sábado, 25 de abril de 2026

Estatuto do Índio

 




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Abrimos uma nova página no blog:

Estudos Acadêmicos II

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A nossa proposta é publicar textos ainda inéditos na internet. Acompanhe a seguir um extrato da publicação mais recente: Estatuto do índio: Tensões, permanências e temporalidades.

 


CONCLUSÃO (da monografia)

Para ter acesso ao texto integral, visite a página no link acima.


        Ao final da monografia é necessário retomar os pontos mais importantes e sintetizar os resultados da pesquisa. A nossa investigação científica sobre as relações de poder político no Legislativo, Executivo e Judiciário e o Estatuto do Índio (Lei 6.001/73) permite apontar algumas conclusões importantes.


        Estudamos as relações de poder político que estão no centro do debate sobre os povos originários, quando de uma conjuntura política nacional recente que coloca em tela definições jurídicas e legislativas de alta relevância na república como, por exemplo, o marco temporal. Investigamos quais os grupos de poder político presentes no legislativo que atuam para barrar e obstaculizar o avanço do novo Estatuto dos Indígenas.


        Concluímos que os projetos de lei apresentados não avançaram no parlamento, pois existe um grupo de políticos brasileiros que exerce poder político para barrar e impedir as inovações legislativas de caráter protetivo aos povos originários (Nações Indígenas). Portanto, esse grupo de parlamentares possui interesse na permanência do atual cenário e congelamento do Estatuto do Índio. 


        O principal dado empírico para a conclusão referida acima foi colhido junto ao conteúdo de postagens em rede social dos parlamentares selecionados para a nossa investigação científica. Assim, foram escolhidos um representante do Senado Federal e um representante da Câmara dos Deputados como exemplo. Vamos relembrar as construções verbais e estratégias políticas do Senador e depois do deputado.


        A discussão do “Marco Temporal” mobilizou a assessoria do Senador Heinze. Criaram uma publicação na rede social (Instagram) dedicada para explicar o assunto nos seguintes termos: “Se você ainda tem dúvida sobre o que é o marco temporal, confira no destaque! Estamos juntos na defesa do Brasil e do campo!” 


        A frase do parlamentar onde afirma: “Estamos juntos na defesa do Brasil e do campo” (HEINZE, 2023) sugere que defender os direitos dos povos originários não significa defender o Brasil. Neste sentido, os indígenas surgem com uma suposta qualificação de estrangeiros (ou não brasileiros). Ao passo que no entendimento do líder político citado não cabe realizar a defesa dos direitos dos povos originários, pois esta é divergente da defesa da atividade do agronegócio (e/ou pecuária). Em síntese, fica claro que o grupo político do parlamentar está focando na atividade econômica e no Brasil que produz grãos, animais bovinos, etc. Este é o seu interesse principal e são contra os grupos humanos que podem impedir ou atrapalhar as atividades econômicas que geram riquezas para os produtores rurais (Fazendeiro X indígenas). Heinze, ao comentar a decisão da Suprema Corte favorável ao marco temporal, afirmou: “STF desrespeita constituição brasileira”. (HEINZE, 2023)


    Demonstramos também outra estratégia política do gabinete do referido parlamentar, quando elegeu matérias jornalísticas de diversos órgãos de imprensa que discutiam o mesmo assunto (Marco Temporal). Neste caso, percebemos que a apreciação e deliberação de uma matéria legislativa é abordada não pela sua relevância ou importância para o país, mas como combustível de um embate (ou guerra) entre os três poderes da república. 


        Descrevemos que a narrativa elaborada pelos veículos de mídia citados monta um cenário de divergência entre os Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário onde estes são descritos como oponentes em uma disputa onde o objetivo é verificar qual destes possuem maior poder político. Para o narrador desta narrativa a harmonia entre os três poderes não existe e a discussão e debate sobre matérias importantes para o país (como o marco temporal, por exemplo) significa a oportunidade de a opinião pública saber de que lado cada um está. De um modo geral, este tipo de narrativa simplifica ao máximo a questão, expondo um quadro bipolar. De um lado estão os favoráveis ao desenvolvimento e a geração de riquezas do país e de outro lado estão os que são contra aos benefícios do desenvolvimento econômico. Via de regra, estes últimos são taxados de limitados, retrógrados, anacrônicos ou são associados a ideologias como o socialismo, o comunismo ou até a doutrina anarquista. 


        Heinze é engenheiro agrônomo e produtor, enquanto que o segundo escolhido pela pesquisa, Deputado Federal Alceu Moreira, também desenvolve atividade empresária. Este último também se manifestou recentemente sobre matéria de interesse da nossa pesquisa. 


        A discussão do “Marco Temporal” aparece em diversas publicações nas suas redes sociais que tem a defesa do agro negócio como prioridade na sua labuta legislativa. O próprio parlamentar protagoniza uma fala cheia de emoção e de energia fonética, quando da derrubada dos vetos do executivo. 


        A publicação de Alceu Moreira dedicada sobre a matéria possui a seguinte descrição: “Acabamos de derrubar os vetos de Lula ao marco temporal, reafirmando o direito de propriedade e a segurança jurídica no país. E vamos avançar em todas as frentes possíveis para resguardar nossos produtores rurais em relação a este tema, pois não se corrige uma injustiça cometendo outra”. A publicação fala na existência de laudos antropológicos fraudulentos produzidos por vigaristas (adjetivos potencializados pela vocalização anteriormente exposta) que foram juntados nos processos judiciais que discutiam a posse das terras indígenas, sendo seguida de 179 comentários que parabenizam o deputado pela sua atuação no parlamento e considerando-o como um legítimo representante do produtor rural e destacando o seu trabalho incansável na defesa do agro negócio brasileiro e do homem do campo.


        Em uma entrevista para a rede de televisão CNN Brasil (Versão On-Line) o parlamentar defende os valores e princípios anteriormente expostos e afirma que, quanto ao marco temporal, “não se trata de uma guerra de indígenas contra produtores rurais, como alguns gostam de insinuar, mas de uma construção (de um projeto político) para assegurar a ordem social e a dignidade de todos os brasileiros”. Volta a falar sobre laudos antropológicos fraudulentos e da existência de Organizações Não Governamentais (ONGS) com interesse nas terras indígenas. 


        Sempre com muita energia e empolgação nas suas construções verbais, Alceu Moreira surge em diversas mídias comemorando: “Acabamos de derrubar os vetos da Lula ao Marco Temporal, reafirmando o direito de propriedade e a segurança jurídica no país. (MOREIRA, 2023)


        Destacamos ainda a matéria jornalística do jornal O Sul onde o parlamentar aparece em imagem fotográfica ao lado do ex presidente Jair Bolsonaro. Trata-se do projeto de lei número 364-A de 2019 (Autoria do Deputado Alceu Moreira). Dispõe sobre a utilização da vegetação nativa dos campos de altitude associados ou abrangidos pelo bioma Mata Atlântica. Sobre esta matéria, o Deputado Alceu Moreira também comemora, pois viu o seu projeto aprovado e sancionada a Lei que dá como liberada a exploração rural em segmentos específicos de mata atlântica. 


        A nossa primeira impressão é a de que um projeto de lei desse tipo seria inconcebível, dado o impacto ambiental para a fauna e flora da região em tela, mas na agenda da Bancada Ruralista, por exemplo, surge como matéria importante no desenvolvimento do país. Justamente o bioma mais agredido desde o tempo do Brasil colônia e também aquele que representa uma espécie de habitat natural de diversas comunidades indígenas e povos da floresta. Sabemos que a afetação do meio ambiente que abriga espécies animais, vegetai e minerais importantes pode representar a extinção daqueles que vivem no lugar afetado, em função disso acreditamos que “o desenvolvimento humano não é constituído exclusivamente do crescimento da economia” (GONZALEZ, 2012)


      Concluímos que existe um grupo político no parlamento que possui interesses políticos específicos e que vão contra a defesa dos direitos dos povos originários. A nossa pesquisa identifica os parlamentares acima expostos como integrantes deste grupo. São parlamentares identificados com a doutrina liberal e estão perfilados aos demais que perfazem o bloco político de direita (e/ou de extrema direita) que trabalham na defesa do agro negócio e falam com frequência sobre a necessidade de desenvolvimento econômico do país, geração de riquezas e ampliação das extensões de terra agricultáveis. Eles identificam os processos de preservação e ampliação das terras indígenas como entrave para os interesses econômicos e/ou financeiros dos grandes produtores rurais e pecuaristas. Atuam no parlamento com as motivações identificadas aos seus pares que compõe a bancada ruralista.


        Diante da similaridade de metas, interesses e motivações políticas em comum, este grupo político ganhou muito espaço no parlamento durante o período de gestão do ex-presidente da república Jair Bolsonaro. Ocasião em que houve um retrocesso em diversas políticas públicas de interesse das minorias sociais e negação de direitos de camadas da base da pirâmide social, dentre eles, destacamos os povos originários. A sigla BBB foi criada para referir este grupo de atores políticos, parlamentares que atuam na defesa dos interesses dos evangélicos (Bíblia), da atividade pecuarista e agropastoril (Boi) e bélica/armamentista (Bala). 


