sábado, 31 de outubro de 2015
sexta-feira, 30 de outubro de 2015
quinta-feira, 29 de outubro de 2015
Alcance do Tema
EVANS-PRITCHARD, E.E. "Alcance do
Tema". In: Antropologia Social. Lisboa,
Ed. 70, 1972.
p. 12. - A Antropologia Social tem um
vaocabulário técnico muito limitado e vê-se obrigada a recorrer à linguagem
comum, que, como todos sabem, näo é muito exata. Os termos SOCIEDADE, CULTURA,
COSTUME, RELIGIAO, SANÇAO, ESTRUTURA, FUNÇAO, POLITICO, DEMOCRATICO, nem sempre
comportam o mesmo significado, quer para diferentes pessoas, quer em diferentes
contextos. Soluçöes?...
ANTROPOLOGIA, DEFINIÇÖES???
p. 12/13 - Em Inglaterra e, ainda que em
menor grau, nos Estados Unidos, a expressäo Antropologia Social é utilizada
para desginar uma parte de uma matéria mais vasta que é a Antropologia, isto é,
o estudo do homem num certo número de aspectos. O seu objeto está ligado às
culturas e sociedades humanas.
p. 13. Na Europa continental prevalece a
definiçäo "o estudo completo do homem (Antropologia Fisica ou estudo
biologico do homem).
INGLATERRA - ANTROPOLOGIA SOCIAL
FRANÇA - Etnologia ou Sociologia
p. 13. Primeira cátedra oficialmente
designaçäo de Antropologia Social - Frazer 1908 em Liverpool.
p. 13. Inglaterra: Antropologia
Social Antropologia Fisica
p. 14 Caracteriza o que é Etnologia...
estudo preliminar para as comparaçöes que fazm os antropólogos sociais entre
sociedades primitivas, porque é altamente conveniente, e até mesmo necessário,
principiar o trabalho comparativo com as do mesmo nível cultural ... A
Arqueologia Pré-Histórica...
p. 15. O objeto da Antropologia Social é
estudar o comportamento social, geralmente em formas institucionalizadas, como
a familia, sistemas de parentesco, organizaçäo politica, procedimentos legais,
ritos religiosos, e assim por diante, além das relaçöes entre tais
instituiçöes, estuda-se em sociedades contemporâneas ou naquelas comunidades
históricas sobre as quais existe uma informaçäo adequada para a realizaçäo de
tais investigaçöes.
p. 19. A Antropologia Social é o estudo de
todas as sociedades humanas e näo só das sociedades primitivas, apesar de na
prática e por conveniência se ocupar atualmente em analisar preferentemente as
instituiçöes dos povos mais simples. É evidente que näo pode haver uma
disciplina independente consagrada inteiramente ao estudo destas sociedades.
Quando um antropólogo se dedica à investigar um povo primitivo, o que estuda é
a linguagem, a religiäo, as leis, as instituiçöes politicas, a economia
politica.... depara-se com os mesmos problemas gerais que o estudioso destas
matérias nas grandes civilizaçöes do mundo. ... o antropólogo sempre compara as
sociedades.
Entäo, na época, para Evans-Pritchard: A
ANTROPOLOGIA SOCIAL, RAMO DOS ESTUDOS SOCIOLOGICOS QUE SE DEDICA PRINCIPALMENTE
AS SOCIEDADES PRIMITIVAS enquanto que SOCIOLOGIA - ESTUDO DE DETERMINADOS
PROBLEMAS EM SOCIEDADES CIVILIZADAS.
p. 16 "primitivo" - termo
técnico
p. 17. Tarefa da Antropologia Social -
estudo sociedades primitivas? Por que? Razöes?
p. 17 O estudo sociedades primitivas como
estudo das instituiçöes enquanto partes dos sistemas sociais. Sociedades
primitivas aparecem como objeto privilegiado pois säo estruturalmente simples e
culturalmente homogêneas, podem ser diretamente observadas como um todo, antes
de tentar estudar sociedades civilizadas complexas, onde isto näo é possível.
p. 17. Outra razäo, elas estäo a
transforma-se rapidamente e, portanto, torna-se necessário investigá-las o mais
depressa possível... p. 18. Estes sistemas sociais em vias de desaparecer
constituem variantes estruturais únicas, cuja análise nos ajuda
consideravelmente a compreender a natureza da sociedade humana, porque, num
estudo comparativo de instituiçöes, o número de sociedades com que se trabalha
é menos significativos que o seu grau de variaçäo.
p. 18 Outra razäo: valor intrínseco: Estas
sociedades säo interessantes em si mesmas, porque nos oferecem uma descriçäo da
forma de vida, dos valores e das crenças dos povos que vivem privados daquilo
que estamos habituados a considerar como os requisitos mínimos do conforto e da
civilizaçäo.
p. 18/19. Outros grupos estudados pela
Antropologia Social: comunidades rurais, vida urbana, aldeias e sociedades
históricas.
Questöes de METODO
p. 19. ANTROPOLOGIA SOCIAL - estuda
diretamente os povos primitivos vivendo entre eles durantes meses ou anos.
Ocupa-se da sociedade como um todo: estuda a ecologia, economia politica,
instituiçöes legais e politicas, a religiäo, a tecnologia, a organizaçäo da
familia e o parentesco, a ganadaria e a agricultura, a arte, etc... como partes
dos sistemas sociais gerais.
SOCIOLOGIA - estudo baseado em documentos
e estatísticas. Trabalho especializado, investiga problemas isolados. Ligado a
Filosofia social e ao planejamento social. Mas tb. (p. 20) um corpo geral de
conhecimentos teóricos sobre as sociedades humanas.
p. 20. OBJETO DA ANTROPOLOGIA SOCIAL:
relaçäo entre sociologia (corpo geral teorico) e a vida social primitiva.
quer dizer... (p. 21) A ANTROPOLOGIA
SOCIAL REALIZA UM CONJUNTO DE ESTUDOS DIFERENTES NUMA SERIE DE SOCIEDADES
DISTRIBUIDAS POR TODO O MUNDO. (p. 23) Estuda o conjunto de relaçöes sociais,
relaçöes entre memebros de uma sociedade e entre grupos sociais, enfatiza mais
o estudo da sociedade que o estudo da cultura (aqui no sentido de costume).
p. 23. A Antropologia Social pode
generalizar com mais facilidade que a Historia... pela análise comparativa das
estruturas sociais
p. 24 Crítica a Morgan, Spencer, Durkheim,
Tylor...
p. 25/26. O que antropólogo social, ao
contrário dos evolucionistas e funcionalistas anteriores busca ao estudar uma
sociedade primitiva? O que ele descreve é a realidade, o comportamento básico,
em que ambos os conceitos (sociedade e cultura) se encontram incorporados...
näo säo entidades separadas mas classes de abstraçöes distintas..., na
antropologia atual (trata-se da atualidade para Evans-Pritchard) os estudos
antropológicos especializam-se sobre instituiçöes pensadas como elementos de
uma estrutura social mais ampla e complexa.
p. 26 Mas o que é estrutura social para
Evans-Pritchard?
