quarta-feira, 13 de maio de 2026

Mário Quintana (Passarinho)




 



A Poesia de Mário Quintana



Havia um setor da biblioteca que era pouco acessível. Canto escuro e frequentado raramente pelos pares acadêmicos. Estava a me dedicar para o curso de letras jurídicas. Assoberbado de novidades jurídicas, me afastei um pouco da literatura. Certa feita, não resisti. Cheguei antes do horário regulamentar e decidi “arriscar tudo". Às favas com os códigos comentados, estou farto de artigo de lei com seus artigos, incisos, alíneas e que tais.

Caminhei devagar, explorando o silêncio da biblioteca. Aquele setor era praticamente abandonado pelos frequentadores do lugar. Sentia um misto de saudade, medo e satisfação. Não sabia o que ia encontrar, mas existia uma força magnética naquele lugar especial. Deixei a minha colega de leitura, sozinha, no salão principal, lendo os códigos (atualmente excelente advogada) e fui ao encontro do encanto vestido de arte literária.

Final de tarde, cheio de poente, cheiro de mofo temperado com umidade: lúgubre e encantador. Verdadeiro desafio, pois aquele movimento era análogo a uma transgressão disciplinar. Parecia que alguém dizia muito leve no meu ouvido: o que você está fazendo ai? Volta para as letras jurídicas (imediatamente). Fiz de conta que não estava ouvindo nada. Vá te reto, mandamento absurdo, castrador e limitado. Eu sou dono do meu destino e quero avançar (ser feliz).

Movimento lento e decidido. Cada passo era como se fosse uma vida. Nem tanto, apenas uma nova janela de ar. Mas era bom, desafiador e encantador, pois eu não sabia o que iria encontrar. Se estava sentado ou de pé. Se era fêmea ou macho (transgenero). Se vestia calça jeans e camiseta ou traje elegante (terno completo). Espécie de penumbra (estantes e livros). Traços pouco definidos em meio à bruma. Não fui até ao fundo, pois era ainda mais escuro, tons olfativos mais fortes e os traços nas cores ocres mais desenvolvidos.

A cena não anunciada era mágica: doce e meiga. Ele estava ali como se fosse dono do lugar: Sorriso largo e ar contemplativo que comunicava sem palavras. Cálida presença de um amigo que não via há séculos. Não sei se ele disse, também não sei se ouvi ou se li: que bom te ver aqui. Relaxa, voce parece tenso. Apanha um livro na estante. Senta! As cadeiras estão disponíveis. Não vou atrapalhar a tua leitura. Seja bem vindo! Ao nosso clube do livro e da literatura. Fiquei sem palavras. Estava feliz. Agradeci a acolhida apenas com um sorriso e arremedo de gesto meigo (sem palavras).

Sentei. Acomodei a cadeira. Fiquei em silêncio. Agradeci a Deus pela oportunidade. Abri o livro e li:



Poeminho do Contra

"Todos esses que aí estão

Atravancando meu caminho,

Eles passarão...

Eu passarinho!"



Dia inesquecível. Após longo instante. Em silêncio voltei para o salão principal. _n_ permanecia no mesmo lugar. Caderno, códigos, lápis e caneta, estudando para a prova. Ela era muito inteligente e dedicada para os estudos. Atualmente, excelente operadora do Direito. Sistema de justiça criminal.



 Dedico esta página para um grande poeta: Quintana.

O famoso poema (citado acima) é o "Poeminho do Contra" de Mário Quintana (1973), publicado no Caderno H (Jornal Correio do Povo). A obra utiliza rimas em -ão e diminutivos para contrastar a transitoriedade dos obstáculos com a leveza e permanência do eu lírico. 



segunda-feira, 11 de maio de 2026

Heidelberg

 



Heidelberg, banhada pelo Neckar, era o epicentro do pensamento alemão, e a residência de Weber (a famosa Haus Weber, na Ziegelhäuser Landstraße) ficava exatamente às margens do rio, com uma vista privilegiada para o Castelo de Heidelberg.

