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quarta-feira, 31 de maio de 2017

Avenida Mauá

Relembrando a graduação



A Travessia da Avenida Mauá


A travessia da Av. Mauá (Vindo da Praça da Alfândega em direção ao Cais do Porto) é, sem nenhuma dúvida, “uma manobra bastante arriscada”. Neste local o trânsito de veículos é muito grande e a velocidade média dos automóveis, caminhões e coletivos também é alta em função da avenida ser extensa (uma grande reta),  larga (com 3 faixas de rolagem) e não existir nenhum dispositivo inibidor da velocidade no local (com exceção do semáforo). Existe uma faixa de segurança e uma semáforo quase em frente a entrada principal do Caís do Porto, o que, teoricamente, facilitaria a travessia dos pedestres, no entanto, nem sempre é bem assim.
Os motoristas costumam aproveitar ao máximo o tempo destinado para a sua travessia, transitando no momento em que o sinal fica no amarelo e até nos primeiros instantes em que o sinal aponta a cor vermelha, ou seja, os condutores de veículos automotores não respeitam o sinal que propõe a sua parada e permite a passagem para o pedestre.  Portanto, o fato de o sinal estar apontando a travessia para o pedestre (vermelho para os motoristas) não representa uma situação de travessia segura para este.
 Uma outra situação que representa bastante risco para o transeunte que decide atravessar a Avenida é aquela em que o sinal muda quando o pedestre encontra-se no meio ou quase no final da travessia da Avenida. Neste caso, a pessoa precisa correr ou pular a fim de que não sege apanhada por um veículo, pois observei que os motoristas decidem aproveitar ao máximo todos os segundos destinados a sua travessia, não abrindo mão assim dos primeiros instantes da exposição do sinal verde, mesmo que o pedestre ainda se encontre no meio da sua travessia.
Em resumo, atravessar uma avenida no centro da cidade, como a Avenida Mauá, não é uma tarefa muito fácil e nem muito tranqüila, pois exige do pedestre bastante atenção e perspicácia para perceber o momento exato que a travessia pode ser realizada sem nenhum risco para a sua segurança pessoal. Esta situação pode ser bem mais problemática para os idosos, crianças, gestantes e deficientes físicos por razoes óbvias.




O . B . S .:  Este texto acima exposto é parte de uma descrição maior que realizei e se refere aos aspectos que observei e experimentei nas primeiras atividades de campo no Cais do Porto. A pesquisa denominada “Estudo Antropológico de um Espaço Urbano Singular: Cais do Porto de Porto Alegre (ou da cidade que tem porto até no nome)” foi apresentada no X Salão de Iniciação Científica da UFRGS e pode ser resumida da seguinte forma:
O Cais do Porto de Porto Alegre já foi a principal porta de entrada para a cidade. Viveu momentos de intensa atividade comercial, fluvial e social. Atualmente o cenário, a dinâmica social e a organização espacial naquele local demonstram que o Cais vive um outro período da sua história. Várias transformações ali ocorreram e outras tantas virão a ocorrer, diante de algumas propostas de reestruturação e reorganização arquitetônicas, urbanísticas e comerciais do atual Cais do Porto de Porto Alegre. Neste estudo, abordamos o  Cais do Porto na perspectiva do estudo de memória e itinerários dos grupos urbanos em Porto Alegre,  através  do método etnográfico, incorporando as técnicas de observação direta e participante e pesquisa direta e não participante, complementadas com a realização de entrevistas e com a produção de imagens fotográficas e  iconográficas. O principal objetivo é a análise e a compreensão da dinâmica social e da organização físico-espacial deste espaço urbano, diante das suas inúmeras mudanças e reestruturações que ali ocorreram, bem como das que brevemente virão a ocorrer. Neste sentido, aponta-se para o fato de que o reordenamento e as remodelações propostos para o Cais do Porto da Cidade de  Porto Alegre são produtos de um processo de mudanças históricas, econômicas e sociais que extrapolam as fronteiras citadinas locais, estando inseridas no corpo de uma cosmovisão globalizada e globalizante (complexa e moderna) que vem determinando a organização e reorganização dos grandes espaços urbanos contemporâneos.
Atualmente o meu objetivo é realizar algumas reestruturações nesta proposta de pesquisa aqui citada, retomando avanços teóricos e metodológicos conquistados no último período de atividade acadêmica, a fim de desenvolver as atividades de investigação científica solicitada pelo PPGAS / IFCH / UFRGS.