Cada sociedade tem uma forma ou padräo
caracteristico que nos permite considerá-la como um sistema ou estrutura, no
seio da qual os seus memebros desenvolvem as suas atividades em concordância
com ela. O uso do termo "estrutura" com este significado supöe um
certo grau de compatibilidade entre as partes, pelo menos suscetivel de evitar
contradiçöes abertas e conflitos. Significa também que tem uma duraçäo maior
que a generalidade das coisas passageiras da vida humana. As pessoas que vivem
numa sociedade podem näo se dar conta de que esta possui uma estrutura, ou
capta-la apenas de uma forma vaga.
p. 27 A TAREFA DO ANTROPOLOGO SOCIAL É
REVELAR A EXISTENCIA DE UMA ESTRUTURA. Uma estrutura social total, isto é, a
estrutura completa de uma sociedade determinada, compöe-se de um certo número
de estruturas ou sistemas subsidiários, e é por isso que podemos falar de
sistemas de parentesco, sistemas econômicos, religiosos ou politicos...
Assim, quando falamos das funçöes das
instituiçöes, estamos a referir-nos à parte que lhes corresponde na manutençäo
da estrutura da estrutura social.
EVANS-PRITCHARD, E.E.
EVANS-PRITCHARD, E.E. "Algumas
reminiscências e reflexöes sobre o trabalho de campo". In: Bruxaria, oráculos e magia entre os Azande. Rio,
Zahar, 1978. Apêndice IV.
EVANS-PRITCHARD
Segundo Evans-Pritchar, percebemos que é essencial percebermos que os fatos, em si,
näo têm significado. Para que o possuam, devem ter certo grau de generalidade.
É preciso saber exatamente o que se quer saber, e isso só pode ser conseguido
graças a um treinamento sistematico em antropologia social acadêmica. Além
disso, nele está muito presente a importância de uma revisäo bibliografica
sobre o tema, e estudos de informaçäo teorico-metodologico como instrumentos
que problematizem a realidade a ser estudada.
OBJETO
O objeto de estudo: säo seres humanos, o trabalho de campo envolve a
nossa personalidade - cabeça e coraçäo; e que, assim, tudo aquilo que moldou
essa personalidade esta envolvido, näo só a formaçäo acadêmica: sexo, idade, classe
social, nacionalidade, familia, escola, igreja, amizades. Tudo que desejo
sublinhar é que o que se traz de um estudo de campo depende muito do que se
lava para ele.
É possível ir a campo com idéias pré concebidas, mas o treinamento
cientifico permite o exercicio de apreendê-las e relativiza-las (importância da
teoria).
ESTUDO RELACIONAL - estudar mais de uma sociedade quando possivel
- o contraste: idéias, valores desse povo com os de sua propria cultura,
e isso apesar de todo esforço corretivo implicito em seu conhecimento da
literatura antropologica... perceber linhas de pesquisa
- o estudo de uma segunda sociedade possui também a vantagem de tornar o
investigador mais experiente: ele ja sabe que erros evitar, como iniciar mais
rapidamente suas observaçöes, como cortar caminho na investigaçäo e como
descernir sem muito esforço o que é relevante - pois pode ver os problemas
fundamentais mais depressa.
MÉTODO / TÉCNICAS
- Realizar a observação participante na medida do possivel e do
conveniente, pois assim o pesquisador vive a vida do povo que esta estudando.
- Sugere experimentar coisas, hábitos da outra cultura, mas isto também
teu um lado perigoso, pois nem sempre pode ser bem recebido pelo grupo, e o
pesquisador pode querer fingir sem se dar conta disto... melhor dizer que o
antropólogo vive simultaneamente em dois mundos mentais diferentes, que se
constroem segundo categorias e valores muitas vezes de dificil conciliaçäo.
Tornamo-nos, ao menos temporariamente, uma espécie de duplo marginal, alienado
de dois mundos.
- o problema fica mais evidente
quando somos confrontados por noçöes inexistentes em nossa cultura atual e,
portanto, näo-familiares. Exemplifica com a dificuldade de entender idéias
sobre bruxaria dos Azande
Falando da diferença ente a sociologia e a
antropologia social, questiona: quais as tecnicas, entrevista fechada ou
aberta, depende da situaçäo, tomar nota, em que situaçäo? depende tem que ter
sensibilidade para isto.
Destaca a importância dos informantes, sobretudo informantes chave,
também, pessoa sensivel para entender o modo de vida de seu povo, mas é
fundamental falar a lingua nativa. Acredita que é sempre possivel verificar e
reverificar a informaçäo quando conhece-se a lingua nativa. A mentira pode
secretar informaçöes profundas. Relacionar os informantes com o status e o
papel dele na sociedade, também é uma técnica defendida por Evans-Pritchard.
EVANS-PRITCHARD, E.E.
"Alcance do Tema". In:
Antropologia Social. Lisboa, Ed. 70, 1972.
p. 12. - A
Antropologia Social tem um vaocabulário técnico muito limitado e vê-se obrigada
a recorrer à linguagem comum, que, como todos sabem, näo é muito exata. Os
termos SOCIEDADE, CULTURA, COSTUME, RELIGIAO, SANÇAO, ESTRUTURA, FUNÇAO,
POLITICO, DEMOCRATICO, nem sempre comportam o mesmo significado, quer para
diferentes pessoas, quer em diferentes contextos. Soluçöes?...
ANTROPOLOGIA,
DEFINIÇÖES???
p. 12/13 - Em
Inglaterra e, ainda que em menor grau, nos Estados Unidos, a expressäo
Antropologia Social é utilizada para desginar uma parte de uma matéria mais
vasta que é a Antropologia, isto é, o estudo do homem num certo número de
aspectos. O seu objeto está ligado às culturas e sociedades humanas.
p. 13. Na Europa
continental prevalece a definiçäo "o estudo completo do homem
(Antropologia Fisica ou estudo biologico do homem).
