sábado, 6 de junho de 2026

Tekoá Pindó Mirim

 


Estudo de outrora (também objeto de processo de silenciamento)


2.2 Tekoá Pindó Mirim

A oportunidade de adentrar no universo guarani, através da inserção no espaço da Tekoá Pindó Mirim ocorreu via Museu da UFRGS. Tudo começou com o meu contato visual com um cartaz onde constavam as seguintes informações:

“Mais uma vez a comunidade Mbyá de Texoá Pindó Mirim convida para uma oportunidade de vivência de elementos da cultura Guarani-mbya. A UFRGS, acolhendo este convite, organiza a participação de servidores docentes técnicos administrativos e estudantes através de uma ação de capacitação com o objetivo de aprofundar o conhecimento acerca da cultura Mbya proporcionando a todos os segmentos um exercício de diálogo intercultural.

Esta ação será desenvolvida a partir de três atividades distintas. As inscrições deverão ser realizadas em cada uma das atividades. No entanto, a participação na atividade 1 é pré-requisito para a atividade 2.

Cronograma 

Atividade 1 – Elementos para o dialogo intercultural. Apresentando a cultura indígena Guarani-Mbya

Ministrante:cacique Vherá Poty

Data: 06/04/2015

Hora:14h as 18h

Local: Museu UFRGS

Atividade 2 – Visita a comunidade Mbyá da Tekoá Pindó Mirim

Ministrante: Vhera Poty e comunidade Mbya

Data: 13/04/2015

Hora: 9h ás 18h

Local:Tekoá Pindó Mirim – terra indígena de Itapuã – Viamão-RS

Para os inscritos nesta atividade será disponibilizado transporte que sairá do campus central da UFRGS ás 7h.

Para esta programação será cobrado pela comunidade a taxa de inscrição no valor de R$20,00. Uma vez que estará incluído o almoço. O pagamento deverá ser realizado antecipadamente no dia 06/04/2015, durante a atividade preparatória a visita. Estudantes ingressos pelo sistema de cotas estão isentos do pagamento.

Observação: a participação na atividade 1 é pré-requisito para a atividade 2

Atividade 3 – reflexões sobre a vivencia e impactos no cotidiano acadêmico

Data 23/04/2015

Hora:14h ás 18h

Local: Museu da UFRGS”


Participei dos três momentos propostos pela atividade que a comunidade guarani denomina como “Semana Cultural”. Foi uma experiência muito proveitosa de imersão neste “novo” universo cultural. Durante as atividades realizei registro fotográfico de aspectos sócio-antropológicos da comunidade. Realizei também algumas entrevistas com indivíduos da comunidade indígena. Além disso, após a conclusão dos três momentos propostos para a vivência, elaborei um texto analítico onde tento organizar as principais questões sobre esta experiência de campo. Denominei este trabalho de Nhandecy.


2.2.1Nhandecy03

Após a aplicação das técnicas de pesquisa na atividade de campo, na intimidade do meu gabinete de trabalho e estudo, produzi um texto que explana em pormenores os principais aspectos observados no transcurso desta atividade. Decidi por compor uma escrita mais aberta e “livre” dos rigores acadêmicos formais que, de um modo geral, apequenam a intensidade das atividades em observação direta e participante. A orientação teórica vem do trabalho de Clifford Geertz, desde a obra denominada “A Interpretação das Culturas”. Os termos do referido texto são estes que ganham as páginas na sequencia:

Diálogo com a Cultura Guarani

Porto Isabel, seis de abril de dois mil e quinze.

A manhã de outono iniciou nublada. Houve um pouco de chuva na noite passada. Acordei e tomei o café em família, como faço habitualmente. Compromisso acadêmico às quatorze horas: Diálogo com Cultura Indígena Guarani-Mbyá – III Edição.

A vida cotidiana na periferia de uma grande cidade é marcada pelos deslocamentos necessários para a metrópole. Sou feliz porque não faço isto diariamente. O transporte coletivo é precário e a viagem é penosa. Sempre sinto dor de cabeça no retorno. Tenho uma sensibilidade extremamente aguçada para tudo. E as agressões urbanas são muito fortes. Poluição do ar. Poluição sonora. Viver neste contexto saturado. Esta é a marca registrada do homem urbano (adoecer). Em função disso, faço o registro: não me é nada agradável viajar até a região central de Porto Alegre.

