirmam Santa Isabel da Hungria.
[12]
Trabalhamos com o conceito de cultura conforme ORTIZ em Um Outro Território.
UNIVERSIDADE
FEDERAL DO RIO GRANDE DO SUL
INSTITUTO
DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS
CURSO
DE CIÊNCIAS SOCIAIS
Projeto de Pesquisa
Semestre:
1997 / I
-
PESQUISANDO UMA INSTITUIÇÃO
TOTAL : Estudo
de caso do
instituto dom bosco
masculino -
Autor:
JACQUES JACOMINI
SUMÁRIO
1.
JUSTIFICATIVA
................................................................................. 03
2.
PROBLEMA / HIPÓTESE
.................................................................. 06
3.
DEFINIÇÃO DE CONCEITOS
E
QUADRO
TEÓRICO DE REFERÊNCIA
.......................................
07
4.
OBJETIVOS DO PROJETO
............................................................ 19
5.
METODOLOGIA
................................................................................ 21
6.
CRONOGRAMA
................................................................................ 23
7.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
............................................... 25
8.
BIBLIOGRAFIA CONSULTADA
.................................................... 26
1. JUSTIFICATIVA
“ O Tema da loucura encanta quem o toca. Ao abordar
a loucura (...) não devemos prescindir dela. Ela não invade apenas os outros
como pensou o médico Simão Bacamarte. Ela é em nossas vidas ora um acaso, ora
uma necessidade. Tocá-la pode ser irreversível; desconsiderá-la pode ser
lamentável. (...)
A loucura é capaz de legislar e consagrar, ainda que
temporariamente, um incêndio para a diversão dos monótonos romanos, exauridos
já pelo tédio das conquistas (...)
A loucura, pôr outro lado, não é um formidável
privilégio de alguns leigos ou doutos. A loucura é um sofrimento psíquico que
pode ser minimizado, e o primeiro requisito para esta
tarefa talvez seja
tão imaterial quanto
a própria enfermidade
: (...)” [1]
O tema da normalidade (ou
normalização das sociedades no sentido como é trabalhado pôr Roberto Machado [2]) dentro das sociedades contemporâneas tem sido
trabalhado pôr vários pensadores e intelectuais de várias épocas e de vários
períodos históricos. Desde as considerações de Durkheim sobre o que chamou de
“normal e patológico” até, mais recentemente, os estudos de Nietzsche, Freud e
Foucault, acumulam-se várias propostas
de se abordar o tema, temos assim a noção da importância deste debate para nós
cientistas sociais e para a organização
de nossa sociedade atual.
Dentro deste contexto,
tentando delimitar um pouco mais o nosso campo de análise, consideramos os
movimentos mundiais em defesa da restruturação e reorganização dos princípios
científicos e filosóficos que nortearam, até os nossos dias, o trabalho em
saúde mental. Temos noticia de propostas que caminham nesta direção como os
processos já implantados de, pôr exemplo, “saúde mental comunitária -
experiência dos Estados Unidos da América, a antipsiquiatria - modelo da
Inglaterra, a psiquiatria de setor - proposta na França, reformas psiquiátricas
- na Itália e na Espanha, e a atenção primária, experiência de Cuba.” [3] Dentre estas várias experiências, caberia
destacar, entretanto aquela que, segundo o meu levantamento, funciona como o sustentáculo
das propostas de reformulação deste setor de saúde no Brasil, refiro-me a lei
180 da Itália e a Declaração de Caracas de 1990.
A nível nacional, até como
reflexo deste movimento mundial, surgiu no Senado Federal proposta de lei do
Deputado Paulo Delgado (PT - MG) e na Assembléia Legislativa do Estado do Rio
Grande do Sul projeto de lei do Deputado Estadual Marcos Rolim (PT), ambos
sinalizando para a extinção progressiva dos hospitais psiquiátricos e sua
substituição pôr outros recursos assistências, para a regulamentação da
internação psiquiátrica compulsória, entre outras propostas.
Diante de uma proposta de
reformulação das políticas de atendimento em saúde para os deficientes mentais,
através do projeto de lei que prevê a extinção progressiva dos hospitais
psiquiátricos tradicionais, debruço-me sobre esta análise de caso, caso Instituto
Dom Bosco Masculino, a fim de analisar o
novo ( nova proposta prevista no projeto de lei ) a partir de uma
experiência que remonta a forma
tradicional (de uso corrente no Brasil) de tratamento aos portadores de
necessidades especiais.
Este paralelo comparativo, o
novo e o tradicional, faz-se necessário uma vez que a forma atual de
atendimento tem apresentado vários problemas e as novas sugestões de trabalho
propõe mudanças estruturais significativas o que as coloca no centro de uma discussão
muito polêmica.
Poderíamos aqui ainda
referir a nossa intenção de, apesar de estarmos trabalhando com um análise de
caso - O Caso Instituto Dom Bosco Masculino / IDBM, trabalhamos com materiais, referencias e
considerações de outras instituições estilo manicomial como Instituto
Psiquiátrico Forense Dr. Maurício Cardoso, Hospital Psiquiátrico São Pedro e
Instituto Nacional do Centro Clínico de Saúde /
Hospital St. Elizabeths (E. U. A ).
