sábado, 6 de junho de 2026

Tekoá Nhundy

 


Estudo de Outrora



2.4 Tekoá Nhundy

A minha entrada na Comunidade Guarani da Estiva acontece via “Informante AVM”. Na oportunidade em que estive participando da “Semana Cultural” que ocorreu na Estrada do Gravatá (Itapuã – Viamão) realizei alguns contatos importantes para esta pesquisa. Colhi depoimentos com registro em base de dados digitais (MP3) de cinco integrantes da Comunidade Guarani. Dentre eles, o contato mais estruturado ocorreu com o “informante AVM”. Encontrei-o expondo algumas peças de artesanato tradicional guarani no “Centro Cultural”. Fiz a aproximação inicial, através do interesse na aquisição de uma peça: zarabatana.

Naquela oportunidade solicitei um depoimento, o qual foi dado com boa disposição pela parte do informante. Trata-se de um Professor Indígena que atua na Escola Karai Nhe’e Katu (segundo consta seria o professor mais antigo em atividade em todo o Estado do Rio Grande do Sul). No final da tarde, quando do encerramento das atividades propostas para aquele dia, fui convidado para sorver um chimarrão guarani. Estava formada uma roda de indígenas, dentre eles o “Informante AVM”. Ele me apresentou alguns de seus parentes mais próximos. Após esta conversa, anterior a despedida, ficou latente uma vontade recíproca de dar seqüencia a este “diálogo intercultural”.














Passados alguns dias, havia planejado realizar um deslocamento até o município de Balneário Pinhal/RS, com fins particulares. Como a Aldeia da Estiva fica no caminho para o litoral norte, via RS 040, decidi fazer um contato telefônico com o “Informante AVM”. Foi então que fiquei sabendo da realização de uma atividade similar aquela que havia vivenciado em Itapuã (agora na Estiva). Fui convidado para me integrar a atividade denominada “Noite Cultural”. Aceitei o convite, deslocando para a Tekoá Nhundy no dia 29/04/2015.

A Escola Estadual de Ensino Fundamental Indígena Karai Nhe’e Katu produziu uma material de divulgação da atividade que trazia a programação do evento, como segue:

15:30 Abertura com a apresentação do coral

15:50 Tembi’u (Culinária Indígena)

16:50 Corrida de toras

Guyrapa nhemombo (Arco e Flecha)

17:10 Kyringue mborai (Artesanato)

19:00  Kyringue mborai (Coral)

19:15 Tujakue hayu (Fala mais velhos)

19:30 Jurua kuery havy (Fala Alexandre e Silvino)

20:00 Vídeo trajetória escola (Conversa dos professores e ex-funcionários)

20:30 Xondaro (Grupo de Danças)

















2.4.1 A Escola Karai Nhe Katu

A Escola Karai Nhe Katu dista poucos metros do leito da via denominada Rodovia Tapir Rocha. Voltei ao centro da “Noite Cultural Guarani”. Foi uma experiência muito interessante. Agora retorno e fico olhando o fogo extinto ali como testemunha daquela vivência onde comi o pão da terra (Batata Doce e aipim assados) e o pão guarani (Mbojapé é a denominação segundo a língua original Mbyá Guarni). 

Havia feito um contato prévio com o “Informante AVM”. Solicitei auxílio para uma atividade de tradução de dois depoimentos feitos na língua originária (Guarani). Laurinda e Agostinho realizaram depoimentos na língua guarani durante a “Noite Cultural”. Laurinda fez uma fala de aproximadamente quarenta minutos somente em guarani. Agostinho inicia em guarani e depois passa a falar em língua portuguesa saudando todos os presentes. Esta fala foi um pouco mais breve se comparada a primeira referida. Senti que estes dois depoimentos mereciam uma atenção especial.

A necessidade de tradução não era imperiosa (no seio da pesquisa), mas decidi realizá-la mesmo assim. O resultado final foi bastante interessante, mas também surpreendente para mim. Surpreendeu, pois obtive um retorno não convencional, quando da proposta ao “Informante AVM”. Trabalho realizado na “lan house” da Escola Karai Nhe Katu. A minha proposta inicial era realizar uma tradução literal a partir do arquivo de áudio (Base digital – MP3) que eu captara na “Noite Cultural”. Mas a surpresa referida acima refere-se ao fato de que ao chegar na escola o trabalho já havia sido feito. Para maiores detalhes sobre esta peça acessória a monografia ver anexo 04. 


