A minha juventude já vai longe.
Mas
isso não importa.
vamos voltar
para o presente engenho:
Moisés
Para Sigmund Freud, a existência histórica de Moisés não era um mero capricho biográfico, mas uma necessidade estrutural para sustentar a sua teoria sobre a origem da religião, da cultura e da própria psique humana.
Se Moisés fosse apenas um mito ou uma lenda — como defendia o historiador Eduard Meyer —, toda a tese que Freud construiu em sua última obra, Moisés e o Monoteísmo (1939), desmoronaria.
A existência real de Moisés era vital para a psicanálise pelos seguintes motivos fundamentais:
1. A Replicação do "Crime Primordial" na História Real
Em seu livro anterior, Totem e Tabu (1913), Freud havia criado o mito científico da "horda primeva": a teoria de que, nos primórdios da humanidade, os filhos se uniram para assassinar o pai tirânico que detinha o controle de todas as mulheres. Tomados pela culpa pós-assassinato, esses filhos divinizaram a figura do pai (criando o Totem/Deus) e criaram as primeiras leis (os Tabus).
Freud precisava provar que esse mecanismo psíquico não aconteceu apenas uma vez na pré-história, mas que ele se repete na história registrada.
Para Freud, Moisés foi esse Pai Primitivo encarnado: um líder rígido, egípcio, que impôs uma religião monoteísta severa aos hebreus. Freud defende a tese de que os judeus se rebelaram e assassinaram Moisés no deserto. Se Moisés não existisse e não tivesse sido morto de fato, Freud não teria o "fato histórico" para validar sua teoria do parricídio original.
2. O Mecanismo do Recalque e Retorno do Reprimido
A base da clínica psicanalítica é o conceito de que um trauma esquecido (recalcado) não desaparece, mas retorna anos depois em forma de sintoma. Freud queria provar que a psicologia das massas funciona exatamente igual à psicologia individual.
A engrenagem histórica de Freud funciona assim:
O Trauma (Fato Real):
O assassinato histórico de Moisés pelas tribos israelitas.
O Recalque (Esquecimento Coletivo):
Tomados por um remorso insuportável, os israelitas apagaram o assassinato de sua memória oficial, misturando a figura de Moisés com a de um sacerdote midianita (Javé).
O Retorno do Reprimido:
Séculos mais tarde, a culpa inconsciente pelo assassinato do "Pai Moisés" retornou com força total na forma do monoteísmo ético rigoroso dos profetas e, posteriormente, no cristianismo (onde o sacrifício de Jesus Cristo é visto por Freud como a confissão e expiação definitiva pelo assassinato do Pai original).
Sem um Moisés real de carne e osso para ser assassinado, não haveria trauma real, não haveria recalque e, portanto, a teoria do "retorno do reprimido" na história das civilizações perderia o sentido.
3. A Transmissão Filogenética da Culpa
Freud acreditava firmemente no conceito lamarckista de que memórias e sentimentos de culpa podem ser herdados biologicamente de geração em geração (traços de memória filogenética).
Para justificar o forte senso de identidade, a resiliência e a neurose obsessiva que ele atribuía ao povo judeu, Freud precisava de um desencadeador histórico real. O Moisés histórico foi o homem que moldou o caráter judeu ao introduzir o monoteísmo e a valorização do intelecto sobre o sensível. A culpa real por sua morte, transmitida no inconsciente coletivo, tornou-se o motor da identidade judaica.

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