quarta-feira, 8 de abril de 2026

A Deusa

 






Texto Didático para a aula número 576

 Teologia Social.

Título: A Deusa

Base Científica: Obra do mitólogo Joseph CAMPBELL

(especialmente o título: O Poder do Mito)

Parte I

        A Deusa foi a primeira divindade cultuada pelo homem pré-histórico. As suas inúmeras imagens encontradas em vários sítios históricos e arqueológicos do mundo inteiro representavam a fertilidade - da mulher e da Terra. Por ser a mulher a doadora da vida atribuiu-se à Fonte Criadora Universal a condição feminina e a Mãe Terra tornou-se o primeiro contato da raça humana com o divino.


        Atualmente pouco se investiga sobre esta temática. Percebemos que a sociedade ocidental formada sob a égide da mitologia judaico-cristã se afastou de várias origens mitológicas. A grosso modo, podemos verificar que fomos condicionados por uma cosmologia desprovida de símbolos do Sagrado Feminino.


        As “sagradas escrituras” apresentam Maria, Mãe Divina, que não tem os atributos divinos. Segundo o dogma cristão, os atributos divinos são reconhecidos apenas ao Pai e ao Filho e é substituída na Trindade pelo conceito de Espírito Santo. Neste universo, Maria é a intermediária para a atuação dos poderes do Deus (O Todo Poderoso). "peça à Mãe que o Filho concede..." Mas Maria não é a Deusa, senão um de seus aspectos mais aceitos pela sociedade patriarcal, de coadjuvante do Deus, reproduzindo o fenômeno social do patriarcado em que a mulher auxilia o homem, mas sempre lhe é inferior e, por isso, deve submeter-se à sua autoridade.


        Segundo diversas fontes consultadas, constata-se que a ausência de uma Deusa nas mitologias pós-cristãs se deve ao franco predomínio do patriarcado. Predomínio esse que nos trouxe a uma sociedade norteada pelos valores da competição selvagem, da sobrevivência do mais forte, da violência ao invés da convivência, do predomínio da razão sobre a emoção. 


        Alguns especialistas afirmam que a Deusa está ressurgindo. Desde há algumas décadas atrás, observamos um movimento de retorno. Especialmente, quando vemos a descoberta da Terra como valor mais alto a preservar sob pena de não mais haver espécie humana fez decolar a consciência ecológica e o renascimento dos valores ligados à Deusa: a paz, a convivência na diversidade, a cultura, as artes, o respeito a outras formas de vida no planeta.


        Segundo os adeptos, cultuar a Deusa hoje significa reconsagrar o Sagrado Feminino, curando, assim, a Terra e a essência humana. Quer sejamos homens ou mulheres, sabemos que nossa psique contém aspectos masculinos e femininos. Aceitar e respeitar a Deusa como polaridade complementar do Deus é o primeiro passo para a cura de nossa fragmentação dualística interior.


        Eles afirmam também que a Deusa é cultuada como Mãe Terra, representando a plenitude da Terra, sua sacralidade. Sobre a Terra existimos e, ao fazê-lo, estamos pisando o corpo Onipotente e distante, que vive nos céus... A Deusa é a Terra que pisamos, nossos irmãos animais e plantas, a água que bebemos, o ar que respiramos, o fogo do centro dos vulcões, os rios, as cores do arco-íris, o meu corpo, o seu corpo... A Deusa está em todas as coisas... Ela é Aquela que Canta na Natureza... O Deus Cornífero seu consorte, segue sua música e é Aquele que Dança a Vida...


        Os adeptos acreditam que cultuar a Deusa não significa substituir o Deus ou rejeitá-lo. Ambos, Deus e Deusa são as expressões da polaridade que permitiu que o Grande Espírito, o UNO, se manifestasse no universo... São os dois lados de uma mesma moeda... as duas faces do Todo, ou sua divisão primeira. Assim, crer na Deusa e no Deus ainda é crer em um Ser Supremo que, ao se bipartir, criou o princípio masculino e o princípio feminino, o Yin e o yang, o homem e a mulher.


        E a face oculta da Lua?

        A Deusa também é a Senhora da Lua e, mais uma vez, a explicação desse fato remonta às cavernas em que já vivemos. O homem pré-histórico desconhecia o papel do homem na reprodução, mas conhecia muito bem o papel da mulher. E ainda considerava a mulher envolta em uma aura mística, porque sangrava todo mês e não morria, ao passo que para qualquer dos homens sangrar significava morte. Portanto, a mulher devia ser muito poderosa, ainda mais que conhecia o "segredo" de ter bebês... 


        Diante do exposto, fica mais fácil entender porque a mulher era identificada com a Deusa. Necessário, pois um breve exercício de relativização dos princípios basilares do nosso próprio padrão cultural. A nossa cosmologia remete diretamente para o pai (Deus único), mas a o trabalho dos arqueólogos e mitólogos explicam o caminho de descobrimento da Deusa. Dito de outra forma, há evidências científicas que remontam a cena da primeira divindade conhecida pela humanidade e seus caracteres femininos. E a Lua? Existe relação entre ambas?


        O ritmo da vida do homem e da humanidade dos tempos idos estava muito relacionado com a natureza, como vimos no início do texto. Os astros e os corpos celestes serviam de orientação para as suas atividades e planejamento pessoal. Quando as pessoas descobriram que a gestação dos seres humanos (gravidez) durava 9 meses (10 lunações). Bem como, quando perceberam a relação da colheita (Culturas vegetais) e a sequência das estações seguia um ciclo de 13 meses lunares “virou a chave”. Ou seja, a relação entre os fenômenos naturais chamou a atenção das pessoas e reforçou um sentimento de pertencimento etnico e religioso ao “Culto da Deusa”.


        Antes de iniciarmos a segunda parte do texto, sugerimos a observação das gravuras, desenhos e iconografia da obra de referência ( Joseph Campbell - O Poder do Mito). 






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