O que diria Max Weber sobre o conflito geo-político atual entre EUA e Venezuela?
Fomos convidados para contribuir com o debate atual, no que concerne ao principal assunto do plano da política internacional neste início de 2026.
A luz de Max Weber, podemos afirmar que a linha compreensiva weberiana não analisaria o conflito atual entre Estados Unidos e Venezuela em termos de uma pretensa bipolaridade. Tão pouco apelaria para o plano moral com construções tipo "certo" ou "errado", mas sim através dos seus conceitos de poder, dominação (legítima e ilegítima), racionalização e o papel do Estado moderno nas relações internacionais.
Ao nosso crivo, uma avaliação weberiana provavelmente focaria em analisar, por exemplo, o contexto de embate de um Estado Moderno face ao Estado Moderno oponente e o uso do Monopólio da Violência legítima.
Neste sentido, Weber definiria cada país (EUA e Venezuela) como um Estado autônomo e independente, na medida em que cada um pode reivindicar (com mais ou menos sucesso) o "monopólio do uso legítimo da violência física" (WEBER, 1909).
Podemos avaliar ainda que o conflito externo, ou a ameaça de uso da força por parte dos EUA contra a Venezuela, seria visto como uma interação entre entidades soberanas que buscam manter ou expandir sua esfera de influência e poder, já que as relações entre Estados implicam essencialmente na paz, conquanto a guerra pode vir a ser instrumento de construção da paz.
Maduro fez dancinha pedindo paz e publicou na internet, a fim de ganhar tempo diante da ofensiva militar na via marítima. Donald Trump também faz política on-line, mas foi mais longe do que seu oponente. Implantou espião da CIA para monitorar Maduro e utilizou as suas agencias federais, especialmente a DEA (Drug Enforcement Administration) para realizar uma mega operação militar que tinha como objetivo combater o narcotráfico (alegação oficial).
A fim de aprofundar um pouco mais essa prosa, lançamos mão das formas de Dominação e Legitimidade em Max Weber. Desta feita, poderíamos dizer que Weber, muito provavelmente, faria uma leitura do regime venezuelano (historicamente ligado a figuras como Simon Bolivar e Hugo Chávez) através do conceito de dominação carismática, onde a autoridade deriva das qualidades pessoais e da devoção dos seguidores ao líder. Com o tempo, essa dominação tende a passar por um processo de "rotinização do carisma" para se tornar mais burocrática ou tradicional e garantir sua estabilidade.
Noutra banda, Weber poderia avaliar que a ação dos EUA seria vista como parte de uma estrutura de poder global "desencantada" (desencantamento do mundo). Aqui temos uma administração profissional baseada primariamente na dominação racional-legal, operando sob leis e regras formais (embora, no contexto internacional, deveríamos abordar aspectos do direito internacional e a busca por interesses nacionais, face aos que também operam sobre um sistema legal global único - ONU. Porém, não faremos dados os limites deste singelo texto).
O Papel da Burocracia em Weber não pode ficar fora desta toada. O professor alemão veria as máquinas burocráticas de ambos os Estados (militares, diplomáticas, de inteligência) operando com base na racionalidade instrumental — calculando os meios mais eficientes para atingir os fins desejados (interesses econômicos, segurança nacional, influência ideológica).
Você que acompanha o nosso trabalho dentro do Curso de Economia Cultural já sabe que Weber era um economista (além de jurista), portanto ele olharia com atenção os aspectos que concernem aos interesses Econômicos e Racionalização Capitalista. Neste sentido, o conflito também seria analisado sob a ótica dos interesses capitalistas e do processo de racionalização. O controle dos recursos petrolíferos da Venezuela e o impacto na economia global seriam fatores-chave na determinação das ações dos EUA. A política externa americana pode ser vista como uma extensão da lógica capitalista de busca por eficiência e lucro, necessitando de um ambiente global estável (ou controlável) para funcionar.
Em suma, Weber encararia o conflito como uma luta de poder em um sistema internacional assimétrico, onde os EUA exercem seu "imperialismo" ou influência militar, cultural, política e econômica para tentar manter sua hegemonia global. A questão da soberania nacional da Venezuela seria constantemente questionada e relativizada pela dimensão Norte-Sul das relações internacionais, mostrando que o poder militar do tipo "avassalador" de um grande Estado também é utilizado no sentido de coagir os oponentes (menores em termos de poder bélico).
Nesta breve análise, tentamos demonstrar que, através do viés da ciência econômica combinada com a ciência jurídica, a avaliação de Weber seria neutra em termos de valores morais, focando na dinâmica do poder, na racionalidade instrumental das burocracias estatais e nas diferentes formas de dominação que caracterizam a política global.
Concluímos com um grande ensinamento do velho Weber, no Estado moderno é a burocracia que governa, uma vez que a dominação é exercida pela administração/burocracia e pelo uso legítimo da violência. Sem esquecer de que a relação burocracia e democracia é, segundo o nosso ponto de vista, chave na obra de Max Weber.
Texto protegido pela legislação vigente em termos de direitos autorais. De autoria do professor Jacomini.
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