Era uma vez uma Old School
Ouvi uma estória da boca de determinado narrador.
Passo a transcrever, conforme o edito:
Ah Bibliotecah
Havia um setor da biblioteca que era pouco acessado. Luz rara e frequentado esporadicamente pelos pares acadêmicos. Estava a me dedicar para o curso de letras jurídicas. Assoberbado de novidades normativas, me afastei um pouco da literatura. Certa feita, não resisti. Cheguei antes do horário regulamentar e decidi “arriscar tudo". Às favas com os códigos comentados, estou farto de artigo de lei com seus artigos, incisos, alíneas e que tais.
Caminhei devagar, como quem pisa em ovos, explorando o silêncio da biblioteca. Aquele setor era praticamente abandonado pelos frequentadores do lugar. Sentia um misto de saudade, medo e satisfação. Não sabia o que ia encontrar, mas existia uma força magnética naquele lugar especial. Deixei a minha companheira de leitura, sozinha, no salão principal, lendo os códigos (atualmente excelente advogada) e fui ao encontro do encanto vestido de arte literária.
Final de tarde, cheio de poente, burburinho na cidade, transito de veículos fluindo tensamente. A biblioteca seguia o seu ritmo, como se fosse um mundo a parte do turbilhão urbano. Prédio de destaque na sua arquitetura externa. No seu interior, faltava desumificador de ambiente. Abre-se a janela e segue o cheiro de mofo leve, poeira, temperado com certa bibliosmia. Enfim, local singular, lúgubre e encantador. Verdadeiro desafio, pois aquele movimento era análogo a uma transgressão disciplinar. Parecia que alguém dizia muito leve no meu ouvido: o que você está fazendo ai? Volta para as letras jurídicas (imediatamente). Fiz de conta que não estava ouvindo nada. Vá te reto, mandamento absurdo, castrador e limitado. Eu sou dono do meu destino e quero avançar (ser feliz).
Movimento lento e decidido. Cada passo era como se fosse uma vida. Nem tanto, apenas uma nova janela de ar (denso?). Mas era bom, desafiador e encantador, pois eu não sabia o que iria encontrar. Se estava sentado ou de pé. Se era fêmea ou macho (transgenero). Se vestia calça jeans e camiseta ou traje elegante (terno completo). Espécie de penumbra (estantes e livros). Traços pouco definidos em meio à bruma. Não fui até ao fundo, pois era ainda mais escuro, tons olfativos mais fortes e os traços nas cores ocres mais desenvolvidos.
A cena não anunciada era mágica: doce e meiga. Ele estava ali como se fosse dono do lugar: Sorriso largo e ar contemplativo que comunicava sem palavras. Cálida presença de um amigo que não via há séculos. Não sei se ele disse, também não sei se ouvi ou se li a frase: que bom te ver aqui. Relaxa, você parece tenso, emendou. Na sequência surge a proposta: Apanha um livro na estante. Senta! As cadeiras estão disponíveis. Não vou atrapalhar a tua leitura. Seja bem vindo! Ao nosso clube do livro e da literatura. Fiquei sem palavras. Estava feliz. Agradeci a acolhida apenas com um sorriso e arremedo de gesto meigo (sem palavras).
Sentei. Acomodei a cadeira. Fiquei em silêncio. Agradeci a Deus pela oportunidade. Abri o livro e li:
Poeminho do Contra
"Todos esses que aí estão
Atravancando meu caminho,
Eles passarão...
Eu passarinho!"
Dia inesquecível. Após longo instante. Em silêncio voltei para o salão principal. A colega que ficara entre as normas jurídicas, permanecia no mesmo lugar, concentrada. Caderno, códigos, vade mecum, cola lícita, lápis, caneta e borracha. Focando nas metas do curso de letras jurídicas e estudando para a prova. Ela era muito inteligente e dedicada para o "mundo do direito". Atualmente, excelente profissional (Operadora do Direito: Sistema de justiça criminal).
O narrador, empolgado com a sua narrativa, ainda disse que não sabe outros detalhes, mas pesquisou sobre e descobriu que o poeta era famoso. E o poema (citado acima) é muito conhecido como "Poeminho do Contra" de Mário Quintana (1973), publicado no Caderno H (Jornal Correio do Povo). A obra utiliza rimas em -ão e diminutivos para contrastar a transitoriedade dos obstáculos com a leveza e permanência do eu lírico.

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