        A nossa pesquisa verificou que são estes os principais opositores dos povos originários no parlamento. Em comunhão de forças e estratégias políticas, estes parlamentares fazem discursos grandiloquente que acusam já haver terras demais nas mãos de indígenas. Não defendem a permanência do atual Estatuto, mas também não permitem o avanço da matéria legislativa que leva o rótulo de “Novo Estatuto dos Povos Indígenas”.


        Trata-se de parlamentares, na sua maioria políticos de direita, vinculados a bancada ruralista e que possuem relação com o seguimento do agro negócio. Muitos dos quais, além da atividade parlamentar, estão atuando e presentes na execução e na administração de atividade empresária deste mesmo segmento econômico. Em termos numéricos representam a maioria das cadeiras no parlamento fato que potencializa a defesa dos interesses dos ruralistas, latifundiários e empresários ligados ao agronegócio.


        Gostaríamos de resgatar a iniciativa parlamentar que ocorreu no Senado Federal para estatuir o Novo Estatuto dos Povos Indígenas e o debate acalorado entre o autor e o relator do projeto que acabou por ser arquivado pelas razões e cenário de embate político abaixo expostas.


        O Senado Federal foi palco de um debate interessante na comparação que o Senador Telmário realizou entre duas propostas legislativas. Conforme matéria jornalística do noticioso “Senado Notícias”, foi publicada em 17/12/2018 a matéria intitulada: “Telmário crítica projeto dos maus tratos aos animais e cobra votação de Estatuto dos povos indígenas”.  Em síntese podemos referir de uma comparação que faz o Senador Telmário Mota (PTB-RR) entre o processo de tramitação de maus tratos dos animais (PLS 470/2018) face o projeto que apresenta o novo estatuto dos povos indígenas (PLS 169/2016).


         Neste sentido, afirmou o senador: “O projeto anda pela forma midiática em cinco dias (PL 470/2018). E o outro projeto é engavetado por 600 dias (PLS 169/2016). O projeto do Estatuto dos Povos Indígenas, de minha autoria, encontra-se parado, pendente de relatório. Exatamente isso, mais de 600 dias” (MOTA, 2018).


        Telmário Mota rebateu acusações feitas pelo senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP) durante a votação da proposta relacionada aos indígenas. Segundo ele, Randolfe o acusa de atender a interesses de mineradoras no projeto do Estatuto dos Povos Indígenas. O senador afirmou que sua proposta, na verdade, determina o cancelamento de todas as atividades de mineração concedidas antes da entrada em vigor da lei ordinária de seu projeto. Da mesma lide critica a demora de Randolfe na relatoria do estatuto e, por consequência, de não priorizar a vida dos índios.


        Destacamos a existência de um registro onde é possível visitar um vídeo publicado com a fala integral do senador. Naquela oportunidade, Telmário resgata as notas taquigráficas da sessão em que houve a acusação do colega, senador Randolfe Rodrigues, no sentido de que o novo estatuto estaria beneficiando as atividades de mineração em terras indígenas. Telmário esclarece que se aprovado fosse o seu projeto, as atuais concessões para atividade de mineração seriam todas canceladas por força de lei. Neste caso, ele apresenta uma planilha com as atuais concessões e nomina a empresa que perderia o direito de continuar as atividades econômicas em áreas indígenas.


        Ao final da sua fala, profere denuncia mais incisiva ainda, pois a referida empresa está registrada em nome da filha de um ator político importante da república. Segundo Telmário, Randolfe Rodrigues possui relação estreita e amistosa com o ator político citado, tendo estabelecido diversos esforços legislativos de forma associada (interesses políticos em comum) com ele e esta seria a verdadeira motivação para não ter apresentado o relatório em tempo hábil no parlamento. 


        O resultado final foi o arquivamento do projeto de lei por decurso do tempo sem a apresentação do relatório por parte do relator, Senador Randolfe Rodrigues. Sem entrar no mérito da lide, pois não nos cabe emitir sentença singular, trata-se das tensões políticas, oriundas do jogo político que trava e/ou congela o avanço da matéria legislativa novo estatuto do índio. Ao nosso juízo, a pesquisa permite visualizar também que a permanência do atual Estatuto do Índio possui motivação em certa atividade empresária e na busca do desenvolvimento econômico. Auferir ganhos de capital na exploração de bens naturais das terras indígenas é o cenário que estabelece o fulcro dos interesses políticos de parlamentares envolvidos na demanda.    


        Enfim, o estudo do Estatuto do Índio foi o mote que nos permitiu chegar até aqui com esta monografia final na conclusão do Curso de Bacharelado em Ciências Sociais. Demonstramos que se trata de uma lei específica e especial como afirmamos desde o início desta investigação. 


        Outrora podemos vir a aprofundar a investigação científica dos arranjos políticos constituídos no interior do sistema (jurídico-legal) que (em tese) visa preservar as culturas dos povos originários, mas na prática ocorre o inversamente exposto na lei. Pois na prática cotidiana desenvolve a economia do país de forma acelerada e, via de regra, segundo os preceitos do “espírito do capitalismo” (WEBER, 2004), a ponto de podermos vislumbrar em estágio futuro de esgotamento dos recursos não renováveis que continuam sendo utilizados diuturnamente.


        Concluímos que “a luta pelo poder é o meio natural do político” (WEBER, 1980). A luta pelo poder ocorre nos três poderes: executivo, legislativo e judiciário. O Poder Judiciário não possui representante indígena (até porque não é essa a lógica do sistema de justiça). O Poder Executivo foi renovado recentemente e o presidente da República fez uma reforma ministerial, dedicando uma pasta específica para os povos originários. 


        A lei protege os povos originários, mas a jurisprudência nem tanto, conforme vimos no levantamento dos dados da pesquisa, referente a alguns artigos do Estatuto do Índio. Os laudos antropológicos não são obrigatórios nas lides judiciais e, quando são juntados aos autos dos processos, figuram apenas como peças auxiliares do juízo, pois a magistratura tem a prerrogativa de decidir conforme o livre convencimento do juiz, observada a lei e a jurisprudência.


        A inflação legislativa observada no decorrer da pesquisa que ocorre desde a promulgação da nova Carta Magna não cede espaço para a tramitação, discussão e deliberação do Novo Estatuto dos povos originários. Com muita frequência, são protocoladas novas demandas de interesse dos grupos políticos com maior poder de barganha política e com capacidade de lobby político. As minorias sociais contam com poucos representantes nas casas legislativas, baixo poder de barganha política e poucos recursos para realizar lobby político. Alia-se a isso o atual perfil da casa legislativa que tem a maioria dos seus integrantes vinculados ao grupo político chamado de “centrão”, os mesmos parlamentares que se desdobram em diversas frentes de atuação política e defendem os interesses da bancada ruralista, bancada evangélica e bancada armamentista.


        A Lei 6.001/73 (Estatuto do Índio) necessita ser interpretada conforme a CF1988. Portanto, não há oposição normativa, ideológica ou de qualquer outro tipo entre uma e outra. Dito de outra forma, possuem boa relação política e jurídica, bem como estão juntas para regular a situação jurídica dos indígenas (Índios/silvícolas) e das comunidades indígenas com o propósito de preservar a sua cultura e integrá-los, progressiva e harmoniosamente à comunhão nacional (Vide artigo primeiro da referida lei).


        Ao longo da pesquisa investigamos a presença permanente do Estatuto do Índio desde a década de setenta do século passado até o presente momento político brasileiro. Expomos a diferença dos regimes de verdade política entre a época do surgimento da Lei 6.001/73 (Regime Militar) e o atual sistema que foi inaugurado com a promulgação da Carta Magna de 1988 onde temos a dignidade da pessoa humana no atual Estado Social Democrático de Direito. Chamamos a atenção para o alargamento da validade e constitucionalidade do Estatuto que vai desde a época do “Milagre Econômico” até a virada do século e permanecendo nestas décadas iniciais do novo milênio.   


        Ratificamos observação anteriormente exposta, ou seja, conforme a coleta do dado empírico visualizamos um cenário propício para que o atual Estatuto do índio permaneça congelado. O protagonismo crescente do legislativo no jogo de poder republicano brasileiro, combinado com a atual composição de forças nas duas casas que tendem mais para a direita, em detrimento das forças políticas da esquerda, apontam para um cenário pouco promissor para os defensores da aprovação do Novo Estatuto dos povos originários. Ademais, ao que tudo indica, a prioridade dos povos indígenas no presente momento é buscar no STF a inconstitucionalidade da Lei 14.701/23 que normalizou o marco temporal. 


        Ao final das investigações realizadas, concluímos também que o fato de não ter surgido um novo estatuto é que materialmente ele já existe no cenário jurídico. Não existe formalmente, pois não houve coalizão de forças políticas para fazer prosperar os projetos apresentados no legislativo, mas já existe materialmente, quando da coleção de dispositivos constitucionais combinado com leis infraconstitucionais. 


        A pesquisa de Edilson Vitorelli que fez editar a obra “Estatuto do Índio – análise dos aspectos doutrinários e jurisprudenciais mais relevantes para a compreensão da matéria, inseridas artigo por artigo” cita um arcabouço jurídico dentro e fora do Estatuto que necessita ser conhecido por todos aqueles que se interessam pela matéria. Vitorelli elenca todos os dispositivos constitucionais que vão muito além dos artigos 232 e 232 (CF 1988) citados pela grande maioria dos analistas. Destaca ainda a necessidade de conhecermos a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT) que foi internalizada no direito brasileiro pelo Decreto 5.051/04 e a Declaração das Nações Unidas sobre os direitos dos povos indígenas e arremata: “Não falta lei, o que falta é o cumprimento das leis” (VITORELLI, 2018).


