A tese de doutorado de Max Weber
A história e o direito são irmãs, disse, certa feita, um magistrado que lecionava na Universidade Metodista. Ele acrescentou ainda que os acadêmicos que vislumbravam a carreira da magistratura deveriam estudar história. Algumas dicas pontuais valem mais do que uma aula inteira. Eu sempre curti história, tanto que historiei: "Os Primórdios da História da Santa Isabel". Weber, idem.
Max Weber era um intelectual dedicado ao direito, mas também curtia história. Mas qual ramo da história? Hoje sabemos que ele enxergou a história econômica como elo do direito e decidiu investir o seu tempo em uma pesquisa sobre a história das companhias comerciais na Idade Média. Ele investigava as conexões entre o direito e a economia na época em que realizou o seu doutorado.
A sua pesquisa demonstrava que a história das companhias comerciais na idade média estava intrinsecamente ligada ao renascimento comercial e urbano ocorrido na Baixa Idade Média (séculos XI a XIII), quando a economia europeia superou o modelo de subsistência feudal e retomou as trocas de longa distância. Ele descobriu que estas companhias evoluíram de associações familiares simples para complexas sociedades de capital, impulsionando o surgimento do capitalismo moderno.
Weber investigou as origens e a evolução das "Companhias" Familiares (Séc. XI-XII) e percebeu que, Inicialmente, as companhias surgiram como parcerias entre membros de uma família ou mercadores da mesma cidade, com o objetivo de compartilhar riscos e custos de viagens perigosas. A commenda italiana era uma forma precoce, onde um investidor financiava o mercador que viajava. Com a ampliação da demanda e o progresso das cidades, o renascimento comercial no século XI permitiu que artesãos e mercadores se organizassem. O renascimento comercial (séculos XI-XIII) foi um processo que atingiu a sociedade europeia em vários níveis, marcando o fim do modelo feudal de produção.
Antes de buscar os aspectos da religião, Weber pesquisava a economia na relação com o direito. Devemos lembrar que atualmente existe um ramo do direito que é chamado de direito empresarial. As ciências econômicas possuem uma relação forte com as ciências jurídicas e as investigações científicas da área extrapolam o plano normativo. Voltando ao doutorado de Weber, é possível perceber que ele vai nos primórdios da economia para entender, por exemplo, as feiras medievais.
As companhias comerciais utilizavam grandes eventos, como as feiras de Champagne, para vender tecidos, peles, sedas e especiarias trazidas do Oriente (Bizâncio). Ele busca entender tamém o que são as associações de Ofício, pois além das companhias mercantis, surgiram as corporações de ofício (guildas), que defendiam interesses de artesãos, organizavam oficinas (aprendiz, oficial, mestre) e exerciam poder jurisdicional interno.
As companhias funcionavam através da cooperação, muitas vezes com forte influência religiosa e inspiradas na estrutura familiar. A união das oficinas de uma mesma categoria formava a corporação, que tinha um padroeiro (ou patrono). Ao nosso ver, está aqui a virada de chave para Weber começar a encarar os aspectos culturais com mais atenção na sua pesquisa. O fenômeno religioso na relação com a economia passaria a ser uma constante na investigação científica weberiana. Mas Weber era um economista, além de jurista, portanto pesquisava também os instrumentos financeiros deste período histórico. Neste sentido, conclui que, com o crescimento da economia, surgiram novas técnicas comerciais como letras de câmbio, seguros marítimos e o uso de dinheiro/cambistas, entre outros.
Ademais, sob o ponto de vista da geo-política, Weber estuda também o Domínio Italiano (Cidades-Estado Italianas) que, a partir do século X, dominaram o comércio mediterrâneo, negociando especiarias, escravos e artigos de luxo com o mundo árabe. Merecem destaque Veneza e Jenova. Enquanto os italianos focavam em produtos de alto valor, o norte da Europa desenvolveu comércio de bens de consumo, como a lã inglesa enviada para a Bélgica (Flandres).
No final da Idade Média (século XV), as feiras declinaram devido ao aumento da disponibilidade de mercadorias e mudanças no comércio, mas as técnicas desenvolvidas pelas companhias, como a contabilidade de partidas dobradas e os bancos, pavimentaram o caminho para a era mercantilista e as grandes navegações.
No período em que se dedicava para o seu doutorado, Weber não avança mais para além desta parte da história: as grandes navegações. Mas ele encontra esta conexão entre a economia e a religião que vai marcar toda a sua trajetória intelectual. Poderíamos dizer que desde a descoberta desta conexão entre economia e religião, nasce a sua opção por seguir investigando e pesquisando por um campo do conhecimento científico que denominamos de “Economia Cultural” (em detrimento de uma economia política).

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