sábado, 6 de junho de 2026

Tekoá Jataity

 


Estudo de Outrora. 



2.3 Tekoá JataiTy


“Movimento (dança e caminhar) e palavra (palavra-alma e reza)são os fundamentos do mundo.”

Garlet


A minha entrada nesta aldeia aconteceu através de um processo diferente das demais. Desde o semestre passado ouvia os relatos de uma colega do curso de ciências sociais sobre a sua inserção no universo cultural indígena da Tekoá JataiTy. Ela falava com empolgação sobre esta nova oportunidade de trabalho e pesquisa antropológica junto a esta comunidade. Ouvia atento, pois estava realizando trabalho análogo a este com o foco na Tekoá Nhundy (Estiva – Viamão/RS).












A Caminhada Guarani surge neste contexto. Certa feita, o relato da minha colega versava sobre a necessidade de auxiliar o cacique Jaime em um novo projeto formatado no seio da aldeia. O objetivo era criar um veículo de mídia para divulgar o projeto: “Mbyá Jeguatá”. Coloquei-me a disposição para contribuir, uma vez que possuo larga experiência na criação e edição de blogs e a necessidade do grupo era justamente este: criar um veículo de mídia informatizada para divulgar o evento e chamar o público alvo para participar da Caminhada Guarani10.

A partir deste momento passei a tomar parte em um grupo de pesquisadores que tinha o Núcleo de Antropologia das Sociedades Indígenas e Tradicionais (NIT) como local de reunião e encontro. Nesse período que antecedeu a primeira edição do evento, aconteceu uma série de encontros (periodicidade semanal) com o objetivo de dar o suporte necessário para a comunidade Mbyá Guarani do Cantagalo estruturar a “Caminhada Guarani”. Em um primeiro momento, definiu-se as prioridades de trabalho e dividiu-se as tarefas entre os membros da equipe de trabalho.

A criação do blog foi uma atividade relativamente simples para este pesquisador, pois já havia acumulado uma experiência anterior de trabalho no “estaleiro” da base de dados blogger oriunda da empresa Google Net Works. Portanto, bastou reunir as informações iniciais que deveriam ser publicadas e definir detalhes da estrutura e apresentação gráfica do blog. Buscou-se privilegiar as demandas da comunidade, em detrimento das vontades pessoais dos pesquisadores. Houve recortes e seleções de textos de imagens para serem disponibilizadas na internet, mas sempre norteados pelas demandas prioritárias da Comunidade Guarani do Cantagalo. Ou seja, as decisões foram norteadas pelas demandas dos maiores interessados pelo evento Caminhada Guarani apresentadas através das suas lideranças, especialmente do Cacique Jaime da Silva. O resultado do trabalho foi publicado na internet, porém ainda deverá passar por avaliações periódicas, com vistas ao seu aperfeiçoamento.



















Além do blog, houve a decisão de levar o evento para as redes sociais, via criação de uma front Page no Face Book. Da mesma forma como foi citado anteriormente, a equipe de trabalho definiu os textos e imagens que representassem mais adequadamente as demandas da Comunidade Guarani. A fim de demonstrar parte do produto deste trabalho, transcrevo na seqüencia uma parte da “peça publicitária” criada pelo grupo e disponibilizada na internet:

A comunidade Mbyá Guarani do Cantagalo convida para a “Mbyá Jeguatá” (caminhada Guarani). “Mbyá Jeguatá” significa o caminhar da pessoa Guaraní pela mata, remetendo à tradição cultural de intermitente deslocamento pelo território seja para realizar novos assentamentos ou visitar parentes. E “Mbyá Jeguatá” foi o nome escolhido pela comunidade do Cantagalo para um passeio a ser realizado por trilhas na mata que circunda a aldeia, trilhas que buscam a menor modificação possível da mata de acordo com tradição do caminhar Guaraní. O passeio será guiado por um intelectual Guaraní, conhecedor das potências agentivas dos seres da mata: animais, vegetais e minerais; assim como das possibilidades de uso das propriedades materiais e imateriais destes seres. O passeio propõe a abertura da aldeia e a possibilidade de conhecer e vivenciar o modo de vida Mbyá Guarani. Além de entrar em contato com a cosmovisão Guarani, sua explicação sobre a existência e relação com os seres que compõe o cosmos, será possível degustar pratos típicos e a apresentação do coral de crianças da aldeia. Será exposto aos visitantes também a arte em cestaria, colar, pulseiras e adornos, produzidos pelos moradores da aldeia incorporando as potencialidades agentivas de materiais colhidos no local.

O quê? Vivência junto a cultura Mbyá Guarani: Caminhada pela mata que circunda a aldeia Tekoá Jatai Ty com guia Mbyá Guarani, apresentações artísticas, culinária tradicional e exposição de arte.

Data: Sábado, dia 30/05.

Horário: Saída as 9 hs da frente da prefeitura municipal de Porto Alegre em direção a Tekoá Jatai Ty, no Catantagalo - Viamão.

Valor: R$ 40,00 (o valor inclui o transporte e o trabalho de recepção da comunidade Jatai Ty)

Incrições: Pelo email jaimevheraguyra@gmail.com - As vagas são limitadas e serão confirmadas com o depósito do valor do passeio até quinta-feira 28/05, ao meio dia. Informações bancárias serão enviadas mediante contato de inscrição.

















A primeira edição da Caminhada ritual guarani aconteceu no dia trinta de maio. Havia uma expectativa grande em torno de todos os participantes (índios e não índios), pois era a primeira oportunidade que o evento iria ocorrer. Foi contratado um veículo de transporte escolar e todos chegaram com segurança e boa disposição ao local combinado. O Cacique Jaime esteve a frente de todos os momentos do evento e recebeu os visitantes com muita cordialidade e gentileza. Convidou uma liderança guarani da Estiva (Zico) que veio especialmente palestrar sobre a cultura e os costumes originários dos Guaranis. Após a realização da caminhada pela trilha previamente preparada no interior da mata, os convidados foram convidados a fazer uma refeição, assistir apresentação do grupo coral de crianças da aldeia e participar de brincadeiras. Antes da despedida final, houve um momento de confraternização em frente ao prédio da escola indígena da aldeia com a apresentação de uma exposição de arte típica guarani, comercialização de peças de artesanato e o encerramento foi selado com o registro fotográfico de todos os participantes presentes.

O Caminhar é uma atividade muito importante também na guaranilogia (além da antropologia, conforme já havia grafado) segundo o meu entendimento da causa exploratório-científica. A investigação etnográfica é por si um movimento em direção ao “novo” (construção do objeto de estudo, testagem das hipóteses, construção de peças comprobatórias – artigos, monografias, teses, etc.). O Estudo da “Caminhada Guarani”, conforme a pesquisa realizada por este pesquisador, demonstra que aqui o movimento é fundamental, conforme a citação do autor Garlet que abre este sub-capítulo. O homem urbano tem abolido a relação com estas práticas essenciais. Em função disto, na realização da primeira edição da caminhada guarani, percebi que se agregou ao grupo de acadêmicos algumas pessoas com traços característicos deste coletivos que tem buscado realizar um caminho de retorno. Ou seja, pessoas que tem buscado nas práticas xamanísticas um contato maior com a natureza e das suas forças especiais. Eles demonstram estar interessados em realizar uma troca de hábitos sedentários e de alimentação equivocada, por exemplo, em práticas mais holísticas que tem como foco uma nova relação com as energias da natureza. O grande objetivo é resolver problemas de saúde, típicos do meio urbano como o strees e a depressão.


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