A atividade vai acontecer no museu da UFRGS. Portanto, para dialogar com o Cacique Vherá Poty terei que atravessar a ponte do Arroio Sabão e tomar assento no Expresso Viamão. Foi este movimento pendular (Porto Alegre – Santa Isabel) que trouxe a inspiração para criar o termo “Porto Isabel”. Não posso me alongar sobre este assunto, pois a minha aldeia não é o foco deste relato. O objetivo aqui é descrever a minha experiência neste diálogo com a “cultura do outro”.

Os momentos que antecederam a chegada no Museu da Universidade foram vividos dentro da biblioteca da Faculdade de Educação. Estava lendo literatura. A minha frente uma colega lia um “texto Xerox”04. Perguntei: que horas são? Treze e quarenta foi a resposta. Desci. Passei no protocolo geral da universidade. Encaminhei um documento e fui caminhando em direção ao museu. Prédio muito bem cuidado e preservado, mas com espaço físico restrito e acanhado. Penso que poderíamos ter um museu mais amplo e participativo na nossa vida acadêmica. A universidade é tão grande. O Museu da Universidade é tão pequeno. 

Aproveitei a oportunidade e fiz uma visita rápida à exposição no térreo antes de subir para a parte superior do prédio, local onde ocorreria o referido evento acadêmico. Subi. Várias pessoas já formavam fila para adentrar ao recinto. Cadastramento difícil, travado e demorado, burocracia de praxe. Você é servidor? Não. Então passa aqui ao lado (menos de trinta centímetros entre uma mesa e outra. Eram três). Nisso, surge dois indivíduos com “pose de diretoria”. Senti um cheiro forte de sudorese demasiada. A nossa ritualística, centrada na racionalidade (clássica), torna algo simples em “engenhos altamente complexos”. Coisas simples como uma recepção, por exemplo, torna-se algo complexo. O jovem cacique guarani vai falar sobre este assunto, com muita propriedade: simplicidade. Esta é uma boa razão para ouvir o que um representante de outra cultura tem para expor. Independente se o indivíduo é antropólogo ou não. Neste caso, o evento não foi organizado para especialistas em estudos de cultura indígena. Oficialmente trata-se de uma atividade de capacitação profissional oferecida para servidores e alunos da comunidade acadêmica da UFRGS. Estou dentro deste encontro que é preparatório para mais outros dois momentos que ocorrerão posteriormente. O próximo na aldeia (Terra indígena de Itapuã) e o fechamento previsto para acontecer em “terra de branco”: museu universitário.

Após a intervenção da anfitriã, C L, profissional do corpo técnico do museu, com uma vasta lista de agradecimentos (muitos dos quais, apenas protocolares), entra em cena o ator principal do encontro: Cacique Vherá Poty e seu acompanhante, Osvaldo. Senti que não estavam sós. Tão logo recebeu o microfone e iniciar uma fala meia engasgada, recebeu também uma bebida especial. Surgiu uma bandeja com um recipiente contendo um determinado líquido que foi servido em um copo especial (pelas mãos da assistência). Não posso determinar exatamente o teor da referida bebida. Gostaria de ter entrado neste detalhe, mas não foi possível perceber concretamente esta informação. Tenho um palpite sobre esta cena que talvez não seja apenas mais um “detalhe”, pois o cacique viria a fazer uso deste líquido em outros momentos do encontro. Do que eu vi, cabe destacar que tanto a jarra, quanto o copo pareciam ser de material argiloso. Após alguns goles, a voz melhorou e a “palestra” iniciou.

Semana Cultural é o nome dado para o evento, segundo Vherá Poty que parecia estar tranqüilo e falava pausadamente. Vestia calça de brim e camiseta. Trazia na mão esquerda alguns adereços especiais: anéis e bracelete de contas e sementes (cores escuras, tons de terra, algo entre vermelho rubi e ocre). Andava com leveza no salão. Olhava para a platéia e sorria. Identificou alguém na platéia com a camiseta do Internacional, declarando-se colorado. No início falou um pouco sobre a sua trajetória de vida, destacando que assumiu o posto de cacique com dezenove anos (hoje está com vinte e sete anos de vida). Teceu impressões sobre o que é ser índio (hoje). Dizia que não é necessário se fantasiar de índio para parecer sê-lo. Diz que o cocar não um atributo genuinamente guarani. Fala que ninguém vai encontrar índio pelado na aldeia, pois eles aderiram aos trajes do povo branco. Mas que possuem diferenciais e o principal deles é o cachimbo e não o cocar muito presente em outras tradições indígenas. Lembrou que, certa feita, em uma fala pública, diante de uma platéia semelhante a esta, falou: “Se vocês se fantasiam de índios, por que eu não posso me fantasiar de branco?” A sua exposição corria tranqüila. Vez por outra formulava questões para a platéia: “Quem aqui de vocês fala guarani?”. Obviamente, nenhum braço foi erguido. Abro aqui um parêntese para confessar que as vezes penso nisso: o programa ciências sem fronteiras deveria incluir as culturas indígenas no rol de possibilidades para intercambio. Nesse caso, curso de línguas nativas como o guarani deveriam ser disponibilizados para os estudantes universitários. Por que não? Eu não tenho intenção de viajar para o exterior. A idéia de fazer intercambio na França, por exemplo, não me fascina. Mas se houvesse oportunidade de visitar o Parque do Xingu, por exemplo, seria candidato para viver esta experiência tão significativa para um antropólogo que se debruça sobre o estudo dos não brancos. 