2.4.1.1 A “Lan House” da Escola Karai Nhe Katu

A “Noite Cultural” foi um oportunidade importante de estar entre os guaranis e vivenciar a sua cultura original. Desde o momento em que cheguei até o final do evento ocorreram diversas trocas afetivas significativas, além é claro de conhecer aspectos da culinária típica guarani, histórico do desenvolvimento do trabalho pedagógico desenvolvido na escola, etc. A informação recebida deve ser checada (sempre). Assim procedi e é necessário seguir um pequeno roteiro para entender este enredo.

A “Noite Cultural” trouxe diversos convidados especiais para conviver no espaço da Escola Karai Nhe Katu. Alunos da Escola Kankerini, ex-funcionários que passaram em algum momento em atividade na Escola Karai Nhe Katu e retornaram para rever os amigos, coordenadores e supervisores escolares ligados aos órgãos públicos gestores de projetos desenvolvidos na Escola Karai Nhe Katu, dentre outros. Neste ínterim, fiz contato com uma professora que se declarou “supervisora pedagógica”. A professora AVC em conversa com este pesquisador, quando questionada sobre a existência de sinal de internet na Escola Karai Nhe Katu afirmou: “A estrutura aqui é muito boa. Eles tem internet sim. Você viu lá na entrada, tem uma baita de uma antena”.

Na sala dos professores havia quatro ou cinco computadores ligados em rede. Dispostos sobre classes escolares tendo cadeiras escolares comuns para os seus usuários. A minha experiência de trabalho na Escola Karai Nhe Katu demonstrou que não há sinal de internet disponível para a comunidade escolar. Os computadores estão ligados em rede, porém trata-se de uma intra-net e não internet. Os micro computadores foram alimentados com “joguinhos infantis” e são utilizados pelos alunos, sob orientação dos professores no parece com uma lan house off line (para internet). A apregoada rede, segundo o depoimento da supervisora pedagógica liga lugar nenhum a nenhum lugar. Puro despropósito de alguém mal informado ou de alguém mal intencionado, pois a resposta dada no depoimento não condiz com a realidade da Escola Karai Nhe Katu. 

Esse dado não foi levantado pelo acadêmico que realizou recentemente um trabalho dissertativo com mais de cem páginas sobre a Escola Karai Nhe Katu. Oriundo do programa de pós-graduação em educação da Pontifícia Universidade Católica de Porto Alegre, Carreira apresentou uma dissertação de mestrado sobre a Escola Karai Nhe Katu. Os Mbyá vão à escola: uma etnografia sobre os sentidos da escola na Aldeia da Estiva é o título do trabalho que encerra a frase: “Ao fim de tudo, trata-se de devorar o branco através da escola”. A verdade é que deve ser lido todo o último parágrafo, a fim de se entender a propositura do pesquisador citado. Voltarei a esta análise crítica no final do meu trabalho. Por hora, resta destacar que o acadêmico em tela preferiu rotular o Guarani da Estiva como uma espécie de “neo-antropofágico”, em detrimento de perceber os limites operacionais colocados pelo Estado do Rio Grande do Sul, através da Secretaria de Educação para a realização das atividade pedagógicas na Escola Karai Nhe Katu. 

A criança chora de forma insistente e comovedora em um dos arquivos de áudio que colhi durante atividade de pesquisa na Escola Karai Nhe Katu. Motivo: ela quer utilizar um dos quatro ou cinco computadores disponíveis com joguinhos infantis. A professora muito atenciosa e dedicada tenta acomodar a todos o que não é possível, pois trata-se de uma turma de, aproximadamente, 12 alunos que disputam os poucos assentos desconfortáveis das cadeiras de madeira que estão diante dos computadores. Não há nenhum conforto, pois as acomodações estão longe de ser aquelas que são usadas em laboratórios de informática tradicionais. Mas o talento da professora supera a situação desfavorável oferecida pelas limitações do espaço da Escola Karai Nhe Katu. E surge uma alternativa alentadora: quebra cabeças. A criança que chora protesta, pois não aceitou a estratégia da professora: enquanto espera a vez no revezamento para a utilização dos computadores, sentadas no chão montam quebra-cabeças tradicionais feitos em papel cartão. 
