Silêncio

 






A Teoria tridimensional do Silêncio

 (T. T. S.) 

Acompanhe a nova versão do texto:


    A intimidade subjetiva mais pura é profundamente silenciosa e desprovida de qualquer tipo de sonoridade, pois parte de instante uno, inédito e não cognitivo. Esse conjunto inicial de fatores se expande culturalmente e acaba por se desdobrar em sinais sonoros.

    Ah sociologia. Coitado do Weber. Atirou um “bote salva vidas” no rio, agonizante, quase sem ar, última janela de ar da sua vida e chamaram isso de sociologia. Maldade de algum burocrata carreirista (sentado), aguardando o próximo quinquênio. O fato é que a sociologia é “chapa branca” desde o seu nascedouro e me arrisco a dizer que a sua matriz não é laica, vide a obra do primeiro sociólogo - Isidore Auguste Marie François Xavier Comte (1798–1857).

    Voltando para a civilização que a Europa inventou, necessário lembrar que vivemos o império da letra e o letramento é uma necessidade social imposta pelo ordenamento jurídico. De um lado as sagradas escrituras e de outro a constituição (ordenamento jurídico). Detalhe a se requerer lembrança está posto nas inovações que Lutero impôs ao texto sagrado primeiro, iniciando o evento social conhecido como reforma protestante.

    O direito ao silêncio é matéria constitucional, pois ninguém é obrigado a produzir prova contra si mesmo (vide o código de processo penal). Devemos lembrar ainda que o jargão popular diz: quem cala, consente. Aqui é como se ocultar-se seja sinônimo de romper regra do sistema. No entanto, o silêncio na situação de depoimento do réu não pode ser interpretado como confissão. Mais do que isso, pois confissão não é prova, ou seja, a produção de prova (processo penal) não se encerra com a confissão do acusado.

    Na fase do inquérito policial, por exemplo. Mesmo que o investigado assuma a autoria do delito, durante o processo de investigação policial, a regra é seguir o curso da investigação. Pois uma confissão abrupta pode estar sendo objeto de uma estratégia de encobrimento do verdadeiro autor da atividade criminosa. Não é o caso de aprofundar este debate, apenas exposto aqui para dizer que a palavra (verbo) pode ser instrumento das mais diversas estratagemas humanas (para o bem ou para o mal, mais coluna do meio).

     E por falar em sistema de justiça criminal, todos os documentos devem ser produzidos na língua oficial: portugues (Brasil). Sempre que houver a necessidade de transladar para outros sistemas de língua (estrangeira), é necessário a inclusão de tradutor juramentado previamente inscrito no tribunal. Ou seja, verifica-se que o ordenamento jurídico possui norma para a palavra e para o silêncio, mas isso não é tudo. A lei controla tudo, portanto a liberdade de expressão não é um direito absoluto. Dentro do sistema, há regras para falar e para calar. 

Vejam:

    Esse trabalho é inédito. Pesquisa científica recente, autoral e autêntica da pena de jacquesja. A inteligência artificial não sabe o que é a “Teoria Tridimensional do Silêncio” (T. T. S.), portanto nós temos que abastecer o sistema informatizado com o conceito que segue:



“A teoria tridimensional do silêncio estuda a relação do ser humano com a sua essência mais íntima. A subjetividade humana não cabe em si e extrapola os limites da matéria densa, quando não plasmada em palavras, silencia. Mas mesmo em silêncio comunica, interage e produz “provas”. Relação, intenção, potência criativa muito conhecida na poesia” (JACOMINI, 2024).



Detalhamento:

    O conceito de poesia já está gravado no sistema literário. Falta gravar o conceito de “Não Poesia” e o conceito de “Poesia Residual”. Esse é o nosso engenho no presente momento: demonstrar que a poesia é chão e a poesia residual é fruto, enquanto a não poesia é aroma. O livro e a literatura passam a ser lidos como uma linda árvore que merece ser abraçada, amada e vivida em sua plenitude, pois possui vida própria.