INGLATERRA -
ANTROPOLOGIA SOCIAL
FRANÇA - Etnologia ou
Sociologia
p. 13. Primeira
cátedra oficialmente designaçäo de Antropologia Social - Frazer 1908 em
Liverpool.
p. 13. Inglaterra:
Antropologia Social Antropologia Fisica
p. 14 Caracteriza o
que é Etnologia... estudo preliminar para as comparaçöes que fazm os
antropólogos sociais entre sociedades primitivas, porque é altamente
conveniente, e até mesmo necessário, principiar o trabalho comparativo com as
do mesmo nível cultural ... A Arqueologia Pré-Histórica...
p. 15. O objeto da
Antropologia Social é estudar o comportamento social, geralmente em formas
institucionalizadas, como a familia, sistemas de parentesco, organizaçäo
politica, procedimentos legais, ritos religiosos, e assim por diante, além das
relaçöes entre tais instituiçöes, estuda-se em sociedades contemporâneas ou
naquelas comunidades históricas sobre as quais existe uma informaçäo adequada
para a realizaçäo de tais investigaçöes.
p. 19. A Antropologia
Social é o estudo de todas as sociedades humanas e näo só das sociedades
primitivas, apesar de na prática e por conveniência se ocupar atualmente em
analisar preferentemente as instituiçöes dos povos mais simples. É evidente que
näo pode haver uma disciplina independente consagrada inteiramente ao estudo
destas sociedades. Quando um antropólogo se dedica à investigar um povo
primitivo, o que estuda é a linguagem, a religiäo, as leis, as instituiçöes
politicas, a economia politica.... depara-se com os mesmos problemas gerais que
o estudioso destas matérias nas grandes civilizaçöes do mundo. ... o
antropólogo sempre compara as sociedades.
Entäo, na época, para
Evans-Pritchard: A ANTROPOLOGIA SOCIAL, RAMO DOS ESTUDOS SOCIOLOGICOS QUE SE
DEDICA PRINCIPALMENTE AS SOCIEDADES PRIMITIVAS enquanto que SOCIOLOGIA - ESTUDO
DE DETERMINADOS PROBLEMAS EM SOCIEDADES CIVILIZADAS.
p. 16
"primitivo" - termo técnico
p. 17. Tarefa da
Antropologia Social - estudo sociedades primitivas? Por que? Razöes?
p. 17 O estudo
sociedades primitivas como estudo das instituiçöes enquanto partes dos sistemas
sociais. Sociedades primitivas aparecem como objeto privilegiado pois säo
estruturalmente simples e culturalmente homogêneas, podem ser diretamente
observadas como um todo, antes de tentar estudar sociedades civilizadas
complexas, onde isto näo é possível.
p. 17. Outra razäo,
elas estäo a transforma-se rapidamente e, portanto, torna-se necessário
investigá-las o mais depressa possível... p. 18. Estes sistemas sociais em vias
de desaparecer constituem variantes estruturais únicas, cuja análise nos ajuda
consideravelmente a compreender a natureza da sociedade humana, porque, num
estudo comparativo de instituiçöes, o número de sociedades com que se trabalha
é menos significativos que o seu grau de variaçäo.
p. 18 Outra razäo:
valor intrínseco: Estas sociedades säo interessantes em si mesmas, porque nos
oferecem uma descriçäo da forma de vida, dos valores e das crenças dos povos
que vivem privados daquilo que estamos habituados a considerar como os requisitos
mínimos do conforto e da civilizaçäo.
p. 18/19. Outros
grupos estudados pela Antropologia Social: comunidades rurais, vida urbana,
aldeias e sociedades históricas.
Questöes de METODO
p. 19. ANTROPOLOGIA
SOCIAL - estuda diretamente os povos primitivos vivendo entre eles durantes
meses ou anos. Ocupa-se da sociedade como um todo: estuda a ecologia, economia
politica, instituiçöes legais e politicas, a religiäo, a tecnologia, a
organizaçäo da familia e o parentesco, a ganadaria e a agricultura, a arte, etc...
como partes dos sistemas sociais gerais.
SOCIOLOGIA - estudo
baseado em documentos e estatísticas. Trabalho especializado, investiga
problemas isolados. Ligado a Filosofia social e ao planejamento social. Mas tb.
(p. 20) um corpo geral de conhecimentos teóricos sobre as sociedades humanas.
p. 20. OBJETO DA
ANTROPOLOGIA SOCIAL: relaçäo entre sociologia (corpo geral teorico) e a vida
social primitiva.
quer dizer... (p. 21)
A ANTROPOLOGIA SOCIAL REALIZA UM CONJUNTO DE ESTUDOS DIFERENTES NUMA SERIE DE
SOCIEDADES DISTRIBUIDAS POR TODO O MUNDO. (p. 23) Estuda o conjunto de relaçöes
sociais, relaçöes entre memebros de uma sociedade e entre grupos sociais,
enfatiza mais o estudo da sociedade que o estudo da cultura (aqui no sentido de
costume).
p. 23. A Antropologia
Social pode generalizar com mais facilidade que a Historia... pela análise
comparativa das estruturas sociais
p. 24 Crítica a
Morgan, Spencer, Durkheim, Tylor...
p. 25/26. O que
antropólogo social, ao contrário dos evolucionistas e funcionalistas anteriores
busca ao estudar uma sociedade primitiva? O que ele descreve é a realidade, o
comportamento básico, em que ambos os conceitos (sociedade e cultura) se
encontram incorporados... näo säo entidades separadas mas classes de abstraçöes
distintas..., na antropologia atual (trata-se da atualidade para
Evans-Pritchard) os estudos antropológicos especializam-se sobre instituiçöes
pensadas como elementos de uma estrutura social mais ampla e complexa.
p. 26 Mas o que é
estrutura social para Evans-Pritchard?
Cada sociedade tem
uma forma ou padräo caracteristico que nos permite considerá-la como um sistema
ou estrutura, no seio da qual os seus memebros desenvolvem as suas atividades
em concordância com ela. O uso do termo "estrutura" com este significado
supöe um certo grau de compatibilidade entre as partes, pelo menos suscetivel
de evitar contradiçöes abertas e conflitos. Significa também que tem uma
duraçäo maior que a generalidade das coisas passageiras da vida humana. As
pessoas que vivem numa sociedade podem näo se dar conta de que esta possui uma
estrutura, ou capta-la apenas de uma forma vaga.
p. 27 A TAREFA DO
ANTROPOLOGO SOCIAL É REVELAR A EXISTENCIA DE UMA ESTRUTURA. Uma estrutura
social total, isto é, a estrutura completa de uma sociedade determinada,
compöe-se de um certo número de estruturas ou sistemas subsidiários, e é por
isso que podemos falar de sistemas de parentesco, sistemas econômicos,
religiosos ou politicos...
Assim, quando falamos
das funçöes das instituiçöes, estamos a referir-nos à parte que lhes
corresponde na manutençäo da estrutura da estrutura social.
EVANS-PRITCHARD, E.E.
"Algumas reminiscências e reflexöes sobre o trabalho de campo". In: Bruxaria, oráculos e magia entre os Azande. Rio,
Zahar, 1978. Apêndice IV.