Nesta primeira instituição realizamos pesquisa de campo, observação
participante e ensaio e uma posterior exposição de fotos, na segunda realizamos
pesquisa teórica a partir da tese de
mestrado do historiador Alexandre Schiavon e na terceira, “viajamos”
teoricamente para os Estados Unidos da América através da obra-- de Erving Goffman - Manicômios, prisões e
conventos.
Entendemos que este estudo é de elevada relevância para o debate da “loucura” e suas
formas ou proposta de tratamento nas sociedades contemporâneas. Sociedade esta
tomada pêlos ventos da pós-modernidade, altamente individualizada, segmentada;
em constante conflito e crises sociais, filosóficas, religiosas, ... que busca
entender as fronteiras do normal e do patológico, do racional e do irracional,
do possível e do impossível. Mais do que nunca, este debate é atual e
necessário uma vez que o homem busca desesperado o fulcro de suas construções e
realizações mentais e materiais.
2.
PROBLEMA / HIPÓTESE
Segundo orientação de nossa
professora destacamos o problema e a hipótese de forma relacionada, uma vez que
dada o grau de maturação de nossas idéias, seria um pouco precoce externá-los
separadamente e de forma definitiva.
O problema central do nosso
projeto de pesquisa é :
“Qual a dimensão dos fatores
negativos e dos fatore positivos dentro do atual modelo de assistência médico /
psiquiátrica aos pacientes portadores de deficiências e perturbações mentais
atendidos nas redes de hospitais públicos e privados.”
Nos arriscando na tentativa
de formular uma hipótese inicial de trabalho para a nossa pesquisa, citamos a
seguir uma hipótese que precisa ainda ser lapidada, reelaborada, a partir do
aprofundamento de nossos estudos :
“ O atendimento (ou tratamento)
ao indivíduo portador de deficiência ou problemas mentais em instituições
totais [4]
como os manicômios ( ou casas similares ), como o Instituto Dom Bosco, objeto
do estudo de caso presente neste projeto, é extremamente maléfico para as
pessoas ali internadas [5].
Ou seja, o estado de saúde dos pacientes regride e piora progressivamente na
mesma proporção em que aumenta o tempo de permanência (e / ou
internação) deste paciente nas
instituições totais [6].”
3.
DEFINIÇÃO DE CONCEITOS
e QUADRO TEÓRICO
DE REFERÊNCIA
“ Penso que,
atualmente, para que os conceitos sociológicos sejam tratados adequadamente,
cada um deles deve ser ligado ao aspecto a que melhor se aplica, e seguido a
partir daí até onde pareça levar, e obrigado a revelar o resto de sua ‘família’. Talvez seja melhor usar diferentes cobertores
para abrigar bem as crianças do que utilizar uma cobertura única e esplendida,
mas onde todas fiquem tremendo de frio.” [7]
Me proponho a trabalhar a
definição dos conceitos e o quadro teórico de referencia de uma forma conjunta,
inicialmente, pôr uma intuição
intelectual, e, a posteriori, pôr orientação de Salomon [8]
que nos diz: “Na prática, e tecnicamente,
o marco teórico de referência reflete :
(...) o conjunto de conceitos,
categorias e construções abstratos que constituem o arcabouço teórico, onde se
situam suas preocupações científicas, particularmente os problemas cognitivos
que o preocupam .” [9]
Dentro do nosso projeto de
pesquisa, já é possível identificar alguns conceitos centrais e também alguns
pressupostos teóricos dentre outros vários (conceitos e pressupostos) que
poderiam ser aqui referidos. Dentre
eles, destacamos os que seguem:
INSTITUIÇÕES TOTAIS -
Trabalhamos este conceito
como denominado pôr Erving Goffman em Manicômios, prisões e conventos, ou seja,
são instituições totais “ locais de
residência e trabalho onde um grande número de indivíduos com situação
semelhante, separados da sociedade mais ampla pôr considerável período de
tempo, levam uma vida fechada e formalmente administrada.” [10]
O autor ainda vai definir o
hospital psiquiátrico dentro desta classificação de instituição total, quando
diz : “As instituições do tipo de
hospitais psiquiátricos são ‘totais’, pois o internado vive todos os aspectos
de sua vida no edifício do hospital, em intima companhia com outras pessoas
igualmente separadas do mundo mais amplo.” [11]
MORTIFICAÇÃO
Este conceito também é
tomado da obra de Goffman ( a mesma que referimos anteriormente) e esta
relacionado ao processo de anulação da subjetividade dos indivíduos
institucionalizados. O autor analisa a questão a partir de considerações sobre
a construção do “eu” individual das pessoas :
“Tal como ocorre com o novato de muitas dessas
instituições totais, o novo internado percebe que está despojado de muitas de
suas defesas, satisfações e afirmações usuais, e está sujeito a um conjunto
relativamente completo de experiências de mortificação : restrição de movimento
livre, vida comunitária, autoridade difusa de toda uma escala de pessoas, e
assim pôr diante. Aqui começamos a aprender até que ponto é limitada a
concepção de si mesma que uma pessoa pode conservar quando o ambiente usual de
apoios é subitamente retirado.” [12]
EQUIPE DIRIGENTE
Tomo esta definição
novamente do Goffman que a utiliza para referir a equipe de médicos,
enfermeiros e atendentes da instituição, ou seja, os profissionais que dirigem
e administram a vida do internado (ou paciente).