        O artigo 186 da Constituição de 1967 determina que é assegurada aos silvícolas a posse permanente das terras que habitam e reconhecido o seu direito ao usufruto dos recursos naturais e de todas as utilidades nelas existentes. Baleeiro afirma que “o mito do desenvolvimento econômico informa esta constituição e animiza”. O historiador Lopez escreve que o mito do “milagre econômico” não passou de uma retórica das classes dominantes que tentavam se perpetuar no poder. Weber a firma que o aprofundamento da especialização da Burocracia Estatal não potencializa os regimes democráticos. Enfim, demonstramos que existe um grupo de políticos brasileiros que atua no parlamento para barrar e impedir as inovações legislativas de caráter protetivo aos povos originários. Grupo alinhado aos interesses econômicos das atividades do agronegócio, extração de madeiras da floresta, lavra de metais preciosos (especialmente ouro) que percebe a presença das Nações Indígenas como obstáculo para o desenvolvimento das suas atividades.


        A burocracia estatal brasileira tem sido o front de batalha deste grupo de parlamentares que possuem interesse na permanência do atual Estatuto do Índio. São, na sua maioria, empresários do agronegócio, atuam direta e indiretamente na defesa de uma agenda econômica impositiva ao incremento do sistema vigente e não medem esforços para, se necessário for, emendar a própria Constituição Federal. Em casos extremos, o próprio parlamento vira balcão de negócios escusos, palanque de acusações mutuas entre os defensores e os que não defendem os povos originários, palco de intrigas, ameaças e até planejamento de atos antidemocráticos, impedimento de mandatários dos demais poderes constituídos, etc. 


        Cremos que estudar a burocracia estatal brasileira, as tensões sociais, políticas e legislativas é dialogar com a teoria de Max Weber. As suas ferramentas metodológicas e a sua obra como um todo é um porto seguro, a fim de interpretar, entender e explicar o jogo político, os interesses dos parlamentares, a produção legislativa e o congelamento de leis estratégicas (e necessárias) como o Estatuto do Índio.


        Estudar o desenvolvimento do capitalismo moderno é o labor do cientista social que tem em Weber um grande aliado. O desencantamento do mundo e a destradicionalização do direito possuem relação direta com o nosso objeto de estudo. Pois como ensinou Weber: “O Progresso em direção ao Estado burocrático julgando e administrando segundo o direito e preceitos racionalmente estabelecidos tem hoje em dia estreitas relações com o desenvolvimento capitalista moderno”. (WEBER, 1980)


        Em suma, concluímos que o arquivamento do projeto de lei por decurso do tempo sem a apresentação do relatório por parte do relator, Senador Randolfe Rodrigues, quando da tentativa de aprovar o Novo Estatuto dos Povos Indígenas, é sintomático de uma dinâmica dentro da burocracia estatal investigada pela nossa pesquisa.


        Sem entrar no mérito da disputa de poder político travada entre o autor e o relator do projeto de lei em tela, trata-se das tensões políticas, oriundas do jogo político que trava e/ou congela o avanço da matéria legislativa determinada, enquanto acelera e aprova outros projetos de lei que são prioridade para “os donos do poder”. (FAORO, 1980)


        Ao nosso juízo, a pesquisa permite visualizar também que a permanência do atual Estatuto do Índio possui motivação na atividade empresária em meio rural e na busca do desenvolvimento do sistema socioeconômico vigente. Auferir ganhos de capital na exploração de bens naturais das terras indígenas é o cenário que estabelece o fulcro dos interesses políticos de parlamentares envolvidos na demanda.


        A discussão em torno do marco temporal para a demarcação das terras indígenas que ainda está em curso nas três esferas de poder político anima o prosseguimento desta investigação científica. A nossa pesquisa não finda aqui, ou seja, continuaremos com “A Ética Protestante e o espírito do capitalismo” (Weber) em uma conexão com o “Biopoder” (Foucault – Os Anormais), pois sem o primeiro, este último não teria chegado ao “Ubu psiquiátrico-penal” onde fica claro que ambos estão trilhando no “Estudo histórico das tecnologias do poder” (FOUCAULT, 2002). Quiçá avançar (paulatinamente) um pouco mais e chamar Peter Sloterdijk para participar do nosso engenho com a sua antropotécnica e os estudos que chamou de “Parque Humano”? Questões abertas para oportunidades (potencialmente) futuras, pois a ciência vive na vida do cientista vivo que pulsa letras (jurídicas e não jurídicas). Sem mais.






quarta-feira, 22 de abril de 2026

Veio de Silêncio


 



Veio de Silêncio



Veio ver.

Veio ver água.



Veio ver água.

Veio ver água, encontrou fogo.



Veio.



Pinga flor.

Ares, areia, arena.



Veio ver, encontro de todas as gerações.

Veio o presente, o pretérito e o phuturo. V_i_a



Veio.



Pinturas phuturas, letras na tela.

O Solo Sagrado phala, o Silêncio escuta. I_s_a


Sy 

Sol 











terça-feira, 21 de abril de 2026

Lenio Streck

 



Verbete



STRECK (1955, _ _ _ _ )



Lenio Luiz Streck (Agudo, 21 de novembro de 1955) é um jurista brasileiro, conhecido principalmente por seus trabalhos voltados à filosofia do direito e à hermenêutica jurídica. É professor dos cursos de pós-graduação em Direito da Universidade do Vale do Rio dos Sinos. Procurador de Justiça aposentado, foi membro do Ministério Público do Estado do Rio Grande do Sul de 1986 a 2014. 

Um jurista, no sentido estrito, é alguém, com bacharelado (licenciatura em Portugal), mestrado ou doutoramento em Direito, que estuda, analisa e comenta a lei, ensina Direito ou escreve livros jurídicos. Labuta distinta e que contrasta com um advogado, alguém que assessora e defende juridicamente um cliente e pensa o Direito em termos práticos. Eventualmente, o jurista também pode atuar como advogado. Segundo os especialistas, uma pessoa pode ser um advogado e jurista, mas um jurista não é necessariamente um advogado, tampouco o advogado é necessariamente um jurista. O jurista possui um amplo conhecimento da "lei" e do ordenamento jurídico. O trabalho do jurista é o estudo, bem como a análise da lei e trabalho do advogado é a defesa jurídica e a assistência judicial das pessoas particulares que necessitam de acionar a máquina judiciária.



segunda-feira, 20 de abril de 2026

Mar e Sol






 



Mar e Sol

gira, gira , gira

gira sol

.

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...

Cidade

Azul

.

..

...

No meio da tarde

de um domingo Azul

.

..

...

de toda a cidade

no azul viajava

domingo azul

.

..

...

Mar e sol.

Gira, gira, gira,

Sol

M

A

R

Mar e sol.

S

O

L










A Ética Econômica das Religiões Mundiais


 



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Die Wirtschaftsethik der Weltreligioonen


A Ética Econômica das Religiões Mundiais (Die Wirtschaftsethik der Weltreligionen) é uma famosa série de ensaios do pensador alemão Max Weber, publicada entre 1915 e 1920. Nesta obra monumental, Weber investigou a relação entre religião e sociedade, especialmente como as crenças religiosas influenciam o comportamento econômico.


CPara saber mais:

https://www.schmidt.hist.unibe.ch/pot/weber/WeberWirtschaftsethikWeltreligionen.pdf


Circulo Mágico

 




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John Willian Waterhouse


A descida da Barreto Viana ocorria todos os dias pela manhã. Cerca de dois quilômetros de distância da residência da minha mãe até o educandário. Dois de ida e dois de volta. Cinco dias por semana. Três anos de duração. A questão é: quantos quilômetros percorridos a pé foram necessários para a conclusão do ensino médio (Curso de Magistério)?

Eu nunca poderia imaginar que chegaria aqui hoje, embarcado em letras. Mais de quatro décadas após o primeiro diploma que me habilitou para o exercício de uma profissão tão significativa para a sociedade. Não tinha ambição, não era carreirista, tão pouco interesseiro. Já era eu mesmo, somente não me conhecia assim como hoje me reconheço.

    Sai do Isabel de Espanha e não fui estimulado dentro de casa para seguir estudando. Mas aquelas aulas de filosofia, de sociologia, de história, de língua portuguesa e de redação oficial mexeram comigo. Mas não havia um plano. Dado interessante: decoração.

    Nos últimos anos do ginásio que frequentei na Escola Municipal Alberto Pasqualini fui apresentado para diversas opções profissionais. Me chamou a atenção o curso de decoração, cheguei em casa e disse para a minha mãe: Eu quero frequentar o curso de decoração. Ela respondeu: não posso pagar a tua passagem todos os dias para ir estudar em Porto Alegre. Fiquei triste. Fui para o plano B: curso de magistério na Escola Estadual Isabel de Espanha. Tinha até exame de admissão, pois não havia vagas disponíveis para todos os interessados.

    Muita didática, pedagogia, artes em geral e a decoração (de interiores) que poderia ter sido um prelúdio para a arquitetura, ficara para trás. Mas o melhor estava por vir: a sociologia e o livro do Professor Milton Bins impresso na PUC (Editora Mundo Jovem - Edipuc/RS) foi a ponte para o círculo mágico. Laico, mas cheio de magia. Claro que eu estava apenas iniciando nas artes. Vale. Campus do Vale.