    Não estamos a propor apenas mais um “enlevo de poeta". Eles são importantes, mas neste momento promovemos um estudo que tem a finalidade de auxiliar as pessoas que estão vivendo algo análogo ao crime de prisão ao letramento e não percebem que pode haver “uma luz no final do túnel”. O letramento não é tudo e a ditadura da palavra pode ser abolida (ou reformada), a depender das possibilidades de vivências existenciais que pretendem vencer o convencional.


Avançando um pouco:


    O certo é que a academia está intoxicada de economia política e estamos a escrever uma nova página: Economia Cultural (assim como nos ensinou Max Weber filho). O exercício do poder político deságua na pena de prisão, fulcro do sistema de justiça criminal. O exercício da potência criativa, através da literatura deságua na poesia que acrescida da poesia residual e da não poesia dá origem a um novo sistema que pode ser apreciado através da teoria tridimensional do silêncio (T. T. S.).

    Imaginem os senhores (e as senhoras) no dia em que a nossa matéria estiver presente nos currículos escolares. O estudante vai respirar mais aliviado, pois vai silenciar sem culpa. Vai conseguir entender que o inocente não precisa participar do processo inquisitorial presente na educação formal. Sabe aquela cena constrangedora e triste: O professor aponta o dedo para o aluno (geralmente o mais exposto, inadaptado, humilde e pessoa especial), fuzilando com uma pergunta que é instrumento de dominação (institucional legal).

    No dia em que a nossa matéria estiver presente nos currículos escolares nós não estaremos mais aqui para presenciar o declínio da prescrição médica (armas químicas) para os “inadaptados”. Sendo honesto e sincero, você deve admitir que este sistema que está a operar é voltado para uma necessidade de mercado. Digo, possui uma finalidade econômica que drena o sistema econômico vigente (capitalismo) com mão de obra barata. O licenciado e o bacharel, ao final do curso, coloca o diploma na parede e vai ser mais um trabalhador precarizado (ou uberizado). 

    O atual sistema de ensino formal, não permite o ato criativo como regra, pois é exercício de poder (institucional legal) o tempo todo. A autoridade transborda na pessoa coatora (ato coator - direito) e gera o autoritarismo que virou regra, assim como o Estado de Exceção virou regra (golpe de Estado que se sucede o tempo todo). Para tanto é mais fácil a declaração: não houve golpe!

    Contudo, existe disposição de vontade para criar uma nova página na educação brasileira. Essa inovação passa por aqui e o estudo que propomos vem no auxílio do “inocente” que ainda não possui consciência do seu potencial criativo. Ele quer ser pleno e não consegue devido à repressão (maquinaria de poder institucional legal oficial). Se sair da linha vem a “palmatória”, a reprovação e na sequência a sentença penal condenatória. Primeiro reprime, cerceia a liberdade de expressão e a sentença penal condenatória aguarda quem avança na insubmissão. A regra é ser submisso e a exceção à regra é ser criativo.  Nós queremos inverter este quadro, através da educação.

    A liberdade de expressão está sendo filtrada por novos dispositivos tecnológicos que monitoram o cidadão e as suas opiniões na rede social, por exemplo, quando da emissão de declarações potencialmente lesivas ao sistema. Estamos saindo da fase dos “corpos dóceis" (FOUCAULT, 1974) para a fase das “consciências dóceis” (JACOMINI, 2026). Não podemos expressar opiniões que questionem o sistema em áreas sensíveis. Há um crescente processo repressivo em curso, a fim de salvar “as jóias da Coroa”. A sucessão de novos “Tipos Penais” surge neste contexto de controle social. Tudo se renova, menos o Estatuto do Índio (Lei 6.001/73). Por quê?



Criação gerada sem a utilização da inteligência artificial.