Neste trecho do livro
referido anteriormente o autor contempla esta definição :
“ Nas
instituições totais, existe uma divisão básica entre um grande grupo
controlado, que podemos denominar o grupo dos internados, e uma pequena equipe
de supervisão. Geralmente, os internados vivem na instituição e tem contato
restrito com o mundo existente fora de suas paredes; a equipe dirigente muitas
vezes trabalha num sistema de oito horas pôr dia e está integrada no mundo
externo. (...) Os participantes da equipe dirigente tendem a sentir-se
superiores e corretos. [13]
”
SOBRE O
GOFFMAN
Esta obra de Goffman é uma das principais fontes
teóricas para esta pesquisa pôr várias razoes.
Em primeiro lugar, a noção de “instituição
total” e suas características são essenciais para trabalhar a nossa pesquisa de
campo no Instituto Dom Bosco, pois lá encontramos infinitas analogias entre as
descrições deste autor em suas pesquisas de campo com a instituição objeto de
nosso estudo, em termos de organização de rotinas, aspectos da “equipe
dirigente” e “grupo de internados”, organização estrutural, interações sociais
na instituição, entre outras que poderiam ser aqui elencadas. Ou seja, o IDBM é
uma instituição total estilo manicomial e, portanto, deve ser considerada,
analisada e trabalhada como tal. Apesar das analogias citadas, existem aspectos
institucionais muito específicos ao IDBM, em função disto, pretendemos, através
da pesquisa de campo e pesquisa bibliográfica, delimitar estas semelhanças e as
não semelhanças com as instituições trabalhadas pôr Goffman. Em nenhum momento,
propomos a formulação de generalizações, pois a entendemos perigosas e
totalmente fora da nossa proposta de trabalho que a antropologia orienta.
Em segundo lugar, apesar de ser este o
conceito chave, instituição total, para colocarmos em prática a nossa pesquisa
existem outros vários conceitos que são também muito significativos para a
análise que propomos neste projeto. As idéias de “mortificação”, “regimes de
enfermaria”, “equipe dirigente”, entre outros encaixam perfeitamente com a
abordagem de outros autores que trazemos para este debate como Foucault,
Roberto Machado e Nietzsche, dentre outros. As considerações sobre a construção
e reconstrução das subjetividades ou dos “Eus”[14]
dos internados que Goffman traz nesta obra, bem como mais especificamente sobre
a construção dos estigmas [15]
representaram para nós o primeiro contato com esta bibliografia que se debruça
sobre o tema da loucura, dos desvios e desviantes, do normal e do patológico.
Em especial, o tema da “mortificação” é central para a análise das nossas
hipóteses e dos nossos problemas de pesquisa, ou seja, estudar o tipo de
tratamento médico / terapêutico atualmente oferecido aos internos da
instituição, com vistas a dar ênfase aos seus aspectos negativos e os
escassos aspectos positivos e
relacioná-lo com as novas propostas de atendimento e tratamento. Goffman
trabalha muito bem esta questão, a mortificação, onde, sem nenhuma dificuldade,
o pesquisador pode entender como acontece este processo de anulação do “Eu”
individual dos internos, processo este característico não só aos manicômios
como também a outras instituições totais referidas pelo autor. Seria
interessante ressaltar que, neste sentido, já possuímos algumas constatações
importantes, face a nossa pesquisa de campo realizada no IDBM pôr,
aproximadamente, dois anos ( de 1991 a 1993), onde, através de entrevistas e
pesquisa participante colhemos vários elementos que nos auxiliam nessa análise.
Só para explicitar um pouco mais, revendo a conclusão da monografia
“Pesquisando uma Instituição Total”, de minha autoria, realizada em 1993 na cadeira de Antropologia,
sob a supervisão da Professora
DENISE JARDIM, gostaria de trazer
alguns trechos para este projeto, que na verdade é a tentativa de retomar
aquela discussão, agora de forma mais elaborada e mais sistemática :
“A Instituição total não contribui para a melhora do
estado de saúde dos internados. Muito pelo contrário, ela prejudica e debilita
ainda mais a sanidade mental das pessoas. Isso graças à sua capacidade de se
apropriar da vontade de viver dos internos, das suas manifestações de vida,
daquilo que ele aprendeu fora da instituição.
Pôr que isto acontece ?
Isto acontece porque, a partir do momento da
internação (compulsória) [16] o interno passa a ter a sua vida totalmente
administrada, ou seja, com o “rótulo” de
louco e internado em uma “Casa Verde do século XX” [17], ele perde o controle de tudo o que lhe
pertencia antes. Desde os seus pertences pessoais, objetos de estimação
(roupas, calcados, ...) e tudo o que funcionava antes como um referencial do
seu próprio “Eu”, da sua razão subjetiva, é apropriado pela instituição. A
partir de agora ele possuirá monitoramento de terceiros para todas as
atividades, desde as mais elementares, como as de higiene do próprio corpo, até
as mais elaboradas, como criação artística e / ou intelectual. Tudo acontece
agora na sua vida em função de uma coletividade: o banho, as refeições, os
escassos momentos de lazer, enfim, tudo deixou de ser particular ou privado
para ser coletivo e monitorado (supervisionado).
