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John Willian Waterhouse
A descida da Barreto Viana ocorria todos os dias pela manhã. Cerca de dois quilômetros de distância da residência da minha mãe até o educandário. Dois de ida e dois de volta. Cinco dias por semana. Três anos de duração. A questão é: quantos quilômetros percorridos a pé foram necessários para a conclusão do ensino médio (Curso de Magistério)?
Eu nunca poderia imaginar que chegaria aqui hoje, embarcado em letras. Mais de quatro décadas após o primeiro diploma que me habilitou para o exercício de uma profissão tão significativa para a sociedade. Não tinha ambição, não era carreirista, tão pouco interesseiro. Já era eu mesmo, somente não me conhecia assim como hoje me reconheço.
Sai do Isabel de Espanha e não fui estimulado dentro de casa para seguir estudando. Mas aquelas aulas de filosofia, de sociologia, de história, de língua portuguesa e de redação oficial mexeram comigo. Mas não havia um plano. Dado interessante: decoração.
Nos últimos anos do ginásio que frequentei na Escola Municipal Alberto Pasqualini fui apresentado para diversas opções profissionais. Me chamou a atenção o curso de decoração, cheguei em casa e disse para a minha mãe: Eu quero frequentar o curso de decoração. Ela respondeu: não posso pagar a tua passagem todos os dias para ir estudar em Porto Alegre. Fiquei triste. Fui para o plano B: curso de magistério na Escola Estadual Isabel de Espanha. Tinha até exame de admissão, pois não havia vagas disponíveis para todos os interessados.
Muita didática, pedagogia, artes em geral e a decoração (de interiores) que poderia ter sido um prelúdio para a arquitetura, ficara para trás. Mas o melhor estava por vir: a sociologia e o livro do Professor Milton Bins impresso na PUC (Editora Mundo Jovem - Edipuc/RS) foi a ponte para o círculo mágico. Laico, mas cheio de magia. Claro que eu estava apenas iniciando nas artes. Vale. Campus do Vale.
A ciência social era uma desconhecida, mas guardei com carinho o livro do Bins. À noite, no quarto de uma casa de madeira, periferia, ruas de chão batido, buscava entender o que acontecia no meu entorno. A arma: o livro de capa “rora” onde estava escrito: introdução a sociologia geral. Imagina a minha emoção, quando encontro Bins na universidade.
Agora sentado nas cadeiras universitárias, trajando apenas camiseta , ouvindo a fala daquele professor que não existia para mim, além daquelas poucas páginas de um livro adquirido com recursos próprios na escola de ensino médio, a ciência política parecia ser um caminho a trilhar. Veio outra oportunidade, donde extrai: “Estudo Antropológico de um espaço urbano singular: Cais do porto de Porto Alegre (A Cidade que tem porto até no nome). A egrégora do vale, remete para a arte.
O Círculo Mágico (The Magic Circle), pintada em 1886, é uma das obras mais enigmáticas de John William Waterhouse e um marco do estilo pré-rafaelita tardio. Atualmente, ela faz parte da coleção da Tate Britain, em Londres.
A pintura captura uma feiticeira solitária em um momento de poder ritualístico, usando uma varinha para traçar um círculo de fogo no chão. Este círculo não é apenas um desenho, mas uma barreira espiritual que separa o sagrado do profano. A obra é rica em detalhes que reforçam a atmosfera de ocultismo e mistério.
O círculo representa pureza e proteção. Dentro dele, a bruxa está segura e cercada por flores, enquanto o caldeirão emite uma fumaça sobrenatural que sobe aos céus. Fora do círculo, o ambiente é desolado. Corvos (ou gralhas) e um sapo — símbolos tradicionais de bruxaria e presságios negativos — observam o ritual, mas não podem entrar no espaço protegido.
A mulher veste trajes que misturam referências persas, gregas e anglo-saxãs, segurando uma foice em forma de lua crescente, o que a conecta a divindades lunares como Hécate. Diferente de outros artistas que retratavam bruxas como figuras malévolas, Waterhouse apresenta uma mulher com rosto determinado e focado, capturando uma beleza que "aprisiona" o espectador pelo encantamento.
A pintura foi exibida na Royal Academy em 1886 e reflete o fascínio da era vitoriana pelo exótico e pelo ressurgimento do interesse no esoterismo. Embora não haja evidências de que o próprio Waterhouse fosse um ocultista, ele soube capturar a essência da "magia cerimonial" que começava a ganhar força na Europa da época.
Eu nunca poderia imaginar que chegaria aqui hoje, embarcado em letras, embebido em arte e com a proposta de seguir trabalhando no magistério: Ciências sociais combinada com Ciências Jurídica dentro do Curso de “Economia Cultural”. Mais de quatro décadas após o primeiro diploma que me habilitou para o exercício de uma profissão tão significativa para a sociedade.
O professor Bins morreu, sigo com os livros de cabeceira e não abro mão de defender teses “absurdas”, por exemplo: Weber não foi e não pretendia ser um sociólogo, senão um jurista que lecionou economia e era apaixonado por história. A sua principal obra é “A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo”. A academia tem respostas prontas pra quase tudo e eu entendo que é mais fácil para o vosso magistério seguir reproduzindo o “Weber mítico” idealizado desde sempre como um sociólogo raiz (risos respeitosos).
Eu nunca poderia imaginar que chegaria aqui hoje, embarcado em letras. Mais de quatro décadas após o primeiro diploma que me habilitou para o exercício de uma profissão tão significativa para a sociedade. Não tinha ambição de me aprofundar em autor X, Y ou Z., Não era, não sou e nunca fui carreirista, tão pouco interesseiro. Já era eu mesmo, somente não me conhecia assim como hoje me reconheço.

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