Paulo Oddi
UFRGS - IFCH
- PPGAS
ESTUDO ANTROPOLÓGICO DE
UM ESPAÇO URBANO
SINGULAR: CAIS DO PORTO
DE PORTO ALEGRE
(OU DA CIDADE
QUE TEM PORTO
ATÉ NO NOME)
ENTREVISTA No. 05
DADOS DE
IDENTIFICAÇÃO
BAIRRO:
SOBRENOME DO
ENTREVISTADO: Oddi
NOME
DO ENTREVISTADO: Paulo
NOME
CARACTERÍSTICO (se houver):
DATA
DA REALIZAÇÃO DA
ENTREVISTA: 21 / 07 / 98.
ENDEREÇO: Av. Mauá. / Cais Mauá.
FONE:
HORÁRIO REALIZAÇÃO
DA ENTREVISTA: 9 H 30 min
DURAÇÃO DA
ENTREVISTA: 1 h 30 min
ENTREVISTADOR:
Jaques
INDICAÇÃO:
......................................................................................................................
DESCRIÇÃO DO CONTEXTO:
Fui recebido no escritório do Dr. Paulo Oddi,
administrador do Cais Mauá / Cais do Porto de Porto Alegre no horário combinado
para a entrevista. O encontro foi acompanhado por uma funcionária
administrativa que desempenha funções de assessora de imprensa junto a este
órgão.
A entrevista foi
pautada pela praticidade e tecnicidade do Engenheiro Oddi que destacou na sua
fala, essencialmente, os aspectos administrativos do Caís, bem como os aspectos
de controle, normalização, segurança e contenção deste (e neste) espaço urbano.
Chamou a minha
atenção, uma pergunta formulada pelo entrevistado, no final da entrevista,
sobre a opção dos portalegrenses em estarem constantemente presentes no cais do
porto contemplando-o, curtindo o por do sol, etc. Ele indagava sobre porque não
contemplar o por do sol de qualquer outro lugar da cidade que não o porto.
Ficou claro o tom inquisitivo e, de certa forma, arrogante, na pergunta do
administrador sobre o nosso nível de conhecimento sobre aquele espaço urbano e
as suas relações com os cidadãos desta cidade. Utilizei os nossos conhecimentos
históricos da formação da própria cidade, resgatando aspectos da chagada dos
Casais Açorianos, relacionados com a história atual da cidade para respondera
esta indagação.
De um modo geral, a
entrevista foi bastante interessante. Ao final da entrevista, o administrador
se colocou a disposição para colaborar com o nosso projeto de pesquisa no que
fosse necessário e sugeriu que visitássemos a biblioteca do Cais do Porto onde
estão vários documentos históricos que remontam várias épocas da existência deste
importante espaço urbano.
TRANSCRIÇÃO DA FITA
Jaques
– O Sr. Trabalha para o DEPREC ?
Paulo
– Estou vinculado a secretaria de transportes, administro os portos e
hidrovias, portos interiores, porto de
Porto Alegre, de Pelotas, porto de Cachoeira e mais 700 quilômetros de
hidrovias navegáveis. Essa é a função principal da superintendência de portos e
hidrovias que é constituído de três diretorias básicas: uma de grande porte
interiores, uma diretoria de hidrovias e uma diretoria
financeira-administrativa, tudo isso coordenado por uma superintendente que
executa as atividades (como autarquia estadual).
Jaques
– Vejo nos muros do porto a inscrição DNOS. Ainda existe este departamento ?
Paulo - Foi extinto na era Color. Foi o que fez a
cortina da Mauá, é uma das obras do DNOS que mais chama a tenção, mas este
órgão foi instinto não tem mais.
Jaques
– Então a administração do porto está somente a nível estadual ?
Paulo
– A administração portuária é estadual, a superintendência é uma autarquia
estadual que administra sob concessão da união que concede ao estado o
gerenciamento dos portos e hidrovias. Tudo isso é patrimônio da união e o
estado criou uma autarquia para gerenciar esta concessão em nome da união.
Jaques
– Quanto a operacionalidade do cais de Porto Alegre ?
Paulo
– Antes da lei 8.630, a lei de modernização dos portos, de 1993, toda a
movimentação do cais do porto era feita pela própria autarquia, a partir daí,
então os serviços de operação no cais, movimentação horizontal de carga,
operação de carga e descarga, recebimento e entrega de carga nos armazéns, foi
sendo terceirizado gradativamente. Hoje todo movimento de carga é feito por
terceiros (serviço privado). Os serviços, o gerenciamento, o monitoramento,
disciplinamento ainda é feito pela autoridade portuária, pela administração do
porto, mas a execução dele é feita por operadores portuários privados. Isso vem
de 1993 para cá, gradativamente vai sendo mudado o modelo. Parte dos
investimentos, equipamentos, tudo é feito pelo privado no sentido de melhorar
e aperfeiçoar a operação.
Jaques
– Estes funcionários, pessoas que vejo carregando e descarregando os navios são
funcionários do porto ?
Paulo
– não são funcionários do porto, são funcionários de portuários privados. Nosso
pessoal trabalha somente na coordenação das atividades, no monitoramento e no
disciplinamento das atividades.
Jaques
– A parte da segurança ... ?
Paulo
– segurança, normalização, tarifas, horário, enfim tudo que envolva a
organização da operação como um todo é feita pela administração que executa os
serviços. Nas empresas portuárias privadas nós não interferimos neste processo,
isso é no Brasil inteiro, alguns portos são mais avançados, outros menos, mas todos
caminham para isso, e tudo começou em 1993 com a lei de modernização dos
portos. Está mudando radicalmente o perfil operacional dos portos de Rio
Grande, por exemplo, que já está com toda a sua operação feita por privados,
gradativamente estão se adaptando a nova legislação.
Jaques
– Então o quadro de pessoal não é muito grande hoje ?
Paulo
– É muito reduzido. É mais a parte administrativa e manutenção. Temos uma
equipe mínima de manutenção das instalações que é o patrimônio do porto, mas
reduziu bastante o número de funcionáros, eu diria drasticamente.
Jaques
– Aproximadamente, quantos funcionários?
Paulo
– Hoje a superintendência que envolve Porto Alegre, Pelotas, Cachoeira, Rio
Pardo e as hidrovias, entre pessoal de manutenção e pessoal administrativo são
uns 200, no máximo e tende a diminuir cada vez mais. Isso a superintendência de
portos e hidrovias, nada a ver com o porto de Rio Grande, porto de Rio Grande
separado, eu falo Pelotas, Porto Alegre, e hidrovias interiores, pessoal
carregado de fazer a manutenção da dragagem, sinalização, isto é, para garantir a segurança da navegação.
Jaques
– Sobre as mudanças que estão previstas dentro do projeto Porto dos Casais,
como o senhor vê estas mudanças?