    A ciência social era uma desconhecida, mas guardei com carinho o livro do Bins.  À noite, no quarto de uma casa de madeira, periferia, ruas de chão batido, buscava entender o que acontecia no meu entorno. A arma: o livro de capa “rora” onde estava escrito: introdução a sociologia geral. Imagina a minha emoção, quando encontro Bins na universidade. 

    Agora sentado nas cadeiras universitárias, trajando apenas camiseta , ouvindo a fala daquele professor que não existia para mim, além daquelas poucas páginas de um livro adquirido com recursos próprios na escola de ensino médio, a ciência política parecia ser um caminho a trilhar. Veio outra oportunidade, donde extrai: “Estudo Antropológico de um espaço urbano singular: Cais do porto de Porto Alegre (A Cidade que tem porto até no nome). A egrégora do vale, remete para a arte.

    O Círculo Mágico (The Magic Circle), pintada em 1886, é uma das obras mais enigmáticas de John William Waterhouse e um marco do estilo pré-rafaelita tardio. Atualmente, ela faz parte da coleção da Tate Britain, em Londres.

    A pintura captura uma feiticeira solitária em um momento de poder ritualístico, usando uma varinha para traçar um círculo de fogo no chão. Este círculo não é apenas um desenho, mas uma barreira espiritual que separa o sagrado do profano. A obra é rica em detalhes que reforçam a atmosfera de ocultismo e mistério.

    O círculo representa pureza e proteção. Dentro dele, a bruxa está segura e cercada por flores, enquanto o caldeirão emite uma fumaça sobrenatural que sobe aos céus. Fora do círculo, o ambiente é desolado. Corvos (ou gralhas) e um sapo — símbolos tradicionais de bruxaria e presságios negativos — observam o ritual, mas não podem entrar no espaço protegido.

    A mulher veste trajes que misturam referências persas, gregas e anglo-saxãs, segurando uma foice em forma de lua crescente, o que a conecta a divindades lunares como Hécate. Diferente de outros artistas que retratavam bruxas como figuras malévolas, Waterhouse apresenta uma mulher com rosto determinado e focado, capturando uma beleza que "aprisiona" o espectador pelo encantamento. 

    A pintura foi exibida na Royal Academy em 1886 e reflete o fascínio da era vitoriana pelo exótico e pelo ressurgimento do interesse no esoterismo. Embora não haja evidências de que o próprio Waterhouse fosse um ocultista, ele soube capturar a essência da "magia cerimonial" que começava a ganhar força na Europa da época. 

    Eu nunca poderia imaginar que chegaria aqui hoje, embarcado em letras, embebido em arte e com a proposta de seguir trabalhando no magistério: Ciências sociais combinada com Ciências Jurídica dentro do Curso de “Economia Cultural”. Mais de quatro décadas após o primeiro diploma que me habilitou para o exercício de uma profissão tão significativa para a sociedade.

    O professor Bins morreu, sigo com os livros de cabeceira e não abro mão de defender teses “absurdas”, por exemplo: Weber não foi e não pretendia ser um sociólogo, senão um jurista que lecionou economia e era apaixonado por história. A sua principal obra é “A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo”. A academia tem respostas prontas pra quase tudo e eu entendo que é mais fácil para o vosso magistério seguir reproduzindo o “Weber mítico” idealizado desde sempre como um sociólogo raiz (risos respeitosos).

    Eu nunca poderia imaginar que chegaria aqui hoje, embarcado em letras. Mais de quatro décadas após o primeiro diploma que me habilitou para o exercício de uma profissão tão significativa para a sociedade. Não tinha ambição de me aprofundar em autor X, Y ou Z., Não era, não sou e nunca fui carreirista, tão pouco interesseiro. Já era eu mesmo, somente não me conhecia assim como hoje me reconheço. 





Céu Estralado






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"O Céu está sempre estrelado".

(JACOMINI, 2026) 

sábado, 18 de abril de 2026

Tina Felice

 





Tina Felice

Isabel Marilia Brettas Felice



Natural de Porto Alegre. Bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais. Estudou escultura com Vasco Prado, Francisco Stockinger, Cláudio Martins Costa (Atelier livre da Prefeitura), Mário Cladera, Ana Petini e outros.



Participou de exposições coletivas em Porto Alegre, Rio de Janeiro, Florianópolis, etc. Com várias exposições individuais em Porto Alegre, Florianópolis e Novo Hamburgo. Vencedora do concurso Espaço Urbano - Exposição Arte, com a obra Túnel do túnel, localizada junto ao Túnel da Conceição em Porto Alegre (1996). Monumento dos 100 anos da Escola de Engenharia da URFGS (1996).



sexta-feira, 17 de abril de 2026

Alma Grupo

 






Alma Grupo (ou Topografia do Areal da Baronesa)



A atenção dos senhores é fundamental aqui. Por favor. Necessito que acompanhem o meu raciocínio que vai elaborado desde a periferia de Porto Alegre.

O Objeto é o atual estágio de desenvolvimento da educação pública e gratuita de nível superior. Entendemos que há um processo de modernização em curso que foi iniciado em 2016. A questão é a seguinte: Este processo que já está em curso e vai definir o futuro da educação pública e gratuita de terceiro grau (ensino superior) possui relação com a transformação do cenário religioso no Brasil?

A fim de avançarmos na lide, lanço mão de três autores importantes que dão a base para o nosso engenho. João Cesar de Castro Rocha, Nikolas Ferreira e Max Weber. Salada? Não! Simples composição. Vamos cantar (Com Paulo Ricardo)?

 Virada do século

Alvorada voraz

Nos aguardam exércitos

Que nos guardam da paz

Que paz?



A face do mal

Um grito de horror

Um fato normal

Um êxtase de dor

E medo de tudo

Medo do nada

Medo da vida

Assim engatilhada



Fardas

E força

Forjam

As armações



Farsas e jogos

Armas de fogo

Um corte exposto

Em seu rosto, amor

E eu

Nesse mundo assim

Vendo esse filme passar

Assistindo ao fim

Vendo o meu tempo passar, hey



Apocalipticamente

Como num clipe de ação

Um click seco, um revólver

Aponta em meu coração

O caso Morel, o crime da mala

Coroa-brastel, o escândalo das jóias

E o contrabando



Um bando de gente importante envolvida

Juram que não torturam ninguém

Agem assim, pro seu próprio bem, oh



São tão legais, foras da lei

E sabem de tudo, o que eu não sei, não

Nesse mundo assim

Vendo esse filme passar

Assistindo ao fim

Vendo o meu tempo passar

Hey



Fonte: Musixmatch

Compositores: Paulo Ricardo Oliveira Nery De Medeiros / Paulo Antonio Figueiredo Pagni / Luiz Antonio Schiavon Pereira

Letra de Alvorada voraz © Warner/chappell Edicoes Musicais Ltda, Universal Music Publishing Ltda.





Alvo e claro. Artisticamente correto e oportuno. Apenas para lembrar da professora Lorena. Ela diz que sempre existe uma resposta para todo o tipo de opressão: “Onde há opressão, sempre houve resistência” (HOLZMANN, 2016). Delcio Dornelles, ao seu modo, ratifica o mesmo ensinamento. Certa feita, tertúlia longínqua, dizia que o poeta fala o que o povo sente e cala. Calar a resistẽncia é obra de tirania. Não existe espaço para a tirania dentro da democracia. Voltando.

A fim de avançarmos na lide, lanço mão de três autores importantes que dão a base para o nosso engenho. João Cesar de Castro Rocha, Nikolas Ferreira e Max Weber. Vamos ao Rocha.

A minha ignorância é tão grande que não havia encontrado antes o professor João Cézar de Castro Rocha (Apenas Rocha, desde aqui). A verdade é que fui vítima de inúmeras violências ao longo dos anos passados e as oportunidades me foram suprimidas. Rocha nos aguarda.

A participação do professor Rocha no debate televisionado sobre a guerra é primordial para entendermos o rumo desta prosa. Convido a todos para dar um play no link 

https://www.youtube.com/watch?v=bNFSqGml97I

e acompanhar o inteiro teor da fala do acadêmico que abordou de forma brilhante a guerra EUA x Irã. E para a nossa satisfação e alegria, vai muito além daquilo que já ouvimos nas preleções de diversos outros analistas, especialistas e experts em direito internacional, política externa, economia, eticétera, etc.

O professor cita autores, teorias e leituras diversas. De um modo geral, de suma importância para todos nós, bem como para os nossos colegas das sociais. Infelizmente, no presente momento, estou responsável pelo curso de “Economia Cultural” e diante do compromisso que assumi com o “Velho Weber” não posso adentrar ao debate que ele propõe. Mas quero chamar a atenção de todos para um ponto importante: educação domiciliar. 