(...)
A instituição segrega, ou, como é citado pôr
Goffman, “Mortifica” a vida do internado. Com as suas atividades excludentes e
discriminatórias a instituição reafirma e reproduz, em maior escala, os
preconceitos e a marginalização do deficiente mental que são produzidos na
sociedade. (...)”[18]
Em terceiro e último lugar,
trabalhar com Goffman representa trabalhar com um pensador que, apesar de não
ser antropólogo, refere claramente na sua obra aquele objetivo que é, para a
antropologia o seu maior desafio e o seu maior objetivo, “relativizar”. Esta
proposta do autor esta categoricamente colocada no texto e até me arrisco a
afirmar que não poderia ser de outra forma, pois nestes “terrenos pantanosos” [19]
das ciências humanas não existe teoria pronta e acabada, pressuposto teórico
definitivo ou escola ideal para abordá-la. A relativização é, sem dúvida o
caminho mais adequado para trabalharmos com estes temas que nos ocupamos neste
momento. Não me alongarei mais sobre os aspectos deste autor e suas obras, uma
vez que acabaria, se assim o fizesse, entrando no quadro teórico dos outros
autores convidados para esta análise.
NORMALIZAÇÃO DA
SOCIEDADE
Conceito como trabalhado pôr
Roberto Machado, podendo ser também chamado de “medicalização” da sociedade
significa o processo de controlar os indivíduos, a partir da intervenção do
poder da norma e da intervenção médica. Em determinada passagem do livro de
Machado, assim o refere o autor:
“Os médicos elaboram uma teoria social,
definem os requisitos de uma sociedade perfeita, ordenada e democrática e,
através de vários instrumentos, propõem e concretizam sua participação na
direção da sociedade, trazendo ao governo o apoio da ciência.” [20]
Nesta obra este aspecto da
medicalização e normalização é abordado no contexto mais geral da sociedade e
também em relação a determinadas instituições, como hospitais, cadeias,
quartéis, etc. Em todas elas é interessante ressaltar a abordagem da medicina
relacionada ao poder político de organização e ordenação das instituições, a
exaltação do poder oriundo do saber médico - único capaz de urbanizar o homem,
curar as suas doenças e moléstias do corpo e do espírito, a relação entre
medicina e planejamento urbano, dentre outras. Alguns trechos que seguem são
esclarecedores neste sentido :
“ A cidade configura-se então como objeto
privilegiado ou mesmo exclusivo de intervenção médica pôr reunir em sua
desordem as causas da doença da população. (...)
A medicina em tudo intervém, (...) Nada do que é
urbano lhe pode ser estranho, sob pena de sua intervenção se tornar precária ou
ineficaz. Todos os componentes urbanos,
todos os seus lugares, objetos e elementos devem estar sob controle e sob seu
controle. Pretendendo controlar a vida social, estendendo-se pela cidade como
um todo com o objetivo de corrigir a desordem que
ela acarreta, a intervenção normalizadora da medicina deverá ser tão constante
quanto a corrupção do meio ambiente e o perigo que a caracteriza. Somente o
olhar conhecedor e autoritário de médico e seus subordinados, percorrendo
permanentemente a cidade, poderá detectar os locais de perigo atual ou virtual.
(...) ” [21]
PANOPTISMO ( OU
PANÓPTICO DE BENTHAM )
Este é mais do que um
conceito, poderíamos dizer que é um princípio relacional, no que tange a
organização espacial e arquitetônica das instituições totais. Trabalhado na
obra de Foucault - Vigiar e Punir - ele compreende um capitulo inteiro do
livro, dada a sua relevância para a análise das instituições. Esta intimamente
relacionado a idéia de controle e as políticas de contenção nos universos
institucionais, ou seja, ver tudo, observar tudo, controlar tudo.
Pensado a partir da
organização espacial de um jardim zoológico da idade média, “o panóptico
funciona como uma espécie de laboratório de poder.” [22]
Puxarei algumas citações do
referido texto que afirmam as minha colocações sobre o panóptico :
“O Panóptico de Bentham é a figura arquitetural
(...) na periferia uma construção em anel, no centro uma torre, esta é vazada
de largas janelas que se abrem sobre a face interna do anel; a construção
periférica é dividida em celas, cada uma atravessando toda a espessura da
construção; elas tem duas janelas, uma para o interior, correspondendo as
janelas da torre; outra que dá para o exterior, permite que a luz atravesse a
cela lado a lado. Basta então colocar um vigia na torre central, e em cada cela
trancar um louco, um doente, um condenado, um operário ou um escolar. (...)
