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Você leu o ensaio do professor Jacomini sobre o filme Stalker?
Eu sei, você está de férias: recarregando as baterias, etecétera e tal.
Bom!
Aqui (no Vale) também segue o clima de "entrementes".
Eu quero escrever algo sobre a guerra, mas hoje vamos ficar na "psicologia dos livros", assim como ensinou Bachelard.
Eu sabia que o Veríssimo era importante para o nosso projeto. Contudo, não esperava chegar neste "ponto de inflexão".
Depois volto ao termo (não jurídico) e explico esse fado.
Fica com o Resumo do Stalker.
Não esquecendo, estamos aguardando a tua doação para o nosso projeto. A vaquinha dos óculos do professor retornou zero reais. O que fazer? De um lado, tanta bonança e de outro a necessidade no pedestal.
RESUMO:
O presente ensaio analisa as dimensões filosóficas, psicológicas e estéticas do longa-metragem Stalker (1979), dirigido pelo cineasta russo Andrei Tarkovsky. O objetivo é investigar de que maneira a obra subverte os tropos tradicionais da ficção científica para construir um diagnóstico sobre a falência existencial e a crise espiritual da modernidade industrializada. Adotando uma metodologia analítica e fenomenológica baseada na teoria cinematográfica do diretor e em conceitos da psicologia profunda, argumenta-se que a "Zona de Alienação" funciona como uma topografia do aparato psíquico e o "Quarto dos Desejos" como o espelho definitivo do inconsciente humano. O recuo dos personagens intelectuais (o Escritor e o Professor) diante do limiar do Quarto é interpretado como o pavor contemporâneo em confrontar a própria Sombra. Por fim, demonstra-se que a resposta do diretor ao niilismo moderno ocorre por meio de uma poética da fragilidade, onde a transcendência é resgatada na imanência do cotidiano pelas figuras femininas da esposa e da filha (Monkey). Conclui-se que o filme propõe a vitória da flexibilidade espiritual e do amor sacrificial sobre a rigidez técnica e o ceticismo racionalista.
Palavras-chave:
Andrei Tarkovsky; Stalker; Cinema Contemplativo; Inconsciente; Transcendência Imanente.
Verbete
Inflexão
Inflexão significa o ato de curvar, mudar a direção ou alterar o tom.
Os usos principais aparecem na voz, na matemática e na gramática.
Usos Principais
Voz e Fala:
Mudança no tom ou na altura da voz para mostrar emoção, fazer perguntas ou dar destaque a uma palavra.
Matemática: O ponto em um gráfico onde a curva muda de direção ou inverte o sentido da sua curvatura (de virada para cima para virada para baixo).
Gramática: O mesmo que flexão, ou seja, a mudança na forma de uma palavra (como mudar o verbo de tempo ou o nome para o plural).
Sentido Geral:
Qualquer desvio, dobra ou mudança em uma linha reta ou na postura do corpo.
A inconsistência da nossa moral.
Estamos no momento da evolução humana que certamente não tem precedentes na história. Grande parte da humanidade, e justamente a parte que corresponde aquela que criou até agora os acontecimentos de que temos alguma certeza, deixa, pouco a pouco, a religião em que viveu durante quase 20 séculos.
Extinguir-se uma religião não é fato novo. Deve ter se dado mais de uma vez na noite dos tempos. E os analistas do fim do Império Romano fazem-nos assistir à morte do paganismo. Mas, até agora, os homens passavam de um templo que desabava para um templo que se edificava, isto é, saíam de uma religião para entrar noutra. Temos hoje um fenômeno novo de consequências desconhecidas.
II
É inútil recordar que as religiões, pelas suas promessas de além túmulo e pela sua moral, tiveram sempre uma influência enorme na felicidade dos homens, ainda que algumas houve, aliás, importantíssimas como o Paganismo, que não faziam aquelas promessas, nem tinham moral propriamente dita.
Não falaremos das promessas da nossa, pois elas perecem ao mesmo tempo que a fé, embora nós vivamos ainda nos monumentos elevados pela moral, que procedeu daquela fé que se retira. Mas reconhecemos que, não obstante as escoras do hábito, esses monumentos se entreabrem sobre as nossas cabeças, e que, em muitos pontos, já nos achamos sem abrigo, sob um céu imprevisto que já não dá ordens.
Assistimos, portanto, à elaboração mais ou menos inconsciente e febril, de uma moral prematura, porque a sentimos indispensável, feita de destroços colhidos do passado, de conclusões recebidas do bom senso vulgar, de algumas leis entrevistas pela ciência e, enfim, de certas intuições extremas da Inteligência desorientada, que, por um desvio para um mistério novo, retrocede a virtudes antigas, para cujo sustentáculo não basta o bom senso.
Talvez seja curioso tentar colher os principais reflexos daquela elaboração. Parece que está soando a hora, em que muitos perguntam a si próprios se, continuando a praticar uma moral elevada e nobre, num ambiente que obedece a outras leis, eles se não desarmam ingenuamente, e se não representam o ingrato papel de parvos. Querem saber se as razões, que os ligam ainda a velhas virtudes, não são puramente sentimentais, tradicionais e quiméricas e procuram baldadamente em si próprios os auxílios que a razão ainda lhes pode ministrar.