Atenção, você acompanhou o debate na suprema corte brasileira sobre o Tema 822? Trata-se de um julgamento sobre a possibilidade de o ensino domiciliar (homeschooling), ministrado pela família, ser considerado meio lícito de cumprimento do dever de educação, previsto no art. 205 da Constituição Federal. As informações estão disponíveis no site do tribunal. Vamos apenas destacar o principal:

Ementa: DIREITO CONSTITUCIONAL. EDUCAÇÃO. ENSINO DOMICILIAR. LIBERDADES E DEVERES DO ESTADO E DA FAMÍLIA. PRESENÇA DE REPERCUSSÃO GERAL

1. Constitui questão constitucional saber se o ensino domiciliar (homeschooling) pode ser proibido pelo Estado ou viabilizado como meio lícito de cumprimento, pela família, do dever de prover educação, tal como previsto no art. 205 da CRFB/1988.

2. Repercussão geral reconhecida.

O Relator é o ministro Luis Roberto Barroso.

Para saber mais:

https://portal.stf.jus.br/jurisprudenciaRepercussao/verPronunciamento.asp?pronunciamento=5658130

Re conectando. A modernização que já está em curso vai definir o futuro da educação pública e gratuita dentro e fora da escola formal? Ou ainda (dito de outra forma), podemos pensar sobre os limites do Estado de Direito (laico na sua origem e desenvolvimento) sobre o direito (e dever) de ensinar, bem como da gestão pública da educação. E a notícia de hoje pela manhã era a seguinte: O STF formou maioria (7x0) em abril de 2026 para derrubar a Lei 19.722/2026 de Santa Catarina, que proibia cotas raciais em universidades estaduais e comunitárias. O relator, ministro Gilmar Mendes, considerou a norma inconstitucional, reafirmando que ações afirmativas são ferramentas válidas de reparação histórica e igualdade material. Avançando para o autor (parlamentar).

O Professor Rocha na sua preleção de domingo a noite na TV Brasil convida a todos para o enlace com a obra denominada: “O Cristão e a política: descubra como vencer a guerra cultural”. A edição é de 2022 e o autor é Nikolas Ferreira. Você leu? Você tem alguma notícia sobre? Eu confesso que não havia chegado essa “notícia” ainda aqui no Porto Isabel. Os nossos recursos são muito limitados para a pesquisa e estamos avançando por pura expressão de um resistência necessária a nossa própria existência.

 O que diz Nikolas Ferreira na obra em tela? Eu não li o livro. Comprei um novo livro do Érico Veríssimo, mas ainda não chegou. Segunda mão: o gato preto em campo de neve. Contudo é necessário avançar. Navegando, chego ao artigo: “O recrudescimento do ultraconservadorismo no Brasil: análise do discurso político religioso de Nikolas Ferreira contra os valores e pautas feministas e LGBTQIAP+” de Edson Lugatti Silva Bissiati e Beatriz Aguiar da Silva. Nestes termos, o livro é um manifesto que mistura princípios religiosos com retórica política conservadora, incentivando o posicionamento dos cristãos contra a cultura dominante. Claro que isso não é tudo, pois há a informação de que Nikolas Ferreira, defende o engajamento ativo de cristãos na política para combater a pauta progressista. O site amazon escaneou a orelha do livro e nos informa ainda que a obra aborda a “Guerra Cultural” como um conflito entre valores judaico cristãos e ideologias modernas, focando em temas como educação, família e a luta contra a ideologia de gênero.

O interessante é que Rocha lembra de um episódio onde a ex-primeira dama da república realiza uma fala neste sentido. Ou seja, que o cristão não pode se abster de debates políticos e deve assumir uma postura de batalha cultural. Tema conexo: Ambos são unanimes nas críticas à instrumentalização da educação, ao ativismo universitário, ao aborto e a desconstrução da família.

Segundo a orelha do livro, a obra reflete a visão do autor de que há um ataque contra a influência cristã, buscando engajar os seus leitores em uma “Guerra Silenciosa”. Me parece que nem tão silenciosa assim, pois desde ontem estamos aqui a chamar a atenção do nosso aluno para os novos ares que sopram na ilha. A Federal de Santa Catarina passou por um processo de “escuta” da comunidade acadêmica que optou por renovar a linha política dos gestores da máquina estatal de ensino superior. E o RS? Esse vento chega aqui? (Ou não?).

Eu confessei que não li Nikolas Ferreira, mas eu li (e reli) Max Weber. O nosso terceiro interessado na lide. Perdão! Acho que ele é parte, assim como Rocha e vamos convencionar que o terceiro interessado é Ferreira, pois (em tese) menos graduado que os demais. O fato é que não é fácil resenhar uma obra de quase novecentas páginas. Bruna e Josué fizeram a resenha de “Weber: uma biografia”. Falamos sobre na live de ontem, portanto não vamos voltar ao termo por uma questão de tempestividade. É feriadão e você vai viajar. Não quero atrapalhar a arrumação das malas. Não esquece os livros (base física papel). Eles sempre são excelentes companhias.

Link para ler a resenha:

https://periodicos.ufjf.br/index.php/TeoriaeCultura/article/view/12403/6601

Tenho por hábito eleger a frase do livro que estou lendo e isso não é tarefa simples, quando dispomos de várias centenas de páginas para o feito. Mas quem procura acha e quem espera sempre alcança. Apenas ditos populares que vem ao presente termo, a fim de adoçar a boca de quem bebe sem pretensão de por mais um diploma na parede. Até porque não existem mais aqueles documentos físicos diplomas e tais quais dantes haviam. A Guerra está acabando (destruindo) com muitos ânimos, homens e vontades dentro e fora da academia. Veja aquela escola no Irã que foi alvo dos ataques no início da guerra. Depois mais um ataque em um complexo universitário onde especialistas de energia nuclear eram os alvos do império (dos imperialistas).

Weber viveu a guerra. Ele esteve presente no conflito armado que entrou para a história como a primeira grande guerra. Estou convencido de que este fato foi determinante para o declínio da sua saúde já frágil e instável ao longo daqueles últimos anos que antecedeu a sua morte. Claro que antes disso houveram outros “horrores” e ele fala sobre isso, literalmente no livro “Ciência e Política: duas vocações”. Relata a dinâmica da vida acadêmica e as mazelas de viver institucionalizado. Diz, por exemplo, que ninguém passa por um processo seletivo para ocupar um cargo de professor universitário sem determinado sofrimento. E que é dito ali, não são falas agradáveis. Difíceis de esquecer e que ninguém ousa reproduzir. Algo assim, eu não vou citar as páginas, mas está tudo ali.

A Guerra do homem contra o homem é a chave para a compreensão do processo ensino aprendizagem. A guerra do Estado contra o Estado é a história da economia mundial. A guerra não para e aflige especialmente os mais sensíveis, expostos. Os impérios se sucedem desde Cézar rumo ao caos. O Estado de Direito substituiu o soberano, declinio do absolutismo, mas algumas monarquias ainda resistem. Enfim, a regra geral atual é todo o poder emana do povo.

 Se a guerra é ilegal, o seu proponente não é um estadista, senão um facínora, um despota cruel. E a ferida cruenta, produto do conflito tem cheiro extremamente desagradavel. Lembra dos cubeiros que coletavam os dejetos humanos nas casas de porta e janela na Porto Alegre de outrora? O monopólio da violência legítima, Weber sempre presente. Lembrei do direito penal do inimigo e do alto grau de letalidade das polícias brasileiras. Enfim, devo remete-los para o capítulo dezesseis: Serviço Militar.

A página exata é a de número 602. Desta feita, não é uma frase, pois são dois parágrafos que sintetizam a vida, a dor, o sofrimento e o desaparecimento de Weber. Não é nem um pouco “falar” sobre isso: guerra, dor, sofrimento e desaparecimento. Mas está ali aquele que foi jovem professor (outono de 1893 a 1897) capítulo sete. Sofreu um esgotamento nervoso, capítulo oito. Se recuperou e viveu uma nova fase, capitulo nove. Viajou, foi a Roma e voltou, explorando novos cenários, obras de arte e vivendo muitos regozijos, capítulos treze e quatorze. Mas a guerra não perdoa ninguém. Estamos todos expostos e com Weber não foi diferente. Ele viveu, sofreu e morreu. E a guerra continua.

O parágrafo inicia assim: “Chegara a hora e foi uma sublimidade jamais sonhada. Os fatos externos, na verdade, não assomaram em grande parte da pequena cidade(...) Após formar uma fraternidade, prontificaram-se a destruir suas identidades individuais, servindo.” página 602. Segue na 603

“A caminho de casa, os Weber pararam por um momento na ponta superior de uma velha ponte; um entardecer de radiante sol emprestava perfeição a tudo que os cercava. (...) A terra descansava cheia de alegria em sua beleza. Logo beberia o sangue de milhares. (...) E ainda mais comovente que a sina dos jovens era a dos homens que se punham então a sair andando conhecedora e sobriamente do auge da vida para entrar nas trevas”. (Marianne Weber)

Weber não morreu na guerra. Após trabalhar nos hospitais de campanha, retorna para casa, para a educação e para a política, mas não era mais o mesmo homem. Abatido, triste, quase oco, ficou mais silencioso do que nunca. As trevas da primeira guerra repercutiram muito. Veio a segunda grande guerra e outros tantos conflitos internacionais se sucederam. Se Weber estivesse vivo, talvez estaria escrevendo um livro de história sobre as guerras. E qual é a situação atual? Entende, por que temos que cantar com Paulo Ricardo? Alvorada Voraz. Paz. Que Paz? Pra onde correr?