domingo, 29 de janeiro de 2017

Silêncio Ensurdecedor






Silêncio Ensurdecedor

O que aconteceu com a nossa escola? Alguém pode me informar algo sobre o Carnaval de Rua (Viamão) – 2017?
Acompanho a Escola Unidos de Vila Isabel desde 1979. Os ensaios aconteciam ali nas cercanias da residência da Nina (Lisboa, 495 – Vila Medianeira/Santa Isabel). Jorge Balaca, Ary Rodrigues, Tio Marino, Mestre Macaco, dentre outras personalidades artísticas eram os nossos comuns (freqüentadores da nossa casa comercial – Armazém Jacomini). Desde então tudo mudou e agora ouço o silêncio do Largo da Bica.
Avançando um pouco no tempo, mais precisamente em 2001, tive o prazer de coordenar o evento carnaval na Cidade de Viamão. Com a batuta de Secretário de Cultura fiz a vontade do prefeito municipal: E que haja carnaval. Não foi fácil, pois estava estreando no cargo e não havia dotação orçamentária suficiente para bancar toda a estrutura de um grande evento popular das proporções do “Carnaval da Participação Popular”. Este era a nossa meta. Esse era o nosso objetivo: dar vez e voz ao povo trabalhador que canta e dança, produtores culturais do maior evento da terra (Versão viamonense). E o que ocorreu em 2017?
Sinceramente. Eu gostaria de ouvir a voz do atual prefeito da cidade de Viamão sobre “a morte – não anunciada – do carnaval de rua viamonense”. Eu não conheço a versão oficial sobre. Por esta razão iniciei com a pergunta: Alguém pode me informar algo sobre o Carnaval de Rua (Viamão) – 2017? Mas o Ridi sabe. Cadê o Ridi? Alguém pode me atualizar sobre o carnaval e o novo paradeiro do Ridi? Temo pelo pior.
O grande mérito do Prefeito Bonatto, segundo o meu ponto de vista, foi perceber a importância da Escola de Samba Unidos de Vila Isabel, fazendo com que a mesma permanecesse no local em que se encontra. Bem como o mérito de preservar a Praça da Bica (com a bica intacta e jorrante), após comprovar com laudo técnico que a água que jorra no local é boa para o consumo humano e NÃO representa nenhum risco para a saúde da população. Estas duas decisões do referido administrador representam grande sapiência e conhecimento da cultura local. E qual será o grande mérito do atual administrador da Cidade de Viamão? Ainda não sabemos. Vamos aguardar pelos acontecimentos futuros.
Segue abaixo o calendário de eventos do Carnaval de Porto Alegre (Versão 2017). Obrigado pela vossa atenção e até a próxima reflexão.
Namatê.

Calendário oficial Carnaval 2017 (Porto Alegre)

02/12/16 - Dia Nacional do Samba / Destaques e Escola Campeã
09/12/16 - Mostra do samba enredo do Grupo Prata
10/12/16 - Mostra do samba enredo do Grupo Ouro
11/12/16 - Mostra do samba enredo do Grupo Bronze
07/01/17 Concurso Rainha (quesito comunicação)
08/01/17 Concurso Rainha
03/02/17 - Abertura oficial e 1ª Descida da Borges
10/02/17 - 2ª Descida da Borges
17/02/17 - 3ª Descida da Borges
10/03/17 - Desfile oficial do Grupo Prata
11/03/17 - Desfile oficial do Grupo Ouro
12/03/17 - Apuração
17/03/17 - Desfile oficial do Grupo Bronze/Tribos (apuração após desfile)
18/03/17 - Desfile das campeãs

08/04/17 - Estandarte de Ouro

sexta-feira, 22 de julho de 2016

Flanelas 3

Prezados Leitores

Vejam os senhores, se eu chegar ali no dia de amanhã, montar banca na praça da Santa Isabel e fazer uma enquete. Qual será o resultado? Vou perguntar para os transeuntes sobre o significado da palavra "Lemúria". De dez entrevistados, quantos saberão responder com precisão o significado da palavra?
Zero
Portanto, o trabalho que realizo aqui vai neste sentido de esclarecer "as mentes novelescas globais" sobre temas de interesse dos cultos.
E se a pergunta fosse a seguinte:
Você sabe o que faz um antropólogo?
Quantos responderiam com precisão a questão?

