15 de Março de 1887 I Mais dia, menos dia, demito-me deste lugar. Um historiador de quinzena, que passa os dias no fundo de um gabinete escuro e solitário, que não vai às touradas, às câmaras, a rua do Ouvidor, um historiador assim é um puro contador de histórias. E repare o leitor como a língua brasileira é engenhosa. Um contador de histórias é justamente o contrário de historiador, não sendo um historiador, afinal de contas, mais do que um contador de histórias. Por que essa diferença? Simples, leitor, nada mais simples. O historiador foi inventado por ti, homem culto, letrado, humanista. O contador de histórias foi inventado pelo povo, que nunca leu Tito Lívio e entende que contar o que se passou é só fantasiar. O certo é que se eu quiser dar uma descrição verídica da tourada de domingo passado, não poderei, porque não a vi. Não sei se já disse alguma vez que prefiro comer o boi a ve-lo na praça. Não sou homem de touradas; e se é preciso dizer tudo, detesto-as. Um amigo costuma dizer-me: Mas já as viste? Nunca! E julgas do que nunca viste? Respondo a esse amigo, lógico mas inadvertido, que eu não preciso ver a guerra para detesta-la, que nunca fui ao xilindró, e todavia não o estimo. Há coisas que se pré-julgam e as touradas estão nesse caso. E querem saber por que detesto as touradas? Pensam que é por causa do homem? Iche! É por causa do boi, unicamente do boi. Eu sou socio (sentimentalmente falando) de todas as sociedades protetoras dos animais. O primeiro homem que se lembrou de criar uma sociedade protetora dos animais lavrou um grande tento em favor da humanidade. Mostrou que este galo sem penas, de Platão, pode comer os outros galos seus colegas, mas não os quer afligir nem mortificar. Não digo que façamos nesta corte uma sociedade protetora dos animais, seria perder tempo. Em primeiro lugar, porque as ações não dariam dividendo e ações que não dão dividendo … Em segundo lugar, haveria logo contra a sociedade uma confederação de carroceiros e brigadores de galos. Em ultimo lugar, era ridiculo. Pobre iniciador! já estou a ver a cara larga e amarela com que havia de ficar, quando visse o efeito da proposta. Pobre iniciador! Interessar-se por um burro! Naturalmente são primos? Não! É uma maneira de chamar a atenção sobre si. Há de ver que quer ser vereador da camara: está se fazendo conhecido. Um charlatão. Pobre iniciador! II Segue o texto de Machado de Assis. Transcrição em breve nesse canal.
15 de Março de 1887
I
Mais dia, menos dia, demito-me deste lugar. Um historiador de quinzena, que passa os dias no fundo de um gabinete escuro e solitário, que não vai às touradas, às câmaras, a rua do Ouvidor, um historiador assim é um puro contador de histórias.
E repare o leitor como a língua brasileira é engenhosa. Um contador de histórias é justamente o contrário de historiador, não sendo um historiador, afinal de contas, mais do que um contador de histórias. Por que essa diferença? Simples, leitor, nada mais simples. O historiador foi inventado por ti, homem culto, letrado, humanista. O contador de histórias foi inventado pelo povo, que nunca leu Tito Lívio e entende que contar o que se passou é só fantasiar.
O certo é que se eu quiser dar uma descrição verídica da tourada de domingo passado, não poderei, porque não a vi.
Não sei se já disse alguma vez que prefiro comer o boi a ve-lo na praça.
Não sou homem de touradas; e se é preciso dizer tudo, detesto-as. Um amigo costuma dizer-me:
Mas já as viste?
Nunca!
E julgas do que nunca viste?
Respondo a esse amigo, lógico mas inadvertido, que eu não preciso ver a guerra para detesta-la, que nunca fui ao xilindró, e todavia não o estimo. Há coisas que se pré-julgam e as touradas estão nesse caso.
E querem saber por que detesto as touradas? Pensam que é por causa do homem? Iche! É por causa do boi, unicamente do boi. Eu sou socio (sentimentalmente falando) de todas as sociedades protetoras dos animais. O primeiro homem que se lembrou de criar uma sociedade protetora dos animais lavrou um grande tento em favor da humanidade. Mostrou que este galo sem penas, de Platão, pode comer os outros galos seus colegas, mas não os quer afligir nem mortificar.
Não digo que façamos nesta corte uma sociedade protetora dos animais, seria perder tempo. Em primeiro lugar, porque as ações não dariam dividendo e ações que não dão dividendo … Em segundo lugar, haveria logo contra a sociedade uma confederação de carroceiros e brigadores de galos. Em ultimo lugar, era ridiculo. Pobre iniciador! já estou a ver a cara larga e amarela com que havia de ficar, quando visse o efeito da proposta.
Pobre iniciador! Interessar-se por um burro! Naturalmente são primos? Não! É uma maneira de chamar a atenção sobre si. Há de ver que quer ser vereador da camara: está se fazendo conhecido. Um charlatão.
Pobre iniciador!
II
Segue o texto de Machado de Assis.
Transcrição em breve nesse canal.
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