Retornando ao início da petição. O Objeto é o atual estágio de desenvolvimento da educação pública e gratuita de nível superior. Entendemos que há um processo de modernização em curso que foi iniciado em 2016. A questão é a seguinte: Este processo que já está em curso e vai definir o futuro da educação pública e gratuita de terceiro grau (ensino superior) possui relação com a transformação do cenário religioso no Brasil?

Pierucci e o seu desencantamento do mundo poderia estar conosco, mas preferi simplificar a análise e permanecer apenas com os autores já citados. E por falar em Antonio Flávio Pierucci, dá uma olhada no final do livro e a sua menção sobre um possível re encantamento do mundo. Essa parte final é muito interessante. Dá uma olhada. Creio que vai interessar a grande maioria dos nossos pares.

A idéia é não esquecer das aulas do Milton Bins, da professora Lorena e outros magistérios magníficos daquela saudosa graduação. Seguir resistindo: lendo, escrevendo e pensando a sociedade e a educação. Se você tem algum livro para ali na tua estante: doa (faz circular). Se o livro for de autoria do professor Rocha, aceitamos doações de qualquer título. Nikolas Ferreira idem, pois gostaria de ler também e conhecer esta “nova doutrina brasileira”. Será que tem alguma conexão com Auguste Comte? 

 Apesar que creio ainda que todo esse movimento tem início com as aulas de Olavo de Carvalho (Curso de filosofia em ambiente virtual). Eu não li Olavo de Carvalho, mas ele lia muito. Todo o ideário de repulsa a autonomia universitária nasce ali. Eu não li, assisti muitas vídeo aulas do professor Olavo e ele parecia bastante convincente nas matérias que lecionava.

Weber. Com certeza, sempre é bem vindo. Qualquer título do Weber ou sobre o weberianismo que estiver parado ai na tua prateleira. Aceitamos de bom grado. É horrível ler na tela. PDF não possui essência. Relação fria com o autor. O que fazer com o lápis ao ler texto digital? Por essas e por outras, sigo com a base física papel.

Antes do fecho. O Outono da idade média. Grande clássico da historiografia ocidental, publicado em 1919, este livro é a obra-prima de Johan Huizinga (1872-1945), tendo sido lançado em mais de vinte línguas. Pela primeira vez traduzido para o português a partir do original holandês, esta edição é resultado de pesquisas que reestabeleceram o texto original, em 1997. Raras vezes um período histórico foi apresentado de maneira tão viva e colorida. Aqui, a Idade Média é vista na plenitude de seus contrastes, distante do lugar-comum segundo o qual ela não passaria de uma transição, longa e letárgica, entre o brilho da Antiguidade e do Renascimento.

Abri uma vaquinha virtual, a fim de adquirir a obra supra referida. Se houver interesse dos pares. Favor fazer contato. Todos os valores são bem vindos. 

https://www.vakinha.com.br/vaquinha/mais-livros

Vamos para a conclusão desta breve prosa. Atenção, isto não é e não pretende ser um artigo científico (ou algo parecido). Apenas um breve relato de experiência de pesquisa forjado na periferia de Porto Alegre, RS, Brasil. Autos conclusos para a decisão do magistrado.

A Conclusão deve ser apresentada com temas conexos. A Etnografia de rua foi termo cunhado com a nossa participação (co-autoria). Naquela oportunidade, ao etnografar a cidade (topoanaliticamente, além de antropologicamente), descobri que Porto Alegre é, na verdade, um grande (e extenso) areal. Ao que tudo indica, um novo evento climático de grandes proporções vai ocorrer em breve.

A Alma grupo é um conceito de interesse da área da etologia. Sempre que um indivíduo (animal) de determinado grupo (ou espécie) é ferido de morte, a agressão aflige a todos e a resposta não é individual. Encontrei o elo (perdido) entre a Falange e a literatura. Outro sim, animal exótico não é análogo ao animal silvestre. Muito obrigado pela atenção de todos! 



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Gritos Misticos

 




 - Gritos Misticos - 





quinta-feira, 16 de abril de 2026

Peter Handke

 








VERBETE (Literatura)



Peter Handke é um romancista, dramaturgo, poeta e roteirista austríaco, premiado com o Nobel da Literatura em 2019. Nascido em Griffen, uma pequena cidade no sul da Áustria, sua carreira literária se iniciou no ano de 1964, quando, estudante de direito em Graz (Áustria), tornou-se membro do grupo literário Grazer Gruppe – do qual Elfriede Jelinek e Wolfgang Bauer também foram integrantes. Na época, ele publicava seus primeiros escritos na revista de vanguarda manuskripte, também conhecida por veicular autores do Wiener Gruppe. Já em 1965, Handke abandona a faculdade para dedicar-se à carreira literária, tendo lançado seu primeiro romance As vespas [Die Hornissen] no ano seguinte, por uma editora grande. Dalí em diante, o nome do autor não demoraria a tornar-se conhecido, em virtude de sua relação conturbada com a crítica e público e certa imagem de rebelde, que o aproximava dos movimentos jovens de contra-cultura no fim dos anos sessenta. Contrariamente a outros escritores da época, no entanto, Handke era avesso a qualquer forma de engajamento político na arte, apesar de se identificar com posicionamentos de esquerda na época. Essa postura foi por ele evidenciada no ensaio Eu sou um habitante de Torre de Marfim [Ich bin ein Bewohner des Elfenbeinturms] de 1972, em que defende que o engajamento seria um conceito não-literário, incompatível com o caráter não utilitário da literatura.


Para saber mais

https://centroaustriaco.com/peter-handke-1942/


Metodista

 




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Imagem de arquivo.

Mil novecentos e antigamente.

A Educação Metodista deixou saudades para todos nós.

Etnografia (Re-lembrar é viver)

 





UM  OLHAR  ETNOGRÁFICO  SOBRE  A  ATUAL  DINÂMICA VIVENCIADA  NO CAÍS  DO  PORTO  DA  CIDADE  DE  PORTO  ALEGRE: Caminhando pelo o que restou de um período de pujança e desenvolvimento de uma cidade outrora voltada para o seu rio.
                                    
“(...)O Porto, em que acreditávamos tanto, terminou em frustração, com o projeto de transformar-se em área de lazer. Os barcos e os trens nos abandonaram, dando lugar aos caminhões. A indústria fabril, depois de um ciclo de prosperidade, migrou para outras paragens. O capital internacional não acha muitos atrativos numa área de caminhos estrangulados e de comunicações roucas.(...)”  (Franco, 1997)
                              