Paulo
– Eu diria que o porto de Porto Alegre vai se transformar enormemente com o
advento do porto dos casais. A vinda da GM e da Ford vai trazer uma
transformação tão grande como foi na década
de 1970 com o complexo de soja que revolucionou o sistema portuário gaúcho,
tanto que Porto Alegre, como Rio Grande, isto na parte dos granéis da época,
(...) Hoje eu diria que o porto de Porto Alegre passa por uma explosão, uma
transformação de atividades dentro de um complexo das cargas, em geral
manufaturados (...). Eu diria, me atrevo a dizer que é a maior transformação que Porto Alegre vai enfrentar
nestes próximos anos a partir destes investimentos grandes maciços. Vai ser
fantástico ! Nós não conseguimos nem imaginar, é imaginável o volume de carga,
o volume de carga que pode representar para o porto, eu diria até que nos
próximos 20 anos o porto vai ser insuficiente para atender toda a demanda de
carga gerada, decorrente destes
investimentos nas cidades vizinhas do porto: GM, FORD, GODYEAR, PYRELE e outras inúmeras empresas que vão se
instalar aqui decorrente destes movimentos mais a transformação visual que o porto dos casais vai causar, também vai ser
um atrativo comercial de grande circulação e demanda de negócios que nós hoje
nem conseguimos imaginar.
quarta-feira, 28 de outubro de 2015
Anton Pavlovich Tchekhov
Tchekhov, Anton Pavlovich. A dama do cachorrinho : e
outros contos. São Paulo : Ed. 34, 2011.
367 p..
Teoria Antropológica
PPGAS/IFCH/UFRGS
PROVA 2
- Teoria Antropológica 1
Questão 1
Enquanto
Malinowski enfatiza a cultura como
conceito explicativo das sociedades primitivas, Radcliffe-Brown elege o
conceito de estrutura. A partir do sentido que estes conceitos
tem para cada um dos autores, procure estabelecer os pontos de continuidade e
ruptura entre eles.
MALI
Cultura = Herança
social (lingua, hábitos, idéias e crenças), herdados pelos indivíduos que
nascem em uma determinada cultura. Portanto Herança Social é um conceito chave
para a antropologia e é chamada nesse ramo da ciência por CULTURA.
A
CULTURA é uma unidade bem organizada que se divide em dois aspectos
fundamentais: I – Um conjunto de artefatos e II – Um sistema de costumes,
também possui outras subdivisões ou unidades.
Todos
os Elementos da Cultura dever estar funcionando, serem ativos e eficazes. O
caráter dinâmico dos elementos da cultura e suas relações sugere que a tarefa
mais importante da antropologia consiste no estudo da função de cultura.
AS
NECESSIDADES ORGÂNICAS DO HOMEM constituem os imperativos básicos que conduzem
ao desenvolvimento da cultura, na medida em que obriga a toda a comunidade a
levar a cabo certo número de atividades organizadas.
RADICLIFF-BROWN
A
CULTURA e a tradição Cultural se constituem em aspectos do processo da vida
social.
Em
R B o importante é observar este PROCESSO da vida social que é a sua unidade de
investigaçào.
O
PROCESSO consiste numa enorme multidão de ações e interações de seres humanos,
agindo como indivíduos em combinação.
O
Processo de MUDANÇA SOCIAL também é preocupação do autor.
A
Cultura se constituem em aspectos do processo da vida social.
R
B introduz a noção de SISTEMA SOCIAL.
Questão 7
Qual a contribuição de Marx para a
antropologia segundo Firth e Godelier, tendo como referência os textos da
sessão 14 ?
Tendo como ponto de partida a noção de mercadoria, Godelier
propõe pensar a contribuição de Marx para as investigações antropológicas.
Segundo o meu entendimento deste texto, o autor consegue trazer, de uma forma
resumida, alguns dos principais pressupostos de “El Capital”, a partir desta
primeira noção de mercadoria.
Para Godelier, a contribuição de Marx para a antropologia é
positiva e complementar para que os pesquisadores, de um modo geral, consigam perceber
a “essência” das relações econômicas e sociais. Ele afirma “la apariencia de
las relaciones económicas dissimula y contradice su esencia”. (Pg. 314)
Ao referir a significativa contribuição de Marx para a definição
da idéia de que o trabalho humano tem um duplo caráter representado na
mercadoria: um concreto e outro abstrato, Godelier destaca que Marx havia
realizado “um grande salto” em relação aos pensadores que o antecederam e que
problematizavam esta mesma questão (cita William Petty e Adam Smith) sem haver
percebido este caráter duplo do trabalho representado na mercadoria. Ele lembra
ainda que Marx consegui realizar o que a economia burguesa sequer havia tentado
realizar: colocar de forma clara as distinções da gênesis e da forma na noção
da categoria dinheiro.
Godelier cita Marx inserido no rol dos grandes gênios do
pensamento humano, ao lado de Freud e Aristóteles. De Freud ele argumenta que,
a exemplo de Marx, este pensador conseguiu realizar o movimento em direção a
“essência” da psique humana, ou seja, para trabalhar com as enfermidades
mentais descobre o inconsciente, fato
que iria revolucionar toda a construção de conhecimento desta área. Quanto a
Aristóteles, Godelier lembra uma passagem que o próprio Marx cita Aristóteles
como um pensador que teve uma importante contribuição na sua definição de
alguns elementos essenciais para a sua análise do capitalismo. A proposta de
Aristóteles em definir que existia uma relação de igualdade nas expressões de
valor das mercadorias, foi uma desta contribuições que levariam o próprio Marx
a definir o caráter dual da mercadoria (valor de uso e valor de troca). Só
faltou Godelier afirmar que Marx “relativizou” os pressupostos de Aristóteles
para definir os seus próprios pressupostos, de qualquer forma, para este autor,
Marx traz uma significativa (ou talvez decisiva) contribuição para a
antropologia no sentido de aprender a superar os limites da própria ciência
social, em um movimento rumo ao desvendamento das “essências” ou dos elementos
que extrapolam as superfícies cognitivas do pensamento humano.
Questão
6
Estabeleça pontos de contato e de
diferenciação no conceito de liminalidade conforme ele aparece no texto de Mary
Douglas e de Victor Turner
Em Mary Douglas temos uma preocupação do tipo higienizadora para
pensar a organização social. O corpo, com seus orifícios (entradas e saídas) é
tomado como “modelo” para se investigar as estruturas sociais, onde as
aberturas corporais representam, além de passagens, perigos e medos. “O Corpo é
uma estrutura complexa”. Precisamos “ver no corpo um símbolo da sociedade, e os
poderes e perigos creditados à estrutura social reproduzidos em miniatura no
corpo humano.” (pg. 142)
“A idéia de sociedade é uma imagem poderosa. Ela é potente no
seu próprio direito de controlar ou estimular homens à ação. Esta imagem tem
forma, limites externos, margens e estrutura interna. Seus contornos encerram
poder de recompensar a conformidade e repelir o ataque. Há energia em suas
margens e áreas desestruturadas. Pelos símbolos da sociedade qualquer
experiência humana de estruturas, margens e limites, está ao alcance da mão.”
