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Extrato do livro:
Gato Preto em campo de neve
Érico veríssimo
Passo a transcrever o texto que leio do original (páginas 18 e 19 no nosso exemplar)
Romance (subtítulo)
Depois do jantar oferece-nos um show. Reunimo-nos de novo no salão nobre. A orquestra rompe numa pomposa marcha. John ny de Vant, um americano alto, com cara de gurisão, faz o mestre de cerimônias. Um casal de bailarinos apresenta uma cavalcade de dança, desde o minueto até a Conga e o swing. Uma senhora, com aspecto de prima dona aposentada, canta duas árias de ópera. E ao som de um fox saltitante surge no centro do círculo de luz azulada que se projeta no chão da sala uma silhueta que me é vagamente familiar. Operadores postados nas duas extremidades do salão, manejam holofotes, fazendo cruzar-se no ar feixes de luz colorida. Quando um jorro de luz clareia o rosto da artista, reconheço num doce e choque a loura misteriosa que no fim de contas não é turista rica, nem escritora, nem missionária evangélica, mas simplesmente Miss Kay, dançarina acrobática.
vestida de odalisca, mais loura que nunca, lá está ela a atirar as pernas para o ar, a virar cambalhotas, a contorcer o corpo como uma bruxa de pano. A orquestra estertora num final grandioso e a bailarina rodopia como uma piorra. Estronda o bombo acompanhado pelo tinir rachado e metálico dos pratos, Miss Kay tomba de pernas abertas e braços erguidos. Palmas.
Johnnie de Vant conta anedotas e faz mágicas. E com uma nova exibição dos bailarinos termina o show.
Agora são os passageiros que dançam. Continuando o seu trabalho de good -willsta, a orquestra toca o samba “Diz que tem". O bar está fervilhante de gente. Garçons passam com bandejas com laranjada, garrafas de whisky e coca-cola. E ainda que pareça invenção de romancista, a bailarina acrobática toma cerveja com o capelão de bordo. A um canto do bar um brasileiro descabelado puxa frenético a alavanca da máquina caça-níqueis.
Saio para o promenade-deck. A noite está pesada de estrelas. Debruçado a amurada Malazarte procura liricamente o Cruzeiro do Sul. As ondas batem no costado do barco. A orquestra agora toca o St. Louis Blues. Os pares passam. Começam os romances. Vislumbro vultos pelos cantos sombrios. O vento do mar é morno e perfumado.
Pensa vagamente numa novela cuja ação se passa num vapor. Neste, por exemplo. O drama dos refugiados. Um milionário metido em qualquer complicação financeira. Um agente da gestapo. Uma bailarina decadente. Um criminoso a fugir da Justiça. Um espião japonês. Um scroc internacional … As histórias de sempre.
E mais um brasileiro tolo como você acrescenta Malazarte ao meu ouvido. Tão tolo que não compreende que esta é uma viagem de recreio em que há lugar para tudo, menos para o trabalho.
Baixo a cabeça vencido e fico a olhar para o oceano escuro e misterioso.
(...)
Texto em construção.
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