A
s palavras, supra citadas, do historiador Sérgio da Costa Franco sobre  Porto Alegre e, em especial, sobre o Caís do Porto refletem um pouco do imaginário que os porto-alegrenses atualmente constróem sobre a sua cidade, diante das inúmeras transformações ocorridas no últimos anos.   Neste imaginário encontramos narrativas que constróem um misto de desesperança, regado com um pouco nostalgia e uma porção de medo: medo do futuro, do novo milênio, da violência ou até medo do medo [1], enfim de uma verdadeira “Cultura do Medo”.
Recorremos aqui à etnografia de rua, a fim de percebermos um pouco da base empírica destas construções elaboradas e vivenciadas pelos porto-alegrenses. Passamos então a enfrentar o desafio que se assemelha a “(...) tentar ler (no sentido de ‘construir uma leitura de’) um manuscrito estranho, desbotado, cheio de elipses, incoerências, emendas suspeitas e comentários tendenciosos, escrito não com os sinais convencionais do som, mas com exemplos transitórios de comportamento modelado.” (GEERTZ, 1978)   
A descrição da minha etnografia inicia a partir do momento que me aproximo do Largo Glênio Peres e arredores do Mercado Público de Porto Alegre. Ao passar pelo largo, observo muitas pessoas que circulam pelo local com toda a “pressa” originária de um grande centro urbano. Apesar da “pressa” (ou aparente falta de tempo), algumas pessoas param e ficam observando os “artistas” que atuam naquele local. Destacaria o tradicional vendedor de remédios naturais que, com recursos diversos (aparelho de som, animais exóticos como cobras, apelo teatral e dramático), tenta vender os seus produtos no Largo e nas praças da cidade, sendo assim já bastante conhecido da população; e um músico que tocava violino, utilizando alguns recursos sonoros como caixas de som e amplificadores, chamando bastante a atenção das pessoas que por ali passavam. Pude observar o Mercado Público que, totalmente restaurado, estava enfeitado com painéis e desenhos alusivos a Primeira Bienal do Mercosul, evento cultural que tem mobilizado muitas pessoas na capital. Vencido o Largo, nos aproximamos da Prefeitura Municipal de Porto Alegre, passo a me encomodar um pouco com o grande fluxo de pessoas e procuro então me afastar das ruas mais centrais, andando em direção a Avenida Mauá, onde se encontra o Caís do Porto, ponto principal desta etnografia de rua. A tentativa de evitar o grande fluxo de pessoas, afastando-me das ruas centrais, e caminhando pela Av. Mauá não foi muito promissora, pois também ali o tráfego estava complicado, principalmente em função de alguns caminhões que descarregavam cargas nas proximidades do Prédio dos Correios e Telégrafos, prejudicando assim o trânsito de pedestres naquele local. Passo a mapear os principais vizinhos do Caís do Porto, dentre eles os Correios e Telégrafos, Secretaria da Fazenda, Delegacia Regional do Trabalho, terminais de ônibus coletivos urbanos de Porto Alegre e grande Porto Alegre (Viamão) e o Instituto Santa Marta (SUS).
A travessia da Av. Mauá (em direção ao Cais do Porto) é, sem nenhuma dúvida, “uma manobra bastante arriscada”. Neste local o trânsito de veículos é muito grande e a velocidade média dos automóveis, caminhões e coletivos também é alta em função da avenida ser extensa (uma grande reta),  larga (com 3 faixas de rolagem) e não existir nenhum dispositivo inibidor da velocidade (com exceção do semáforo). Existe uma faixa de segurança e uma semáforo quase em frente a entrada principal do Caís do Porto, o que, teoricamente, facilitaria a travessia dos pedestres, no entanto nem sempre é bem assim. Os motoristas costumam aproveitar ao máximo o tempo destinado para a sua travessia, transitando no momento em que o sinal fica no amarelo e até nos primeiros instantes em que o sinal aponta a cor vermelha, ou seja, propõe a sua parada e permite a passagem para o pedestre.  Portanto, o fato de o sinal estar apontando a travessia para o pedestre (vermelho para os motoristas) não representa uma situação de travessia segura para este. Uma outra situação que representa bastante risco para o transeunte que decide atravessar a Avenida é aquela em que o sinal muda quando o pedestre encontra-se no meio ou quase no final da travessia da Avenida. Neste caso, a pessoa precisa correr ou pular a fim de que não sege apanhada por um veículo, pois observei que os motoristas decidem aproveitar ao máximo todos os segundos destinados a sua travessia, não abrindo mão assim dos primeiros instantes da exposição do sinal verde, mesmo que o pedestre ainda se encontre no meio da sua travessia. Em resumo, atravessar uma avenida no centro da cidade não é uma tarefa muito fácil e nem muito tranqüila, pois exige do pedestre bastante atenção e perspicácia para perceber o momento exato que a travessia pode ser realizada sem nenhum risco para a sua segurança pessoal. Esta situação pode ser bem mais problemática para os idosos, crianças, gestantes e deficientes físicos por razões óbvias.
Vencida a travessia da Avenida Mauá, entro no portão principal do Caís do Porto. Entrando, a minha esquerda, encontro o posto da guarda portuária, onde um funcionário faz a segurança no local. Decidi solicitar informações sobre como deveria proceder para realizar a visitação naquele local. Fui informado que deveria me dirigir ao prédio da administração do Porto, onde deveria solicitar uma autorização (por escrito) para realizar a visita. Assim procedi, subindo ao quarto andar do prédio apontado pelo guarda, onde em contanto com a funcionária Dulce consegui a permissão, após ter me identificado e externado o objetivo da minha visita. De posse da autorização, me dirigi ao portão de acesso do Caís, apresentei a autorização para um outro guarda que a reteu, permitindo a minha entrada e informando que eu poderia visitar todo o Caís em sua parte  que estava a minha direita, e a parte que ficava a minha esquerda não poderia ser acessada por ser “área operacional”, palavras dos funcionários para referir a parte onde existe intensa atividade de carregadores, guindastes, carga e descarga de containers, etc.
Neste momento, já na beira do Rio,  acontece o meu primeiro contato com algo que me acompanharia, ou até me indicaria uma determinada trajetória nesta visita ao Cais do Porto do Rio Guaíba:  os trilhos utilizados para a locomoção de algumas  máquinas e / ou guindastes que carregam e descarregam as cargas dos navios. Observo que estes trilhos estão sendo usados pelos guindastes que estão a minha esquerda (lado operacional). Na minha direita os trilhos continuam existindo, mas parecem não estar sendo usados para o deslocamento dos guindastes observados a minha esquerda , fato que me leva a supor uma provável restruturação físico-espacial deste local, pois a existência dos trilhos no meu lado direito supõe a existência destes mesmos guindastes operando em um outro momento (outra época e organização deste espaço) anterior a este.    
A minha direita, tenho o Barco Cisne Branco ancorado com alguns homens no seu interior, parece que trabalham e organizam algumas coisas no barco. Observando o barco estão um grupo de alunos de uma escola que realizam uma visita ao Caís. Fotografam e são fotografados, conversam com os seus professores sobre o barco, sobre o rio, ... parecem estar gostando bastante do passeio, pois aparentam muita satisfação, descontração e interesse por tudo o que vêem ao seu redor. De fato, penso que nem poderia ser diferente, entre outros motivos, por estarmos vivendo um dia muito ensolarado, com temperaturas altas, céu claro e uma brisa gostosa a sombra.
O Barco Cisne Branco traz um sistema do som que ligado, espalha pelo ambiente músicas veiculadas por uma rádio local da cidade de Porto Alegre. Esta sonoridade traz, segundo o meu entendimento, consigo uma sensação de descontração para as pessoas que visitam o Caís.
Olhando para o interior do rio, vejo a primeira embarcação que circula pelo local, ela traz uma carga de areia e se desloca lentamente pelas águas calmas do Rio Guaiba. Na mesma direção podemos observar o topo de prédio que se encontra na Ilha do Presídio, ponto próximo ao Cais.
Ainda a minha esquerda, após passar pelo barco Cisne Branco, encontro trabalhadores que descarregam determinada carga de uma carreta estacionada neste local.
Vou caminhando a fim de explorar a região que me foi permitida o acesso, ou seja, lado direito de quem entra no portão principal do Caís do Porto. Após passar pelo primeiro armazém B1 (no seu interior estão grande rolos de papel, e pequenos pacotes também de papel), onde trabalhadores trabalhavam na descarga de determinado produto, me encontro nos fundos do prédio da administração, onde a bem pouco tempo estava solicitando a autorização para realizar esta visitação. Após este prédio, passo por um outro armazém (B2) fechado e sem nenhuma movimentação de pessoas.
Estacionado neste local, duas grandes carretas com cargas que parecem ser grandes transformadores de energia elétrica. Os caminhões que puxam a carreta são caminhões do tipo “fora de estrada”,  realmente muito grandes e contam com sinalizações especiais que chamam a atenção para o seu excesso de largura e comprimento (diante das dimensões normais utilizadas pelos veículos tradicionais). Ao me aproximar de uma das carretas, vejo que a altura  das rodas chegam próximo ao meu ombro. Como tenho 1,76 m de altura, a altura das rodas chegam a, aproximadamente, 1,40 m, são, portanto bastante expressivas.
Após as carretas, vejo mais três prováveis transformadores colocados em linha, os quais suponho estarem esperando para serem carregados. Faixas estão colocadas nestes transformadores estampando o nome da empresa de destino (ou de origem), COENSA.
Olhando a minha esquerda, avisto a Ponte do Rio Guaíba (em direção a cidade de Guaíba) e algumas ilhas do mesmo rio. Na minha frente mais um prédio, onde leio Fundação Nacional de Saúde (Vigilância Sanitária), local onde funciona algum setor deste órgão.
Logo a minha direita existe um portão  que encontra-se aberto e dá acesso ao Caís do Porto. Ao contrário do portão principal, neste não existem guardas nem outro tipo de segurança que dificultem o acesso. Esta observação leva ao entendimento que existe uma “ritualização” envolvendo o Caís no que concerne ao seu acesso, de uma forma diferenciada  para “os de fora” em ralação “aos de dentro”. Pois “os de dentro”, conhecedores das barreiras, portões e cercas de delimitação deste espaço, certamente usariam este portão para chegarem à beira do rio e não o principal pelo qual entrei.  Passo pelo portão e começo a percorrer a rua que é paralela ao rio, no interior do muro da Mauá, ou seja, entre o muro e o rio.
Percorrendo esta rua, chego ao primeiro (de uma série) ancoradouro na seqüência de quem vem do portão principal do Caís do Porto em direção a cidade de Canoas. O primeiro é um ancoradouro onde encontramos apenas alguns barcos de pequeno porte. Neste local existe uma placa onde leio: “Grêmio Náutico União, Estação Fluvial Nilton Silveira Neto, Embarque, Sede Ilha do Pavão”. Nas proximidades do prédio do Palácio do Comércio, me deparo com a estação dos bombeiros. Na parede está estampada os símbolos e uma mensagem (ou lema) do 3o. grupo de bombeiros da brigada militar : “Homem do salvamento, estar seguro, trabalhar com segurança, produzir segurança, mais do que um lema, uma filosofia em ação.”
Passo a perceber que, em verdade, o Caís do Porto possui toda uma cultura muita própria e muito sua. Cada ancoradouro, cada espaço ou cada ator social que aqui atua está inserido numa lógica e numa racionalidade que para ser percebida em sua integralidade demandaria uma investigação muito mais minuciosa e elaborada do que por ora realizo. É um pouco óbvio o que estou afirmando, no entanto é interessante de registrar esta minha percepção de que somente um envolvimento e uma interação maior com este local me permitiria perceber e reconstruir a “subjetividade portuária”, fato que nos revelaria, em detalhes, a verdadeira dinâmica, a real estruturação, organização e normalização deste “espaço não - urbano” da cidade de Porto Alegre.
Voltando a descrição físico-espacial do lugar, caminhando mais um pouco, me aproximo do prédio C3, onde leio garagem e oficina APPA - Portão 01.  Atento para a cobertura da rua que estou percorrendo que é de pedras do tipo paralelepípedo. Caminho no sentido centro bairro (no caso Centro de Porto Alegre - Canoas) e a minha direita tenho um trilho (o mesmo que começou o seu traçado logo na entrada do Caís) que percorre toda a rua, decido seguir a sua trajetória, pois percebo que, apesar de estar atualmente em desuso, este trilho já representou uma determinada dinâmica de trabalho do Caís do Porto. Seguí-lo, ou percorrê-lo é atitude óbvia para quem tenta perceber o que este trilho e o que este chão podem estar querendo “falar” para quem o “escuta” (ou quem com ele dialoga). Avisto o prédio C4 que tem as portas abertas e máquinas no seu interior, no entanto não existe movimento de trabalhadores neste momento (viria a saber, mais tarde que o que estava ali acondicionado era sal). Uma placa estampa a mensagem “Proibida a entrada” ao lado deste prédio (na verdade estas placas foram encontradas em vários locais do Caís, denotando as estratégias de contenção e normalização deste espaço, porém nem sempre elas pareceram atuais e operantes). Percorrendo mais um trecho da rua, chego a um outro ancoradouro (2o.) onde estão atracados navios de grande porte, Navio Taquari, Itapuã, ...  Fiquei tão impressionado com o tamanho das embarcações que passei a tentar quantificar o seu tamanho: eles teriam, aproximadamente, uns 10 metros de largura e uns 30 de comprimento. Neste mesmo ancoradouro, observo várias outras embarcações de menor porte que as três anteriores, apresentando um péssimo estado de conservação o que permite supor até que elas estão totalmente fora de atividade.
Continuo caminhando, em certo momento o capim esconde os trilhos e passo a pensar se estou seguindo a trajetória dos trilhos ou são os trilhos que acompanham a minha caminhada ? A resposta não é minha neste momento. Avisto um outro prédio que está mal conservado e tem escrito em suas paredes anúncios de venda de gelo.
Me aproximando da Elevada da Conceição, olho para o muro que separa a cidade do Rio e percebo a “força”[2] deste muro. É realmente um aparelho delimitador espacial que remonta a perspectiva da percepção “intra-muros” e “extra-muro” como a que já trabalhei em casos de realidades institucionais do estilo manicomial. Em outras palavras, a cidade está excluída deste espaço e vice-versa, o que nos coloca claramente a necessidade de se separar o que é urbano do “não - urbano”, ou a lógica urbana da lógica “não - urbana”. Esta proposta de delimitação passa a existir no Brasil a partir do século passado e está intimamente relacionada com o movimento que aqui já mencionamos: a higienização dos aparelhos públicos.  Este é um ponto (espacialidade do Caís) de análise deste local e desta lógica local que demandaria também um esforço maior de análise e de interação, como já havia afirmado antes. Nas proximidades da Elevada da Conceição, observo uma espécie de portão (na extensão do muro) que parece não ser utilizado visto a suas características de conservação e dos capins que o entornam.
Caminhando mais um pouco, avisto um outro prédio onde leio: Centro Integrado de Comercialização agrícola e, novamente, Venda de Gelo. Este prédio está desocupado e desabitado, além de mal conservado como o anterior. Ao lado do muro encontro bastante lixo neste trecho da caminhada, parece que na medida em que nos afastamos do portão principal do Caís do Porto aumenta o desleixo, a sujeira, a má conservação dos prédios, inexistência de atividades nos prédios, etc. Ou seja, na medida em que nos afastamos do “centro” deste local o que era belo, policiado e bem cuidado agora é o oposto de tudo isso.
Chego ao terceiro ancoradouro  e observo alguns barcos de grande porte. Uma das embarcações é parecida com as que carregam areia, não sei exatamente o nome específico. Posso perceber,  então,  mais um bloco de prédios que é o (c6), onde observo algumas caixas garrafas de bebidas sendo transportadas. O  prédio ao lado esta aparentemente sem atividade, não tem pessoas que circulam ou que estão trabalhando neste local. Alguns carros passam por mim e suponho que são funcionário que, nesse momento são 11:25,  estão talvez indo para de almoço. Me encontrava agora nas proximidades da rodoviária e da elevada da Conceição. Passo a ter  a impressão que esta estrada vai mais longe do que eu imaginei, portanto seria necessário ter uma condução para explorá-la em toda a sua extensão.
Tenho a minha direita o terminal do Trensurb, onde pessoas aguardam a chegada do trem. Me parece que este seria o terminal Estação Rodoviária. Vejo dois caminhões  velhos  estacionados ao lado do referido prédio. O Trensurb acaba de chegar no terminal e as pessoas que o aguardavam passam a trafegar nele. Neste momento, passo por cima dos trilhos  que  eu estava acompanhando, (ou dos trilhos que acabaram por definir a minha trajetória, ou trilhos me trouxeram até aqui, ou ...) ou seja eles cruzaram a rua em direção ao rio. Neste momento fico admirado com o que estou vendo:  uma caminhão, do tipo tombadeira, estaciona ao lado do prédio C6, operários colocam  caixas de garrafas de vidro neste caminhão e ficam quebrando as garrafas.  Parece que garrafas de vidros   realmente não são mais importante, pois estão quebrando e colocando dentro da tombadeira. Hoje, a hegemonia dos recipientes para acondicionamento de refrigerantes é do plástico.
Sinto a necessidade e a curiosidade de adentrar e explorar mais essa estrada que continua a minha frente, porém vou retornar, até porque os trilhos  me trouxeram até aqui. Neste momento acontece algo muito interessante: vejo um funcionário, um senhor de aproximadamente 60 anos, sair do prédio onde os operários quebravam as garrafas e decido passar a caminhar ao seu lado conversando com ele (em direção ao portão principal do Caís, ou seja, retornando), a fim de conhecê-lo e, ao mesmo tempo, conseguir algumas informações sobre a dinâmica do Caís que até então se  apresentavam como uma incógnita para mim. Foi um diálogo curto, porém muito interessante, pois o contato direto com um ator social local foi imprescindível para percebermos alguns detalhes da organização e da espacialização do Caís.
Sanislau, trabalhador do porto a mais de 30 anos, falou-me das suas percepções a cerca da situação atual do Caís, da existência do Muro da Mauá, das lembranças da enchente de 1941, entre outras coisas. Sobre a questão do muro, ele afirmou que “o muro matou o caís, olha isso aí, tudo parado !  Antes o movimento era grande, havia muito trabalho, (...)”.
Nas suas palavras, são claras as construções mnemônicas sobre as transformações negativas, segundo o seu ponto de vista, que a construção do muro da Mauá trouxe para as dinâmicas do Caís do Porto, reportando e relacionando a situação atual com  um tempo de pujança e de intensa atividade portuária,  anterior à construção do muro. Além disso, a sua fala traz um veio de esperança, no sentido da possibilidade de que haja um retorno ao período áureo do Caís, a um passado promissor que reconstrói na sua memória, verbalizando: “Parece que vão derrubar isso daí (aponta para o muro)”.
Perguntado sobre a enchente de 1941, Sanislau afirma: “Foi coisa feia meu filho. A água ia lá na Rua da Praia. Eu estava aqui e vi tudo.”  Mas, quando questiono-o sobre a possibilidade da ocorrência de uma nova enchente na cidade, semelhante a de 1941, a qual justificaria a existência do muro como proteção, irônico ela afirma: “É, ‘eles’ estão esperando uma outra enchente daquelas a mais de 50 anos.”  Externa assim uma posição pessoal clara sobre a não funcionalidade do muro como proteção da cidade em caso de enchentes e sim como um dispositivo que interrompeu o desenvolvimento das atividades portuárias.   
Na sua integra, foi uma conversa muito interessante de, aproximadamente, 20 minutos com seu Sanislau que, como outros antigos funcionários do Caís do Porto, integra o grupo dos maiores guardiões da memória deste lugar tão significativo para a constituição da cidade de Porto Alegre. Dentro do esforço de um trabalho etnográfico, recuperar esta memória e reconstruir o “edifício das memórias coletivas” (JEUDY, 1986) destes guardiões é a atividade que nos possibilitará avançar no entendimento da relação dos porto-alegrenses com o seu rio. 


























