segunda-feira, 13 de julho de 2026

Tarkovsky

 



Os sons da naturaleza

Para Tarkovsky, o som no cinema nunca era apenas um plano de fundo. Ele detestava o uso de trilhas sonoras tradicionais para ditar o que o espectador deveria sentir. No lugar de músicas grandiosas, ele transformava os sons da natureza em uma sinfonia psicológica profunda.
Em O Espelho, esses sons funcionam como gatilhos de memória e portais para o inconsciente.
 Veja como os quatro elementos naturais ganham voz no filme:
1. A Água (O Tempo e a Melancolia)
A água é o elemento mais recorrente no cinema de Tarkovsky. Em O Espelho, ela raramente é estática; ela escorre, pinga e infiltra.O teto que desaba: Na cena em que o teto da casa de campo desaba sob o peso da água, o som rítmico das gotas caindo cria uma atmosfera de abandono e decadência.A chuva imprevisível: A chuva pesada que cai sobre a floresta abafa os ruídos do mundo exterior, isolando os personagens em suas próprias mentes e memórias. O som da água limpa e lava o passado, mas também evoca uma profunda sensação de nostalgia e perda.
2. O Vento (O Invisível e o Mistério)
O vento em Tarkovsky é a materialização de uma força invisível — seja o destino, o tempo ou a própria presença divina.O sopro nos arbustos: Na icônica cena em que o médico caminha pelo campo e se despede da mãe do protagonista, um vento súbito e violento varre a vegetação, entortando as plantas e derrubando objetos da mesa.O som do vazio: O som do vento uivando não é naturalista; ele é amplificado e distorcido para criar um sentimento de presságio, como se a própria natureza estivesse respirando ou alertando sobre a iminência da guerra.
3. O Fogo (A Destruição e o Calor do Lar)
O fogo representa a paixão, a memória viva, mas também a destruição trágica da infância.O incêndio do celeiro: Quando o celeiro da família queima sob a chuva, o som do estalar da madeira seca e o rugido das chamas dominam o espectador. Não há gritos de desespero dos personagens; eles apenas observam em silêncio, deixando que o som hipnótico do fogo destruidor fale por si só. O som do fogo aqui queima o que restava da segurança do lar.
4. A Terra e os Animais 
(O Pertencimento)Passos na lama:
 O som pesado de botas afundando na terra úmida ou na neve evoca o peso da existência russa e a ligação física com o solo.O canto dos pássaros e insetos: Ruídos de corvos, o zumbido de abelhas e o bater de asas de pássaros assustados são usados para quebrar silêncios desconfortáveis, lembrando que a natureza continua viva e indiferente aos dramas humanos.
A Zona de Transição: Som vs. Música
Tarkovsky costumava trabalhar com o compositor Eduard Artemyev para pegar esses sons reais (como o vento ou o gotejar da água) e misturá-los eletronicamente com sintetizadores da época. O resultado é que, muitas vezes, o espectador não sabe se está ouvindo o som real de uma tempestade ou uma música abstrata. O som vira poesia pura.

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