Na seqüência, o cacique toca no tema resistência cultural, afirmando: “Não é pouca coisa ter ficado resistindo este tempo todo”. Afirmou que a resistência do seu povo na sua cultura original se deu graças à espiritualidade preservada pelos guaranis. Sobre este mesmo tema, mais adiante Vherá Poty constrói uma crítica bem interessante à “religião oficial” no Brasil: Cultura Católica. Destacou que respeitava todas as práticas religiosas alheias a sua própria, inclusive os preceitos católicos. Mas deixou claro que não aprecia o culto católico. Demonstrou que os princípios da igreja católica apostólica romana são muito diferentes dos creditados pelo povo guarani. Eu gostei bastante deste momento do encontro. Foi muito sóbrio, sério e honesto ao abordar tema tão espinhoso. O cacique voltaria a abordar o mesmo tema religiosidade, quando provocado por um questionamento elaborado por um homem branco que  estava na platéia. Foi então que surgiu a palavra simplicidade. 

O Cacique Vherá Poty dizia que a palavra sinônima para religiosidade é simplicidade. Afirmou que o seu povo vive a religiosidade para além dos templos (como o vivenciamos na nossa cultura). Destacou que o modo de vida simples, ligado as práticas da natureza é a marca registrada da religiosidade do seu povo. A noção de Unidade foi elencada por diversas vezes e tem relação com esta simplicidade. O exemplo utilizado para ilustrar este preceito foi aquele que envolve o ritual de definição do nome das crianças. Disse que na sua cultura ocorre processo bastante distinto do que ocorre com o branco no momento de dar nomes aos filhos: 

“Vocês (brancos) estão preocupados com o nome das crianças desde antes delas nascerem. Isto não ocorre conosco. Somente após, aproximadamente, um ano de vida é que vamos definir o nome dos pequenos. Isto acontece em processo ritual onde a divindade revela qual o nome deve ser dado ao novo ser. Não é o pai ou a mãe que escolhe”.

Na prática, segundo o meu ponto de vista, este processo ritual de nomeação dos indígenas é bem mais complexo do que pode parecer. Digo isto para basear um sentimento pessoal diante desta “declarada simplicidade”. Aqui simplicidade é análoga a essencialidade e antagônica a precariedade. Assim sendo, trata-se de uma “simplicidade” extremamente potente, capaz de realizar aquilo que o branco denomina de “milagres”. Poderia até avançar um pouco mais sobre esta temática, pois sou “praticante de sensibilidade essencial”. Contudo, não sou índio e o desfecho pode soar confuso. A palavra-chave é xamanismo urbano e o tema “as ervas que perderam o seu poder”.

A leitura da obra denominada “Xamanismo, a arte do êxtase” auxilia no entendimento desta questão. Ana Vitória Vieira Monteiro desenvolve um capítulo da obra sobre a temática: Xamanismo não é religião, mas o princípio inspirador delas: 

“As plantas de poder ou as folhas da árvore da sabedoria que orientam sem que o ensinado se sinta culpado por saber, são aquelas que provocam a transcendência e levam ao êxtase” (Monteiro, 2006).

Penso que esta participação na “Semana Cultural” é uma oportunidade para uma reflexão. Vou aqui usar uma metáfora: “olhar no espelho” (antes de olhar o que está diante dos meus Olhos). Antes de fazer um esforço para ver algo novo, diferente e até exótico, neste caso a cultura guarani, é interessante também fazer uma parada diante de um “espelho” e ver a imagem refletida: a nossa própria cultura. Que cultura é essa? De onde ela vem? Quais os valores que ditam as regras? O que faço? Por que faço? Desde quanto faço? Poderia fazer diferente? Gostaria de retomar a fala de Poty, no que se refere ao uso do cachimbo.