Aqui “Os limiares simbolizam inícios de novos status” já em
Turner a “liminaridade frequentemente é comparada à morte, ao estar no útero, à
invisibilidade, à escuridão, à bissexualidade, às regiões selvagens e a um
eclipse do sol ou da lua” (pg. 117), ou seja, como seres liminares não possuem
status.
Para M. Douglas “qualquer cultura é uma série de estruturas
relacionadas que abrangem formas sociais, valores, cosmologia, o todo do
conhecimento e, através da qual toda a experiência é mediada. Em V. Turner
temos dois elementos constituindo o tecido social: a estrutura e a comunitas.
Na estrutura estão as relações sociais, o cotidiano, enquanto na communitas
temos um tipo de desordem, onde as regras são desfeitas e ocorre algumas
inversões de valores pré-estabelecidos. Sempre que uma communitas se estrutura
deixa de ser communitas e abre espaço para uma nova communitas. Neste caso, a
maneira que as pessoas utilizam para resolver os seus problemas é através da
dramatização (ou dramaticidade), ou seja, soluciona-se uma crise organizando ou
realizando um momento ritual.
Em V. Turner temos a noção de que “Os atributos de liminaridade,
ou de pessoas liminares são necessariamente ambíguos, uma vez que esta condição
e estas pessoas furtam-se ou escapam à rede de classificações que normalmente
determinam a localização de estados e posições num espaço cultural. As
entidades liminares não se situam aqui nem lá, estão no meio e entre as
posições atribuídas e ordenadas pela lei, pelos costumes, convenções e
cerimonial.
terça-feira, 27 de outubro de 2015
Dumont
LOUIS DUMONT
Sociólogo e
etnólogo francês, nascido em 1911. Doutor em Letras. Diretor de estudos à
L'EHESS.
Linha de Pesquisa:
Estudo comparativo do sistema de idéias e de valores característicos das
sociedades modernas.
O essencial dos
trabalhos de Louis Dumont tem por fulcro a sociedade indiana, e mais
particularmente, os problemas do parentesco, das castas, da religião e das
mudanças sociais.
A teoria da
hierarquia de Dumont nasce tanto do esforço de compreender o sistema de castas
indiano quanto compará-lo com o modelo de PESSOA da sociedade ocidental
moderna, a qual supõe culturalmente estruturada a partir do valor axial
INDIVÍDUO. A categoria “indivíduo” passa a ser posta em perspectiva a partir
deste estudo do sistema de castas hindu (H.H). Neste sistema, segundo Dumont, o
indivíduo (na acepção ocidental de sujeito moral, dotado dos atributos de
igualdade e livre autonomia da vontade)não tem um valor hierarquicamente
preeminente mas sim a totalidade social e cósmica em que os indivíduos
empíricos se inserem. Dumont conclui que subjaz ao sistema de castas hindu uma
lógica hierárquica em operação cuja face mais visível é o chamado holismo ou ideologia
da preeminência do todo sobre as partes e não uma lógica igualitária, cujo
modelo ideológico mais acabado coincide, a seu juízo, com o individualismo
ocidental moderno.
A hierarquia é a
operação lógica de juntar os diferentes, sendo lógica e ontológicamente
anterior aos modelos sociais concretos que a ilustram, estes comprometidos com
um plano descritivo remetido a uma ordem ideo-lógica (no sentido dumontiano de
uma lógica das idéias e não no sentido de falsa consciência, derivado da
tradição marxista).
Esta ontologia se
explicita numa espécie de lógica inconsciente de ordenação hierárquica da
relação entre o todo e as partes, para então funcionar como um modelo cuja
serventia é nortear as descrições e interpretações etnográficas.
Duarte aponta os dois
grandes núcleos polêmicos da reflexão de Dumont, a distinção
holismo/individualismo e a teoria da hierarquia.
Os três postulados:
1) Oposição entre
todo e parte: supõe uma relação básica entre pólo englobante e pólo englobado
da oposição.
2) Bidimensionalidade:
para haver hierarquia é preciso haver uma distinção mínima entre dois níveis, o
superior (unidade) e o inferior (distinção), sendo que os níveis só fazem
sentido no interior de uma totalidade.
3) Hierarquia de
níveis: cada totalidade só faz sentido no interior da vida social.
Contrariamente à
tradição aristotélica, em que os termos das oposições são dotados de igual
valor, a chamada oposição hierárquica prevê que os termos das oposições se
diferenciem justamente pelo valor, funcionando como pólos simbólicos
diferenciais no seio de uma totalidade determinada.
Exemplo: O mito
bíblico de Adão e Eva. Eva nasce de uma parte de Adão, fundando-se a oposição
entre masculino e feminino como hierárquica. Nesta totalidade a oposição
Adão/masculino X Eva/feminino (nível inferior-distinção) é englobada pelo nível
superior em que Adão/masculino se identifica com o conjunto da humanidade, ou
seja é o valor que representa a totalidade.
A preeminência do
todo sobre as partes, no âmbito desta dinâmica de níveis é complementada pelas
temáticas do valor e da situação. O valor representa o elemento simbólico que
funda a oposição hierárquica, em nome do qual se realiza o englobamento das
partes. Este tem seu modelo abstrato na preeminência hierárquica da totalidade
como valor no sistema de castas indiano, o qual desemboca na supracitada
ideologia holista. Não só o todo pode ser um valor mas também o Indivíduo, a
Família, o Trabalho, a Nação, a Revolução, etc. dependendo da contextualização
etnográfica em consideração.
Situação significa
que uma totalidade, assim como os próprios valores que a instauram, é acionada
em contextos determinados e, nesse sentido, que o próprio recorte do
antropólogo não escapa a esta propriedade de situação. Segundo Duarte, situação
se opõe à substância, servindo para dessubstantivar as totalidades vividas como
naturais ou substantivas pelos sujeitos sociais através da remessa analítica a
uma origem simbólico-valorativa. Desse modo, a “propriedade de situação”
implica que os objetos sociológicos eleitos para a análise (classes, grupos,
família, nações, e assim por diante) devam sua concretude mais a efeitos de
substantividade ensejados pelas atualizações de sistema simbólico-valorativos
que a algum tipo de realidade ontológica natural.
Para Dumont o
fenômeno hierárquico é universal. Mesmo em sociedades em que predomina a
configuração individualista de valores, o princípio hierárquico de ordenação é
predominante, ainda que inconsciente. Neste último caso, duas características
são ressaltadas por Dumont: uma, que a sociedade ocidental moderna é a única
que dissocia FATOS e VALORES, outra, que nesta sociedade se constata um
paradoxo: no plano de sua ideo-logia, a PARTE (indivíduo erigido em valor
axial) engloba o TODO (a sociedade como totalidade) fundando o que Dumont
denomina de ideologia anti-sociológica.
