Silêncio Absurdo
A última reunião ocorreu já faz tempo. Seguem as testemunhas em silêncio absurdo. Ainda está lá, tudo como dantes. Copos e garrafas, pratos e talheres. O sentimento de cada um, expresso na fala de cada um que jaz em silêncio também está lá.
A fachada é de um bar, mas (obviamente) não estamos a falar de (apenas) um estabelecimento comercial, pois era muito mais do que isso. Ponto de encontro de amigos, local de reuniões memorávei. Mesa para comer aquela refeição que só eles sabiam preparar (comunitariamente), balcão de beber aquele drink que somente era servido ali, no “Bar do Halano”. Nectar dos Deuses!?
Bar é uma palavra pequena para descrever o que de fato era o local. Consultório? Talvez, pois também tem cheiro de “divã”. Escritório? Sim! Por que não!? Eram todos trabalhadores que, reunidos, afogavam as suas mágoas em copos de esperança. Confessionário? Acredito que sim, pois sem pressa e sem medo, confessavam de maneira solidária entre si os motivos das mágoas e sofrimentos vividos na vida humana e urbana de uma cidade com pressa e ritmo acelerado.
O Bar do Halano fechou. Os frequentadores espalhados estão em outros logradouros. Frias redes sociais a absorver quase tudo. Novas sociabilidades a absorver quase todos. Indelevel equipamento urbano onde uma “espiadinha” me traz para esta quadra literária. Dói, mas ainda é possível um testemunho do dia de um diálogo. Dizia o João, frequentador, para Pedro: Ela me abandonou, não quero mais viver. Olha o copo, enxerga sabe-se lá o que. Bebe em trago único, apenas um grande gole do drink servido a pouco pelo Halano. O amigo da mesa ao lado, aproxima e abraçava na frase: deixa disso, aconteceu comigo e eu estou aqui vivo. Venci a mágoa e a tristeza graças o apoio de todos aqui. Bebe, bebe e esquece. Você também vai vencer.
Encontros, refeições, afeições, parceria e amor fraterno. O comércio de produtos não dava a tônica do lugar, muito pelo contrário, pois verdadeira “confraria” reunia confrades de pelos (convivas de carne e pescoço). Presentes também outros tantos que sentados ou de pé, convivas sem pele e sem osso, ocupavam as “janelas de ar”. Era uma troca de energia tão bonita que é difícil de narrar sem lamentar que tudo acabou. Resta, agora, apenas um silêncio absurdo presente pra quem quiser testemunhar (post mortem).
A fachada segue como outrora, mas lá no interior somente um silêncio absurdo. Absurdo e revelador. Revelador e repleto de dor. Dor para quem se arrisca a olhar, através da vidraça quebrada aquele cenário de um “bar” que por diversos anos foi o local de encontro de tanta subjetividade, de tanta amizade e de tanta lealdade. Eu ainda ouço, eu ainda vejo, eu ainda falo pra você: tem de ser forte sem deixar de ser meigo, entrar naquela cena, pelo buraco da vidraça, viver o vivido de outrora e não sentir aquele silêncio absurdo. Deixe tudo como está, eles ainda estão lá. Trago. Silêncio. Sem mais. Palavras.

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