(...) o efeito mais importante do panóptico: induzir
no detento um estado consciente e permanente de visibilidade que assegura o
funcionamento automático do poder. Fazer com que a vigilância seja permanente em seus efeitos, mesmo se é
descontinua em sua ação (...)
Uma espécie de ‘ovo de Colombo’ na ordem política.
Ele é capaz com efeito de vir se integrar a uma função qualquer (de educação,
de terapêutica, de produção, de castigo, ...); de aumentar essa função,
ligando-se intimamente a ela (...) Em suma, faz com que o exercício do poder
não se acrescente de fora, como uma limitação rígida ou como um peso, sobre as funções que
investe, mas que esteja nelas presente bastante sutilmente para aumentar-lhes a
eficácia aumentando ele mesmo seus próprios pontos de apoio. (...) ” [23]
Com vistas a pensar o IDBM a
partir destas noções teóricas do panóptico estudadas pôr Foucault, é uma das
nossas metas de trabalho a análise e avaliação dos aspectos físicos e
arquitetônicos, bem como da organização e dimensionamento do espaço na instituição
a ser estudada. Para isso utilizaremos desenhos, croquis, plantas baixas da
instituição onde poderão ser visualizadas estes aspectos físicos / estruturais
que são imprescindíveis para esta análise e estudo do panóptico no IDBM [24]
.
PODER /
DISCIPLINA / VIGILÂNCIA
Estes conceitos são tomados
aqui a partir das considerações e como estão sendo trabalhados pôr Foucault em
Vigiar e Punir. Abordagens mais detalhadas sobre eles não serão aqui
realizadas, em função de questões de ordem prática. Contudo, estes conceitos e
suas abordagens são muito importantes para esta pesquisa a qual nos propomos a
realizar. Mais do que os conceitos e pressupostos teóricos, este autor,
Foucault, de um modo geral, em especial em Vigiar e Punir, a exemplo de como
referimos o Roberto Machado, é central para a nossa análise, estudo e debate.
Não é necessário empenharmos uma defesa maior de Foucault e de suas teorias,
pois pensamos que isto é quase um consenso entre os intelectuais, é necessário
apenas posicioná-lo e identificá-lo como o pensador que mais tem nos mobilizado
para o debate desta discussão das instituições totais e suas formas de
tratamento dos loucos ou desviantes, contemplando o embate das propostas de
atendimento tradicionais com as novas propostas sugeridas nos projetos de leis
já referidos.
LOUCURA
Este conceito, a exemplo da
normalidade / anormalidade, é muito
importante para o nosso trabalho, talvez o mais importante, pois é a partir
dele que todos os demais se agregam. Não estaríamos discutindo manicômios se
não houvessem loucos, não estaríamos discutindo loucura se ela não estivesse em
nossa sociedade, não estaríamos estudando a loucura se não nos preocupássemos
com ela, enfim, não sei se a lógica é realmente esta, contudo, loucura é “o
nosso alimento intelectual” neste momento.
Basicamente, lançaremos mão
dos conceitos de Foucault e também de Nietzsche. Este primeiro autor já foi
utilizado para a elaboração da monografia que já referi, quando da discussão da
loucura, na qual abordamos este tema ou este conceito. Na obra Vigiar e Punir,
Foucault remonta historicamente a trajetória e surgimento da loucura como
aparato político de contenção das anormalidade ou desvios. É muito interessante
de ver esta avaliação histórica para entendermos o que é loucura hoje, como é,
e pôr que que é, ... Uma vez
instrumentalizados desta perspectiva histórica, a nosso ver, a análise da
loucura contemporânea fica mais clara, concisa e tranqüila. Entendemos que
Foucault contribui decisivamente para este debate, chegando ao ponto de alguns
pensadores como Sérgio Adorno classificarem a análise da nossa
contemporaneidade divididas em dois momentos : período anterior a Foucault e
período pós-Foucault. Não estamos adotando esta proposta de classificação do
debate, apenas referimos como algo a se pensar e avaliar.
Não poderíamos deixar,
entretanto, fora deste debate, o grande
filósofo e pensador Nietzsche. Sem duvida, foi ele um dos pensadores que
mais se aproximou efetivamente deste debate, até ao ponto de, no final de sua dúvida, ser pego pôr aquilo que considerava não
existir (como fato patológico), a loucura. Na verdade, pensamos que acabou pôr
ser “engolido” pelo sistema de controle, de normalização, de medicalização
quando foi diagnosticado como louco. Mas como classificar como louco alguém que
considerava a insistência do fato patológico. Para ele, nem a saúde, nem a
doença são entidades; a fisiologia e a patologia são uma única coisa; as
oposições entre bem e mal, verdadeiro e falso, doença e saúde são apenas jogos
de superfície. Há uma continuidade, diz Nietzsche, entre a doença e a saúde e a
diferença entre as duas é apenas de grau, sendo a doença um desvio interior à
própria vida; assim não há fato patológico.