Louis Dumont
interpreta a sociedade indiana como fundamentalmente tributária da ideologia. É
na referência aos dados ideológicos, à religião, ao sistema de crenças, que se
organiza a vida social e se constitui os grupos. Neste sentido, Louis Dumont
opõem-se à explicação marxista pelo econômico. A sua obra la Civilisation indienne et nous (Paris, Colin, 1964) apresenta-se assim como um ensaio de refutação
da teoria de Marx que ele considera inadequada para entender a sociedade
indiana. A casta é aí definida não numa perspectiva econômica, mas enquanto
sistema de idéias e de valores.
Retomando os três
princípios de Célestin Bouglé que regem o sistema das castas - separação,
hierarquia e interdependência dos grupos sociais -, Dumont redu-los a um
princípio organizador geral: a oposição religiosa do puro e do impuro.
Semelhante discriminação, fundadora, no plano social, da desigualdade dos
grupos, não constitui estes num estilo antagônico que define para numerosos
sociólogos a natureza das sociedades industriais, mas no de uma
complementaridade funcional. A sociedade indiana é assim feita de duas metades
desiguais mas complementares. Com efeito, os intocáveis não estão situados fora
da sociedade religiosa na medida em que a execução das tarefas impuras por eles
levada a cabo é necessária à manutenção da pureza nas outras castas.
Ilustrando o método
de Lévi-Strauss aplicado ao estudo dos sistemas de parentesco, Dumont
estabelece igualmente o primeiro sistema de explicação do parentesco na Índia
Meridional cuja coerência quase matemática ele revela.
Esta abordagem
estruturalista estende-se à captação da sociedade indiana no seu todo: o puro e
o impuro dividem-na em castas, quer dizer, num grande número de grupos
permanentes que são ao mesmo tempo especializados, hierarquizados e separados
uns relativamente aos outros (em matéria de casamento, de alimentação, de
contato). Esta oposição fundamental segmenta-se indefinidamente constituindo
subcastas, mas a realidade conceptual do sistema reside na oposição em si mesma
e não nos grupos que ela opõe. Sendo assim, não se pode afirmar estar diante de
seres ou de essências, mas, em verdade, de sistema de relações.
CASTA: O termo
casta, de origem ibérica, é empregue pelos espanhóis no sentido de raça, pelos
portugueses no sentido de tribo, e designa "algo não misturado".
Littré mantém a mesma confusão definindo as castas indianas como "cada uma
das tribos nas quais a sociedade da Índia esta repartida". () A realidade
é mais complexa. Na Índia, a palavra casta designa varias coisas:
- as quatro
categorias (varnas) sobre as quais assenta a hierarquia tradicional: sacerdotes
(brâmanes), guerreiros (chátrias), mercadores e cultivadores (vaisias),
seroctores (sudras; artifices-operarios);
- os conjuntos de
indivíduos que se dedicam a uma mesma ocupação tradicional e são muitas vezes
nomeados pelo mesmo patronímico;
- os grupos
profissionais (muitos deles são modernos) que se consideram eles próprios como
castas;
- Enfim, os jati, castas no sentido próprio, também
chamados subcastas, que formam grupos hereditários, endógamos, localizados,
hierarquizados e se consagram a uma atividade definida. Bouglé foi um dos
primeiros a ter o mérito de caracterizar a noção de casta: "repulsão, hierarquia,
especialização hereditária, o espírito de casta reúne estas três tendências.
Convém retê-las todas se quisermos obter uma definição completa do regime das
castas. Diremos que uma sociedade se acha submetida a tal regime se ela estiver
dividida num grande número de grupos hereditariamente especializados,
hierarquicamente sobrepostos e mutuamente opostos, se ela não tolerar, em
principio, nem filhos da fortuna, nem mestiços, nem trânsfugas da profissão, se
ela se opuser ao mesmo tempo às misturas de sangue, às conquistas de posição e
às mudanças de ofícios".
Aplicam-se aos jati dois princípios de hierarquia. Por
um lado, eles ordenam-se segundo o seu grau de pureza ritual. A oposição 'puro'
(castas superiores), 'impuro' (castas inferiores) é efetivamente, segundo a
expressão de Dumont, "o principio ideológico do sistema"; a
hierarquia é portanto de natureza religiosa, não esquecendo, porém, que as
castas impuras são, além disso, reputadas 'bárbaras' e congregam pessoas sem
qualidade ("malnascidas"), sendo as castas superiores, ao invés, as
que agrupam indivíduos 'civilizados' e 'bem-nascidos'.
Por outro lado, os jati são classificados, em harmonia com
o seu estatuto político-econômico, segundo a ordem decrescente dos estatutos;
Leach distingue os grandes proprietários fundiários (inviasdar), os rendeiros
livres, os rendeiros adstritos à terra, os camponeses sem terra. Os camponeses
sem terra e os rendeiros adstritos recrutam-se sobretudo entre os intocáveis,
ao passo que os ricos proprietários pertencem às castas puras. Existe por
conseguinte uma certa correspondência entre os dois princípios de
estratificação.
Leach mostrou
igualmente que a distribuição das castas podia apreender-se através de um
esquema binário, principio de inclusäo-exclusäo (não é possível pertencer senão
a uma única casta); principio de superioridade (oposição dos superiores, ou
"duas vezes nascidos", e dos inferiores); principio de pureza
(oposição sacerdotes-laicos); principio de especialização funcional (oposição
principe-mercador)... A desigualdade inata e definitiva das castas, a aceitação
inevitável da vodaçäo de casta (britti),
a submissão ao destino (karma), fazem
deste sistema o modelo da pura hierarquia.
(AKOUN,A. Dic. Antropologia.
Lisboa, Verbo).
DUMONT,
Louis. O Individualismo
A sociedade ocidental moderna é a única que
dissocia FATOS E VALORES
nesta sociedade se constata um paradoxo: no
plano de sua ideo-logia a parte (o indivíduo erigido em valor axial) engloba o
todo (a sociedade como totalidade) fundando o que Dumont denomina de Ideologia
anti-sociológica.
TEORIA DA HIERARQUIA é um fenômeno universal
Dumont - influência na Antropologia
Brasileira: Da Matta, Gilberto Velho, Duarte
Estudo do sistema de castas hindu -
Indivíduo - não tem valor hierarquicamente preeminente mas sim a totalidade
social e cósmica em que os indivíduos empíricos se inserem. Subjaz uma lógica
hierárquica em operação.
Holismo - ideologia da preeminência do todo
sobre as partes
Modelo da pessoa na sociedade ocidental -
Indivíduo - sujeito moral do todo de atributos de igualdade e livre autonomia
da vontade - lógica igualitária - ideologia da sociedade moderna
DUMONT, Louis (1911)
Doutor em letras.