O tabaco é uma erva que perdeu o seu poder original. O cigarro vendido no comércio, oriundo de processo industrializado é diferente do fumo em corda artesanal que Vherá Poty citou na sua fala. Ele foi questionado sobre a temática saúde. Falou sobre o hábito de fumar, destacando que fumava apenas cachimbo. Não irei aprofundar esta análise sobre “as ervas que perderam o seu poder original”. Para concluir este ponto, debruço-me sobre algo que esteve presente neste encontro e que também merece uma consideração, mesmo que breve: tensão.

A tensão oriunda do contato inter-étnico. Não é algo provocado intencionalmente pelas partes que dialogam. Trata-se uma força potencial que liga partes de um todo dividido em pedaços. Senti esta tensão presente o tempo todo. São diferenças que se comunicam, mas não se aceitam em processos de “englobamento”. Aceito o outro na sua diferença, mas ele não é um dos meus. Ele é um índio e eu um homem branco. Parece que era alguma coisa deste tipo presente o tempo todo. Alteridades. Vou tentar ilustrar para ficar mais claro o que afirmo. O cacique questionou na sua fala a maneira do branco se organizar:

 “Eu acho estranho essa coisa de microfone. Eu pego o microfone e vocês olham para onde eu vou. Na cultura de vocês, qualquer um que pega o microfone e faz isto se torna o centro das atenções e vira palestrante. Se eu tivesse lá na aldeia seria diferente. Estaria sentado. Todos em uma roda, tomando chimarrão”. 

Foi interessante que ele chegou a propor uma espécie de “exercício”. Em dado momento da sua fala, deslocou-se para o fundo do salão com o microfone sem fio na mão e se divertiu ao ver todo a platéia em movimento de cabeça, tentando acompanhá-lo visualmente. Ou seja, de alguma forma, o cacique se divertiu com toda esta situação. Brincou e demonstrou que somos limitados e pouco criativos. Afinal de contas, se a proposta era fazer um diálogo verdadeiro (e não um monólogo), de fato, a organização do evento poderia ter proposto algo diferente.

A fala de Vherá Poty foi feita de improviso. Ele não trazia nas mãos um roteiro pré-definido. Não houve utilização de esquema ou organograma feito em Power point. Não havia “ponto no ouvido” ou coisa que o valha. Somente a presença da assistência (Osvaldo sentado e calado. A bebida mágica e as alteridades) foi suficiente para que o encontro fosse um sucesso. Após ter falado por, cerca de cinqüenta minutos, o cacique propôs que a platéia se manifestasse com perguntas ou considerações afirmativas de cunho pessoal. 

A tensão foi bem presente em alguns momentos de elaboração de questões pela platéia. Religiosidade, por exemplo, foi um tema tenso. Parecia que as pessoas desconfiavam da resposta que ainda não havia sido elaborada. Simplicidade foi a resposta repetida. Simplicidade. E eu que estava entendendo o verso todo e também o seu reverso sentia vontade de ajudar o cacique a explicar que simplicidade é esta que intriga e deixa perplexo quem não entende o âmago da questão. Houve um momento que uma colega chegou a ser ríspida com um questionamento sobre a temática gênero. Primeiro perguntou sobre a divisão de tarefas entre homens e mulheres na aldeia. Vherá Poty respondeu. A mesma pessoa voltou a perguntar se havia a possibilidade de uma mulher vir a ser cacique da tribo. Vherá respondeu que sim. Ela não parou por aí e questionou sobre o nascimento das crianças. Ocorre na aldeia? Como as mulheres se preparam? É parto natural? Chegou ao ponto de dizer: Bom, são questões do universo feminino e se você não quiser responder, não responda. Enfim, eu teria outras perguntas para fazer sobre as mulheres, mas não sei, acho que não vou fazê-lo. Clima tenso.

E a minha questão? É claro que eu gostaria de ter apresentado uma questão para o cacique. Mas não tive coragem.  Seria por ainda mais lenha na fogueira. O Clima não estava propício. Senti nos meus pares a busca incessante por uma objetividade que não existe na cosmovisão guarani. A liderança guarani que esteve ali demonstrou ser um “ser sensível”. Ele não foi escolhido ao acaso para esta função. O processo ritual que escolheu Vherá Poty para ocupar a posição de cacique foi “preciso” e colocou a pessoa certa no lugar devido. 