Nietzsche vai considerar que
a loucura não passa de uma máscara que esconde alguma coisa, esconde um saber
fatal e “demasiado certo”. [25] A técnica utilizada pelas classes
sacerdotais, pôr exemplo, para a cura da loucura é a “medicação ascética”, que consiste em enfraquecer os instintos e
expulsar as paixões; com isso, a vontade de potência, a sensualidade e o livre
florescimento do eu são considerados “manifestações diabólicas”. Mas para
Nietzsche, aniquilar as paixões é uma “triste loucura”, cuja decifração cabe à
filosofia, pois é a loucura que torna mais plano o caminho para as idéias
novas, rompendo os costumes e as supertições veneradas e constituindo uma
verdadeira subversão dos valores.
Para Nietzsche, os homens do passado estiveram
mais próximos da idéia de que onde existe loucura há um grão de gênio e de
sabedoria, alguma coisa de divino : “ Pela loucura os maiores feitos foram
espalhados pela Grécia.” [26]
Em suma, aos “filósofos além
do bem e do mal”, aos emissários dos novos valores e da nova moral não resta
outro recurso, diz Nietzsche, a não ser o de proclamar as novas leis e quebrar
o jugo da moralidade, sob o travestimento da loucura. É dentro desta
perspectiva, portanto, que se deve compreender a presença da loucura na obra de
Nietzsche.
4.
OBJETIVOS DO PROJETO
DE PESQUISA
A -
OBJETIVOS GERAIS
Analisar a atual estrutura,
organização e metodologia de atendimento médico / hospitalar em uma instituição
total para tratamento de portadores de necessidades especiais (deficientes
mentais) com base em um estudo de caso (O caso Instituto Dom Bosco Masculino),
com vistas a projetar as possibilidades de melhoria e restruturação do atual
modelo de atendimento ( problematizando os aspectos que estão inseridos nos
projetos de lei que prevêem a “reforma psiquiátrica brasileira”) [27].
Este objetivo ainda não é
definitivo, uma vez que estamos buscando o amadurecimento do temas e das possibilidades
de implementação desta pesquisa. De qualquer foram, hoje, segundo a nossa
leitura, em termos de proposta de trabalho, este é o objetivo que podemos
referir como sendo o mais geral.
B - OBJETIVOS
ESPECÍFICOS
I - Relacionar as novas
políticas de atendimento médico / hospitalar (tendo pôr base os projetos de lei
e as propostas da reforma psiquiátrica)
com o modelo tradicional de atendimento, ou seja, o atendimento oferecido
aos internos do IDBM;
II - Avaliar o tratamento
médico - terapêutico que os internos recebem na instituição estudada,
relacionando-o com a evolução de seus estados de saúde física e mental (neste
sentido, avaliar as evoluções e regressões dos estados de saúde dos internos);
III - Descrever os aspectos
institucionais particulares ao IDBM, bem como suas características fundamentais
;
IV - Estudar os aspectos
físicos e arquitetônicos, bem como a organização da lógica espacial desta
instituição a luz dos autores citados;
V - Estudar as relações
sociais internos / pacientes nesta instituição, dentro da lógica de um e do
outro grupo e a partir da lógica do pesquisador.
5. METODOLOGIA
“(...) nossa perspectiva crítica, em matéria de
concepção de investigação sociológica, situa-se em reação contra o empiricismo
e o positivismo da sociologia convencional sem descartar, no entanto, a
exigência antiteoricista de questionar a realidade concreta.” [28]
Estamos considerando aqui a
metodologia “como suporte e diretriz da pesquisa.” [29]
O nosso método de pesquisa
realizar-se-á através de um estudo de caso, com a adoção de uma ênfase maior em
observações participantes.
Apesar de estarmos
trabalhando com um tema relacionado a saúde, não propomos empreitar a atividade
de “curandeiros sociais” [30],
portanto não optamos pôr este método na sua relação com uma tendência
empiricista. Porém, concordamos com Thiollent quando refere que “a crítica do empiricismo não deve fornecer o
desvio oposto que podemos chamar de ‘teoricismo” e que consiste em um discurso
supergeneralizante.” [31]
Para realizarmos a nossa
pesquisa de campo, antevemos alguns problemas no que tange ao acesso com o
universo a ser estudado, uma instituição total estilo manicomial. Pôr se tratar
de uma instituição deste tipo, ou seja, bastante fechada para a comunidade em
que se encontra e, administrativamente, muito “policiada” e controlada,
observamos que poderão surgir alguns entraves nos primeiros momentos de
inserção dos pesquisadores em campo. De qualquer forma, pretendemos utilizar os
recursos que temos, institucionais e informais, para, digamos assim, “quebrar o
gelo inicial” e podermos assim trabalhar tranqüilos.
Na tentativa de
justificarmos [32] a
escolha do nosso método de pesquisa, podemos dizer que elegemos o estudo de
caso, com ênfase na observação participante, pôr identificá-lo como um dos
métodos mais significativos, usuais e de maior aceitação na nossa área,
antropologia. Além disso, a observação participante nos permite realizar um
movimento de interação com o nosso objeto de estudo muito mais aprofundado, o
que nos permite realizar um dos nossos grandes objetivos em pesquisa, o da
“relativização”.