Um dos maiores problemas da atualidade: Estão queimando os livros. Buscam tudo na internet. Eu conheço uma professora que vendeu uma biblioteca inteira no galpão da reciclagem. O que fazer diante de tal quadro desolador?
Sabe aquele papel higiênico bem barato que você encontra no supermercado? Dá uma olhada com atenção antes de usar. Você vai enxergar umas letrinhas ali. Pois então! Ele já foi um livro impresso.

Vamos mais um pouco de flanelas?
Antropologia urbana no Centro Histórico de Porto Alegre.
JacquesJa na área teclando e oferecendo mais esta página para o amigo leitor (para a amiga leitora)









2. MAPEANDO  O  CAMPO  PESQUISADO

“É pelo espaço, é no espaço que encontramos os belos fósseis de duração concretizados por longas permanências.”  (Bachelard, 1993)

Para situar o nosso leitor no campo pesquisado, passaremos a abordar os aspectos geo-espaciais e de localização  do entorno de ruas do centro da cidade de Porto Alegre que elegemos para realizar o presente trabalho.
Inicialmente, pensamos em permanecer estudando apenas um grupo de “flanelas” que desenvolve as suas atividades na Av. Osvaldo Aranha, trecho compreendido entre a Avenida João Pessoa e a Rua Sarmento Leite, área central de Porto Alegre, proximidades da Praça Argentina e da UFRGS. Porém, durante a realização da primeira fase da pesquisa de campo, observamos a necessidade de fazer um mapeamento não só deste trecho, mas de praticamente todo o entorno do Campus Central da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Procedemos então a ampliação deste traçado inicial e partimos para o estudo do quadrilátero compreendido pela rua Eng. Luís Englert, Av. João Pessoa, Av. Osvaldo Aranha e Av. Paulo Gama. [1] Esta decisão foi tomada principalmente pelo fato de percebermos que existe uma dinâmica de trabalho dos “flanelas” muito parecidas nestas várias ruas e avenidas. Além disto, a organização do espaço, a tipologia do usuário deste estacionamento, o fluxo de pessoas e automóveis é muito semelhante em todo este entorno, portanto, sobre o nosso ponto de vista, esta ampliação era realmente necessária.
Este espaço é marcado  por um intenso fluxo de automóveis, caminhões e conduções de transporte coletivo, fato que ocasiona uma grande quantidade de emissão de gases expelidos pelos escapamentos destes veículos, ou seja, poluição do ar e ainda um alto grau de poluição sonora devido a mesma causa [2]. O movimento de pedestres também é muito grande, principalmente dos passageiros de ônibus, vindos de vários bairros de Porto Alegre e das cidades da região metropolitana, em especial Viamão, que desembarcam nas proximidades do Parque Farroupilha e da UFRGS no seu deslocamento diário ao centro da cidade de Porto Alegre. Dentre os pedestres que circulam neste perímetro, destacam-se os alunos e funcionários da UFRGS que são maioria em determinados horários e dias da semana. Observamos que estes caracterizam-se em especial pela vestimenta (roupa de estudante: calça de brim e camiseta que as vezes traz o logotipo da própria universidade, tênis ou chinelo, ...), utensílios (pastas, mochilas, materiais escolares característicamente universitários como os de desenho carregados pelos alunos da arquitetura, ...) e maneira descontraída de se comunicar e de se locomover (grupos de amigos que se encontram na rua, se abraçam, conversam amigavelmente nas esquinas, trocam informações, ...).
Em resumo, caberia destacar que este campo geográfico-espacial estudado é marcado por três fortes características:
I - Intenso tráfego de veículos e pessoas durante quase todo o dia;
II - Sociabilidades marcadas por três campos distintos: intelectual (Observadas a partir das inúmeras atividades acadêmicas realizadas na UFRGS); econômico (vendedores ambulantes e camelos que atuam no local, bem como das pessoas que, em trânsito, deslocam-se para os seus locais de trabalho no comércio do centro de Porto Alegre, principalmente das Ruas Salgado Filho, Borges de Medeiros, dos Andradas e Voluntários da Pátria)   e de lazer (observadas pelas inúmeras pessoas que utilizam o Parque Farroupilha para realizarem exercícios físicos diários - caminhar, correr e andar de bicicleta - passear com seus animaizinhos de estimação, namorar, ...);