Nhandecy. Esta teria sido a minha intervenção. Eu não iria elaborar questão, ou seja a vontade não era exatamente fazer uma pergunta. Gostaria apenas de ter pronunciado esta palavra. Falar e aguardar que as alteridades inspirassem algo para ser trazido a público. Não o fiz de forma objetiva. Contudo, creio que a vontade de fazê-lo provoca uma onda de sentimento que vai de coração para coração. Creio também que o encontro das subjetividades (sejam elas de brancos ou não brancos) não pode ser reduzido e objetivado por letra morta de texto descritivo algum. Obviamente que lembrei de uma leitura acadêmica relacionada com este debate. Quando da minha iniciação em antropologia, realizei diversos exercícios do tipo “descrição densa” a La Geetrz e lá me foi solicitado que “exercitasse” esse olhar sobre o “outro”. A antropologia como ciência objetiva não é uma unanimidade entre todos os intelectuais que “operam neste campo minado”. A objetividade em ciências sociais requerida por pensadores tradicionais como Durkheim é mais do que questionável. E sempre que o investigador fica preso a estes “cânones” o resultado é algo do tipo “sermão na paróquia”. Acredito que é possível avançar um pouco mais na feitura do texto científico e apresentar uma obra mais colorida do que os tradicionais trabalhos marcadamente em PB. 

Encerro o presente capítulo com o Ensaio Fotográfico denominado: “Sois Solo, Água e Prece: com o pé em território Mbyá-Guarani, realizando uma observação direta e participante na Tekoá Pindó Mirim”. Com o objetivo de apresentar visualmente a ambiência de trabalho do pesquisador em situação real de campo. Desde a entrada do grupo de visitantes oriundos da UFRGS na Estrada do Gravatá, passando pelo “Centro Cultural”, local onde ficou o centro receptivo do evento chamado pela comunidade guarani de “Semana Cultural”.

A curiosidade científica deste pesquisador extrapolou o protocolo proposto pelo evento acima descrito. A investigação etnográfica ganhou momentos importantes devido a esta configuração pessoal especial: avançar um pouco nos limites impostos pela dinâmica protocolar. Exemplo disto foi o período pós-almoço onde me afastei do grande grupo e fiz incursão particular no interior da tekoá. Graças a este movimento autônomo, realizei cinco registros fotográficos muito significativos como aquele que coloca em tela o “fogão tradicional guarani” em pleno uso e acompanhado dos apetrechos tradicionais: vasilhas, alimento in natura a ser preparado, combustível, entre outros. 

O segundo quadro cênico imagético retrata exatamente o que exprime o título do ensaio: com o pé no território Mbyá Guarani. Em primeiro lugar, isto não é um fato isolado, pois a pesquisa abrange outras comunidades guaranis visitadas e a atividade em si não é um simples deslocamento ou um simples estar neste lugar. Este é um destaque necessário, pois trata-se de um espaço ritual sagrado, conforme a cosmovisão guarani, que no seu dia a dia não se propõe a este tipo de atividade: receber um número considerável de juruás (visitantes não índios) repletos de “conexões poluídas” que desestabilizam energeticamente a aldeia. 

O quadro cênico imagético de número vinte e dois retrata um instrumento Mbyá Guarani muito importante: cachimbo. Tomei em minhas mãos de uma das crianças que me acompanhavam nesta atividade de registro do dado empírico e decidi fazer a imagem. Confesso que naquele momento foi um pouco instintivo o ato, pois não tinha ainda a real dimensão da importância desta peça artesanal, enquanto equipamento fundamental para a cosmologia guarani. Somente quando me debrucei no estudo da temática cosmogenica e antropogenica guarani foi que percebi a importância do cachimbo e da sua posição central no processo xamanístico ancestral guarani. Eu aprendi muito com esta pesquisa.

 O quadro cênico imagético de número vinte e seis retrata um momento impar nesta trajetória de enlace com a Cultura Mbyá Guarani: é a imagem do aceite do Professor Indígena Agostinho Verá Moreira em colaborar com esta pesquisa aqui apresentada. Voltava do momento final da atividade, representada por um conjunto de brincadeiras proposta pela liderança da aldeia, caminhando em direção à Escola Indígena Nhamandu Nhemopu’ã. Solicitei ajuda para uma jovem participante índia que se aproximava, a fim de auxiliar na ação deste registro fotográfico. Fotometrei o quadro a ser congelado e a angulação final ficou por conta da “Colega Fotógrafa I S” que estabeleceram este produto final, conforme a imagem exposta no trabalho. Há um detalhe que o leitor mais atento pode perceber: um pseudo-problema de angulação. Isto não é real, pois considero que a imagem representa exatamente aquilo que havia a se registrar. O objeto da fotografia é composto por três imagens centrais, sendo que uma está oculta na posição da extrema esquerda de quem observa o instante fotográfico. Portanto, estão na imagem, além dos dois seres corporificados (antropologicamente falando) um terceiro ser que é justamente o que a antropologia tradicional tem apresentado dificuldade de enxergar: a alteridade.  


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