Para a definição da nossa
amostra de pesquisa, trabalharemos da seguinte forma: Em uma população de,
aproximadamente, 100 internos, escolheremos uma amostra aleatória que seja
significativa, de 30 a 40 internos, para realizar nosso estudo. Eventualmente,
poderemos extrapolar esta amostra inicial, pesquisando outros indivíduos que
considerarmos, no transcorrer da pesquisa, como fundamentais para a realização
do nosso trabalho. No que concerne a “equipe dirigente”, esta população será
estudada no seu todo, em função de que este é um grupo menor, e também porque
estudar este grupo a partir do seu todo é algo muito importante para o tipo de
análise científica que propomos.
Para a coleta de dados,
pretendemos pesquisar atas, registros, anais, relatórios, prontuários e demais
documentos da instituição, a fim de elaborarmos tabelas, gráficos, e / ou
relatórios que venham a subsidiar os nossos estudos sobre a instituição eleita
para este projeto. Para esta atividade, consideramos como essenciais os
recursos de informática que auxiliarão significativamente estas tarefas.
Ainda dentro da coleta de
dados, pretendemos trabalhar com metodologias da Antropologia Visual,
utilizando fotografias, filmagens em VHS e outros recursos audiovisuais para a
apreensão de aspectos que fogem dos recursos tradicionais de pesquisa científica.
Para a análise de dados,
utilizaremos tanto a análise estatística, sem seguir “O Ritual Estatístico” [33],
quanto a análise qualitativa. Obviamente que privilegiaremos a análise qualitativa, como análise de textos,
de discursos, de conteúdo, etc. pois a consideramos como a mais importante para
o tipo de pesquisa que nos empenhamos neste momento.
6. CRONOGRAMA
Para a realização do
cronograma, apresentaremos uma “tabela cruzada” [34]
onde supomos ter como tempo de duração para a realização de nossa pesquisa o
espaço de tempo de um ano. Dentro deste espaço temporal, um ano, subdividimos
as fases em meses para a perfeita visualização das atividades e seus
respectivos períodos de desenvolvimento.
Em função da natureza deste projeto, toda esta
organização cronologia / atividades é muito embrionária e está, portanto,
sujeita a algumas variações e reformulações posteriores que ocorrerão no
transcorrer do amadurecimento de nosso trabalho acadêmico.
7.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
1 - ASSIS,
Machado de. O Alienista. Porto Alegre: WM Jackson inc., 1942.
2 -FOUCAULT,
Michel. Vigiar e Punir. História da Violência nas Prisões. Petrópolis: Vozes,
1988.
3 -GOFFMAN,
Erving. Manicômios, Prisões e Conventos. São Paulo : Perspectiva, 1974
4 -
-------------, -------- . Estigma -
Notas Sobre a Manipulação da Identidade Deteriorada. Rio de Janeiro : Zahar,
1980.
5 -
NIETZSCHE, Friedrich Wilhelm. Vida e obra. Coleção Os Pensadores. São Paulo
: Ed. Nova Cultural, 1996.
6 -ROLIM,
Marcos. A Nau dos Loucos. Carta de um Companheiro de Viagem. In: Jornal Utopia.
São Paulo, Abril/Maio 92.p. 5.
7 -ROTELLI,
Franco. Loucos pelo Vida.
8 - SALOMON,
Délcio Vieira. Como Fazer uma Monografia. Elementos de Metodologia de Trabalho
Científico. Belo Horizonte Interlivros, 1974.
9
-THIOLLENT, M. Crítica Metodológica,
Investigação Social e Enquete Operária. São Paulo : Polis, 1980.
8.
BIBLIOGRAFIA CONSULTADA
1 - ARENT,
Marion. Síntese das Entrevistas com a Monitoria do Instituto Dom Bosco.
Relatório. Viamão, maio de 1991.
2 - BRASIL,
Luís Antônio de. Cães da Província. Porto Alegre : Mercado Aberto, 1991.
3 - DOTTI,
Sotero. Relatório Anual do Instituto Dom Bosco Masculino. Viamão, 10 de janeiro
de 1985.
4 - --------,
-------- . Relatório Anual do Instituto
Dom Bosco Masculino. Viamão, 23 de janeiro de 1989.
5 - JÚNIOR,
Benilton Bezerra. Cidadania e Loucura : Políticas de Saúde Mental no
Brasil. Petrópolis : Vozes, 1987.
6 - MORAIS,
Frederico. A Recuperação do Universo Segundo Arthur Bispo do Rosário. In. Jornal de divulgação da exposição :
“Registro de minha passagem pela terra : Arthur Bispo do Rosário” . Pinacoteca
do MARGS, junho de 1992.
7 - OLIVEIRA,
Carmem. Pôr Uma Sociedade sem Manicômios : um Olhar Sobre o São Pedro. In.
Jornal da Pinacoteca do MARGS, junho de 1992.
8 - PACHECO,
Alexandre. Et alli. Informações Técnicas a Respeito da Realidade Institucional
do Instituto Dom Bosco Masculino. Viamão, agosto de 1992.
9 - SILVA,
Luciana Kraemer da. Crise põe em Risco Oferta de Trabalho em Viamão. In. Jornal
Quarta Feira. Viamão, 10 de janeiro de 1992.