Diretor de estudos à EHESS
Estudo comparativo
do sistema de idéias e de valores característicos das sociedades modernas.
Sociólogo e
etnólogo francês, nascido em 1911. O essencial dos trabalhos de Louis Dumont
tem por fulcro a sociedade indiana e, mais particularmente, os problemas do
parentesco, das castas, da religião e das mudanças sociais.
Luis Dumont
interpreta a sociedade indiana como fundamentalmente tributária da ideologia. É
na referência aos dados ideológicos, à religião aos sistema de crenças, que se
organiza a vida social e se constituem os grupos. Neste sentido, Louis Dumont opõe
à explicação marxista pelo econômico. A sua obra la civilisation indienne et nous: esquisse de sociologi comparée
(Paris, Colin, 1964) apresenta-se assim como um ensaio de refutação da
teoria de Marx que ele considera inadequada para entender a sociedade indiana.
A casta é aí definida não numa perspectiva econômica, mas enquanto sistema de
idéias e de valores.
Retomando os três
princípios de Célestin Bouglé que regem o sistema das castas - separação,
hierarquia e interdependência dos grupos sociais -, Dumont redu-los a um
princípio organizador geral: a oposição religiosa do puro e do impuro.
Semelhante discriminação, fundadora, no plano social, da desigualdade dos
grupos, não constitui estes num estilo antagônico como essoutro que define para
numerosos sociólogos a natureza das sociedades industriais, mas no de uma
complementaridade funcional. A sociedade indiana é assim feita de "duas
metades desiguais mas complementares". Com efeito, os intocáveis (na
Índia, fora de casta, pária; o fato de o tocar constitui mácula) não estão
situados fora da sociedade religiosa na medida em que a execução das tarefas
impuras Po eles levada a cabo é necessária à manutenção da pureza nas outras
castas.
Ilustrando o método
de Lévi-Strauss aplicado ao estudo dos sistemas de parentesco, Dumont
restabelece igualmente o primeiro sistema de explicação do parentesco na Índia
Meridional cuja coerência quase matemática ele revela.
Esta abordagem
estruturalista estende-se à captação da sociedade indiana no seu todo: o puro e
o impuro dividem-na em castas, quer dizer, num grande número de grupos
permanentes que são ao mesmo passo especializados, hierarquizados e separados
uns relativamente aos outros (em matéria de casamento, de alimentação, de
contato...). Esta oposição fundamental segmenta-se indefinidamente constituindo
subcastas, mas a realidade conceptual do sistema reside na oposição em si mesma
e não nos grupos que ela opõe. Sendo assim, não se pode afirmar estar diante de
seres ou de essências, mas, em verdade, de sistemas de relações.
CASTA
O temo casta, de
origem ibérica, é empregue pelos espanhóis no sentido de raça, pelos
portugueses no sentido de tribo, e designa "algo não misturado".
Littré mantém a mesma confusão definindo as castas indianas como "cada uma
das tribos nas quais a sociedade da Índia esta repartida". () A realidade
é mais complexa. Na Índia, a palavra casta designa varias coisas:
- as quatro
categorias (varnas) sobre as quais assenta a hierarquia tradicional: sacerdotes
(brâmanes), guerreiros (chátrias), mercadores e cultivadores (vaisias),
seroctores (sudras; artifices-operarios);
- os conjuntos de
indivíduos que se dedicam a uma mesma ocupação tradicional e são muitas vezes
nomeados pelo mesmo patronímico;
- os grupos
profissionais (muitos deles são modernos) que se consideram eles próprios como
castas;
- Enfim, os jati, castas no sentido próprio, também
chamados subcastas, que formam grupos hereditários, endógamos, localizados,
hierarquizados e se consagram a uma atividade definida. Bouglé foi um dos
primeiros a ter o mérito de caracterizar a noção de casta: "repulsão,
hierarquia, especialização hereditária, o espirito de casta reúne estas três
tendências. Convém retê-las todas se quisermos obter uma definição completa do
regiem das castas. Diremos que uma sociedade se acha submetida a tal regime se
ela estiver dividida num grande número de grupos hereditariamente
especializados, hierarquicamente sobrepostos e mutuamente opostos, se ela não
tolerar, em principio, nem filhos da fortuna, nem mestiços, nem trânsfugas da
profissão, se ela se opuser ao mesmo tempo às misturas de sangue, às conquistas
de posição e às mudanças de ofícios".
Aplicam-se aos jati dois princípios de hierarquia. Por
um lado, eles ordenam-se segundo o seu grau de pureza ritual. A oposição 'puro'
(castas superiores), 'impuro' (castas inferiores) é efetivamente, segundo a
expressão de Dumont, "o principio ideológico do sistema"; a
hierarquia é portanto de natureza religiosa, não esquecendo, porém, que as
castas impuras são, além disso, reputadas 'bárbaras' e congregam pessoas sem
qualidade ("malnascidas"), sendo as castas superiores, ao invés, as
que agrupam indivíduos 'civilizados' e 'bem-nascidos'.
Por outro lado, os jati são classificados, em harmonia com
o seu estatuo politico-econômico, segundo a ordem decrescendo dos estatutos;
Leach distingue os grandes proprietários fundiários (inviasdar), os rendeiros
livres, os rendeiros adstritos à terra, os camponeses sem terra. Os camponeses
sem terá e os rendeiros adstritos recrutam-se sobretudo entre os intocáveis, ao
passo que os ricos proprietários pertencem às castas puras. Existe por
conseguinte uma certa correspondência entre os dois princípios de
estratificação.
Leach mostrou
igualmente que a distribuição das castas podia apreender-se através de um
esquema binário, principio de inclusäo-exclusäo (não é possível pertencer senão
a uma única casta); principio de superioridade (oposição dos superiores, ou
"duas vezes nascidos", e dos inferiores); principio de pureza (oposição
sacerdotes-laicos); principio de especialização funcional (oposição
principe-mercador)... A desigualdade inata e definitiva das castas, a aceitação
inevitável da vodaçäo de casta (britti),
a submissão ao destino (karma), fazem
deste sistema o modelo da pura hierarquia.
DA INDIA A AFRICA
Reencontramos o
sistema das castas, embora com uma sistematização menos aprofundada, em certas
populações da África Negra. Assim, o toucouleur do Senegal opõe os rimbe ou homens livres, que incluem os gorobbe (aristocracia religiosa), os jaawambe (cortesão, conselheiros,
comerciantes), os sebbe
(agricultores, criadores de gado), os subalbe
(pescadores), aos nyeenybe (ou
artífices, tecelões, sapateiros, ferreiros, ourives, trabalhadores da madeira)
e griots (cantadores, músicos, trovadores)
e aos jyaabe que agrupam os soottiibe libertos e os halfaabe ou dependentes (escravos,
servidores).
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