Navegar pela rede mundial de computadores, descobrindo novos horizontes, abrindo janelas para realidades fora do universo escolar da Aldeia da Estiva não é atividade permitida para os alunos da Escola Karai Nhe Katu. Interagir nas redes sociais, trocando experiências com colegas de outras escolas indígenas no Estado do Rio Grande do Sul ou fora dele não é possível para os pequenos da Escola Karai Nhe Katu. Citei o projeto “Vídeo nas Aldeias” como uma das possibilidades que poderiam ser desfrutadas pela comunidade escolar da Escola Karai Nhe Katu, mas isto também não é possível, enquanto o Poder Público Estadual não instalar o sistema de internet para tornar realidade todas estas possibilidade oferecidas pelas novas tecnologias da inteligência.















A palavra “inimigos” está na última página da dissertação do mestre Carreira05. Ele cita Vilaça (em relação aos Wari) e destaca virtudes que enxergou no guarani da Estiva: inteligentes estrategistas (além de neo-antropófagos). No último parágrafo da dissertação afirma: “Assim, o crescente movimento guarani em direção ao ensino escolar parece responder a uma inteligente estratégia indígena de contato com a sociedade nacional que os possibilita serem brancos ao modo indígena, isto é, experimentar a diferença, retendo somente aquilo que lhes interessa”. Antropocentrismo na potência dez, segundo o meu ponto de vista. Lembrei da palavra “aliados” proferida por Verá Poty dentro do centro cultural, quando recebia os convidados na abertura da “Semana Cultural”, destacando as parcerias estabelecidas com diversos indivíduos que representavam ali diversos órgãos públicos e segmentos da sociedade que mantém uma interlocução com os guaranis.

Encerro o capítulo com o Ensaio Fotográfico denominado: “Tá todo mundo feliz iz  – é dia de Festa na Aldeia da Estiva, Comunidade da Escola Karai Nhe Katu”. Com o objetivo de apresentar visualmente a ambiência de trabalho do pesquisador desde a sua inserção humana na interação com uma cultura distinta da sua própria. Aqui, mais do que a imagem fotográfica, a peça cênica a partir de suporte videográfico seria o mais adequado, pois a frase: “Tá todo mundo feliz iz” não é de minha autoria. Esta expressão foi exprimida por uma criança guarani da aldeia que estava próxima a mim no momento em que eu realizava um registro videográfico da apresentação do grupo coral da escola na “Noite Cultural”. Técnicamente é inviável acoplar diretamente a grafia com a videografia, através deste trabalho estruturado em padrão de linguagem formal acadêmica. Contudo, não poderia deixar de fazer este registro, pois foi tão verdadeiro e original este momento em que um integrante da comunidade declara a sua alegria e satisfação em viver aquele instante ritual. 

As imagens falam por si neste ensaio, portanto não pretendo descrevê-las. De qualquer forma há que se fazer algumas considerações gráficas. A forte presença das prinicpais lideranças da Estiva como o Professor Indígena Agostinho Verá Moreira que surge em vários momentos da festa em centralidade ritual como aquele em que se apresenta como o guardião do “pavilhão escolar” (Ergue com o braço esquerdo a bandeira da escola onde figuram as imagens símbolo daquela comunidade, dentre elas o cachimbo).

A fogueira ao centro e o cachimbo são figuras merecedoras de destaque. Em determinado momento da sua fala, com o microfone na mão (poderia ser o cachimbo), Agostinho aponta com a mão esquerda para o “fogo ancestral” que ardia em labaredas especiais no centro do ritual e afirma: “Esta é a nossa religião”.  

O momento da fala da Kunhã Karai Laurinda também é merecedor de destaque. A anciã com idade bastante avançada apresentou uma determinação e lucidez digna de nota no seu discurso. Toda a intervenção ocorreu na língua originária guarani e as expressões vinham carregadas de emoção. Não pude naquele momento traduzir os códigos lingüísticos expressos, mas foi possível perceber a “emoção dos fonemas” que repercutiram como um hino ancestral mbyá guarani. Posteriormente solicitei a tradução da fala expressa naquele momento tão significativo da “Noite Cultural” da Estiva.   


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