10 - SZASZ,
Thomas S. A Fabricação da Loucura - Um Estudo Comparativo
entre a Inquisição e o Movimento de Saúde Mental. Rio de Janeiro : Zahar, 1978.
11 -
TREVISAN, Janine Bendorovicz. Um Estudo Sobre Crianças Excepcionais em uma
Instituição da FEBEM. Monografia. Fevereiro de 1992.
[1] Discurso do deputado
estadual Marcos Rolim na Assembléia Legislativa do Estado do Rio Grande do Sul,
pôr ocasião da defesa do projeto de lei que previa a extinção progressiva dos
manicômios.
[2] MACHADO, Roberto et alii.
Danação da norma : Medicina social e
constituição da psiquiatria no Brasil.
[3] OLIVEIRA, Carmem de. Pôr
que lutar pôr uma sociedade sem manicômios ?
In. Jorna A Parte / Publicação do
gabinete do Deputado estadual Marcos Rolim
PT / RS.
[4] Instituições Totais -
denominação como é trabalhada pôr Erving Goffman em Manicômios, prisões e
conventos.
[5] Goffman faz uma referencia
clara e completa neste sentido na página 141 do livro já referido, quando
menciona: “ (...) temos provas dos efeitos destrutivos do fato de viver num
mundo dentro de outro mundo, e em condições que tornam difícil levar a sério
qualquer um dos dois.” É importante deixar claro que o autor, quando fala em
“um mundo dentro de outro mundo”, ele esta se referindo diretamente às
instituições totais do tipo manicomial.
[6] Em monografia realizada
anteriormente, todas as análises e estudos, com base em pesquisa de campo de
aproximadamente dois anos, levam a aceitação desta hipótese.
[7] GOFFMAN, Erving.
Manicômios, prisões e conventos. São
Paulo : Ed. Perspectiva 1974. p . 12
[8] SALOMON, Délcio Vieiras. Como fazer uma monografia.
[9] Idem, p. 156
[10] Goffman, Erving. Manicômios, Prisões e Conventos. p. 11
[11] idem, p. 171
[12] ibidem, p. 127
[13] ibidem,
p. 18-9
[14] Em Prisões, manicômios e
conventos, Goffman coloca claramente que o seu maior objetivo nesta
obra é “chegar a
uma versão sociológica
da estrutura do ‘Eu’ ” p. 11
[15] GOFFMAN, Erving. Estigma -
Notas sobre a manipulação da identidade deteriorada. Rio de Janeiro, 1980.
[16] COMPULSÓRIA não no sentido
de que esta internação foi feita com ou sem
o consentimento e aprovação do próprio paciente, porque este, na maioria
das vezes é levado pôr um terceiro até a instituição (Goffman analisa esta
chegada a instituição) mas sim, no sentido, de que o tempo de permanência do
interno no manicômio passa a ser compulsório. A “reabilitação” do paciente fica
prejudicada em função da incompetência médica, inoperância jurídica e situação
caótica da burocracia interna da casa que não possibilita o reingresso deste
indivíduo ao seu grupo social.
[17] Casa Verde plajeando o
Machado de Assis e sua obra.
[18] JACOMINI, Jaques.
Pesquisando uma instituição total.
[19] Expressão de minha autoria para referir os
aspectos pouco esclarecedores, principalmente quando não relativizados, que
comparecem ao debate da normalidade ou patologia, sanidade e loucura, ...
[20] MACHADO, Roberto. Danação da norma : medicina social e
constituição da psiquiatria no Brasil. P. 258
[21] Idem, p. 260-61
[22] FOUCAULT, Michel. Vigiar e
Punir : Nascimento da Prisão. Petrópolis
: Ed. Vozes. p. 180.
[23] Idem, p. 182
[24] Seguem em anexo alguns
desenhos que foram realizados neste sentido, pôr ocasião da realização da
monografia que referi antes trabalhada com a professora Denise Jardim.
[25] NIETZSCHE, Friedrich
Wilhelm. Vida e obra. Coleção Os
Pensadores. São Paulo : Ed. Nova Cultural, 1996.
[26] idem
[27] Reforma psiquiátrica
brasileira : terminologia de minha autoria para referir as propostas que estão
no boje dos projetos de lei como a extinção gradual dos manicômios e a
implementação de formas de tratamento alternativos, descentralização do
atendimento aos pacientes do sistema de saúde mental, etc.
[28] THIOLLENT, Michel J. M.
Crítica Metodológica, Investigação Social & Enquete Operária. São
Paulo : Ed. Polis, 1980.
[29] idem
[30] ibidem, p. 20
[31] Ibidem
[32]
SALOMON, Délcio Vieira. Como Fazer Uma Monografia. São Paulo : Martins Fontes, 1994. P. 157
[33] Ritual
Estatístico como trabalhado pôr MILLS, C. Wright em A Imaginação Sociológica.
[34] SALOMON,
Délcio Vieira. Como Fazer uma Monografia. P. 158-59
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2 comentários:
Gente
A página está ficando muito pesada, consequentemente tenho dificuldade na edição da mesma. Portanto, preciso estudar uma forma de resolver este problema técnico.
Acompanhe.
Namaste
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