BIBLIOGRAFIA



1.    COSTA, Elmar Bones da. História Ilustrada de Porto Alegre. Porto Alegre : Ed. Já Editores, 1997.

2.    ECKERT, Cornelia. Antropologia do Cotidiano e Estudo das Sociabilidades a Partir das Feições do Medo e das Crises na Vida Metropolitana. Porto Alegre: UFRGS. Projeto de Pesquisa, 1997.

3.    FRANCO, Sérgio da Costa. Guia Histórico de Porto Alegre. Porto Alegre: Ed. da Universidade / PMPA, 1988.

4.    ________ , ___________ . Porto Alegre e Seu Comércio. Porto Alegre: Ed. Associação Comercial de Porto Alegre, 1983.

5.    GEERTZ, Clifford. A Interpretação das Culturas. Rio de Janeiro: Ed. Zahar, 1978.

6.    NORBERG-SCHULZ, Christian. Nuevos Caminhos De La Arquitectura - Existencia, Espacio y Arquitectura. Barcelona: Ed. Blume, 1975.











[1] Nome dado pelos psiquiatras e psicólogos para um tipo de distúrbio emocional, observado especialmente nas grandes cidades, marcado pelas tensões, fobias, e agregação de vários tipos de medos sentidos simultaneamente pelos pacientes.
[2] Força social e simbólica.