Escrever ou Morrer? (O Arquivo dos Vivos/Mortos)
“Há quem diga que escrevemos para sermos lembrados, mas a verdade é mais urgente: escrevemos para não esquecer. No turbilhão dos dias, nossos rascunhos, diários e textos soltos tornam-se os únicos diques contra o apagamento da nossa própria identidade. Deixar de registrar o que fomos é permitir que o tempo devore nossa essência. A narrativa a seguir nasceu de uma noite em que o inconsciente me fez um alerta visceral: se você não resgatar suas próprias palavras, o esquecimento fará o trabalho escatológico de transformá-las em pó. É preciso escrever para manter a alma viva. Ou morrer no silêncio do arquivo do tempo”.
O Instituto de Filosofia cheirava a papel morto e café frio. Sob a vigilância do Velho — um professor de idade avançada, cujos olhos pareciam enxergar através de nós —, organizávamos o espaço. Arrastamos as mesas menores até formar uma grande bancada central. Aquela seria uma prova com consulta. O problema é que ninguém sabia o que os examinandos iriam consultar.
Ao meu lado, meu parceiro dos tempos de pós-graduação me deu um nó na cabeça. Ele estava ali, idêntico ao que era anos atrás, movendo as cadeiras em silêncio. Um eco vivo de uma fase especial da minha vida. Mas não havia tempo para nostalgia. O Velho professor acenou com a cabeça, indicando as estantes ao fundo. O garimpo precisava começar.
A biblioteca do Instituto era uma criatura em decomposição. Ao puxar os primeiros volumes, o horror se materializou de forma escatológica. Páginas amareladas pelo tempo, tomadas por mofo denso. Quando abri uma das apostilas, cupins gordos e vivos brotaram do miolo, rastejando pelos meus dedos. Senti um arrepio térmico, uma sensação aterradora de que o próprio tempo estava apodrecendo ali dentro. Mas isso não era tudo.
Havia mais por vir. O verdadeiro terror psicológico começou quando passei a relacionar o material. Entre jornais velhos e revistas desfeitas, meus olhos travaram. Vi uma folha avulsa. Reconheci a caligrafia de imediato. Era a minha. Avancei os olhos para o lado e encontrei um texto completo que escrevi há cem anos, em uma madrugada solitária. Mais adiante, páginas e mais páginas escritas por mim ao longo de décadas. Anotações que eu nunca havia mostrado a ninguém. Diários que eu julgava trancados nas gavetas do meu quarto físico. O que era isso?
O suor frio desceu pela minha nuca. Olhei para o meu amigo de pós-graduação, mas ele continuava organizando as mesas, alheio ao meu choque. Olhei para o Professor veterano na cabeceira da mesa grande. Ele me encarava de volta com um meio sorriso enigmático, como se esperasse por aquele momento exato. Como aquilo era possível? Quem havia recolhido os meus fragmentos? Aquela sala não era um centro de exames para estranhos (?). Era uma banca examinadora do que, exatamente? A minha própria existência estava em cheque. E os cupins, percebi com horror, não estavam destruindo livros velhos. Eles estavam devorando ou interagindo? Que lugar era esse? E as minhas memórias e os meus textos, qual é a conexão?
Meus dedos tremiam ao segurar aquelas páginas amareladas. A caligrafia era minha, os segredos eram meus, mas o lugar pertencia ao Velho. Sentindo o peso do olhar do professor veterano sobre mim, larguei o calhamaço mofado na mesa central. Os cupins continuavam seu banquete silencioso sobre a minha própria história. Caminhei a passos largos até meu ex-colega de pós-graduação. Ele era a única âncora de realidade que eu tinha ali, a única testemunha de uma época em que estudávamos a ciência do comportamento humano, os mitos e as culturas.
Parei ao seu lado na mesa grande.— Veja isso — sussurrei, a voz embargada pelo pânico. — São os meus textos. Tudo o que escrevi na vida está guardado aqui. Como isso veio parar neste arquivo? Meu amigo parou de alinhar as cadeiras. Ele não parecia surpreso, nem assustado. Virou-se devagar, com a mesma serenidade dos tempos de academia, e olhou fixamente nos meus olhos. Ele estendeu a mão, tocou levemente no meu ombro e, com um sorriso enigmático que misturava cumplicidade e advertência, disse quase num sopro:— Você ainda não entendeu? O que está ocorrendo?
O arquivo não recolhe o passado, ele dita o presente. Se os cupins terminarem de comer essas páginas antes dos alunos entrarem, você não terá mais o que lembrar quando acordar. Limpe as suas gavetas enquanto há tempo. Antes que eu pudesse perguntar o que aquilo significava, o Velho bateu duas vezes com a mão na mesa central. O som ecoou como um trovão pela sala escura. A porta do fundo começou a se abrir lentamente, revelando a silhueta dos primeiros (novos) examinandos.
Escrever ou Morrer
Há quem diga que escrevemos para sermos lembrados, mas a verdade é mais urgente: escrevemos para não esquecer. No turbilhão dos dias, nossos rascunhos, diários e textos soltos tornam-se os únicos diques contra o apagamento da nossa própria identidade. Deixar de registrar o que fomos é permitir que o tempo devore nossa essência. A narrativa a seguir nasceu de uma noite em que o inconsciente me fez um alerta visceral: se você não resgatar suas próprias palavras, o esquecimento fará o trabalho escatológico de transformá-las em pó. É preciso escrever para manter a alma viva. Ou morrer no silêncio do arquivo do tempo.