III - Necessidade de adequação e normalização do espaço físico local, bem como necessidade de segurança diante da quantidade de automóveis e de pessoas movimentadas por todas estas atividades citadas anteriormente (observamos que os espaços destinados ao estacionamento dos automóveis é insuficiente para atender a demanda de usuários, então entra em cena o “flanela” que auxilia neste processo quase caótico de propiciar a utilização dos espaços disponíveis, de uma forma mais organizada, disciplinada e segura).
Durante as nossas atividades de campo, podemos perceber que “o espaço convida à ação, e antes da ação a imaginação trabalha” (Bachelard, 1993). Estão aqui colocadas duas questões especiais do nosso trabalho com os “flanelas”: I - a importância de tentar perceber as características e especificidades do campo trabalhado, bem como dos atores sociais e da dinâmica social colocada neste campo, a partir de  um “olhar vibrátil” (Rolnik, 1997) sobre o espaço e as relações de espacialidade que envolvem, delimitam e, porque não dizer, definem este universo simbólico e cultural trabalhados;  II - a importância da pesquisa qualitativa e, em especial, do método etnográfico e etnológico, nos estudos de ciências sociais voltados a pesquisa de sociedades complexas do tipo urbano-contemporaneo-capitalista. No meu entendimento, é através deste tipo de trabalho que podemos desenvolver a “ação” e a “imaginação” de que Bachelard nos falou em seus escritos.
As questões relativas aos limites (geográficos) de atuação dos diversos “flanelas” entrevistados, dentro de quadrilátero citado aqui, podem ser observadas nos anexos 8, 9 e 10. Sobre a dominação e exploração deste espaço pelo trabalho dos “flanelas”, destacaríamos três observações mais centrais, das várias colhidas na pesquisa de campo: I - Os limites de atuação do “flanela”, ou seja, onde começa  o espaço explorado pelo “flanela A” e onde termina o seu espaço, começando a área de atuação do “Flanela B” é delimitado pelos próprios “flanelas”, segundo uma negociação e uma normalização dada a partir de seus próprios critérios subjetivos; II - Esta negociação pode ser tranqüila e equilibrada entre aqueles que desejam “explorar um determinado local de trabalho” [3], mas também pode ser violenta e litigiosa, pois trata-se de um embate em torno da “dominação de um determinado território” [4];  III - As noções de público e privado percebidas pelos “flanelas” são diferentes das noções de público e privado da maioria dos “usuários”. O “usuário” entende a rua como um espaço público, onde, portanto pode estacionar o seu veículo sem, necessariamente, contribuir com nenhum tipo de retribuição econômica e financeira para as pessoas que permanecem no local e afirmam estar cuidando dos seus carros. A principal afirmativa do usuário vai no sentido de que ele é um cidadão honesto, trabalhador, decente e contribui com os seus impostos regularmente, situação que o isenta de qualquer outro tipo de contribuição a qualquer outra pessoa ou entidade; O “flanela” entende a rua como um espaço privado [5], ou seja, “o seu espaço de atuação profissional”,  onde tem o seu “ponto de trabalho” (ou local de trabalho) que pode ser passado de pai para filho, pode ser trocado Por um outro local ou bem, ou mesmo pode ser comprado Por cinqüenta reais. [6]  As principais afirmativas dos “flanelas” é de que “feio é roubar”, “estamos trabalhando”,  “dá dinheiro quem quer” e que os usuários não são justos ao permanecerem o dia todo com o carro estacionado na rua X e ao retornar não colaborarem com nenhuma retribuição ao flanela. Discursam sobre a relação Custo X Benefício entre estacionamentos pagos (ou regulares) e os estacionamentos realizados nas ruas,  para defender que nos estacionamentos pagos (ou regulares) é cobrado cinco reais para cada duas horas de permanência  e no estacionamento realizado nas ruas o “usuário” pode permanecer o dia todo e pagar um real, cinqüenta centavos de real ou mesmo não retribuir com nenhuma importância, situação injusta segundo o ponto de vista dos “flanelas”.
Passaremos a enfocar, a seguir, o principal ator social deste trabalho, o “flanela”, tentando demonstrar quem ele é, como atua, enfim as suas principais características observadas em campo.



[1] Todos  estes detalhes de localização podem ser acompanhados nos mapas ilustrativos que encontram-se nos anexos deste trabalho.
[2] Esta poluição sonora prejudicou bastante o trabalho de entrevistas com o uso do gravador. O ruído externo muito grande prejudicou a transcrição de alguns trechos das fitas gravadas em campo.
[3] Grifo para destacar o entendimento que os “flanelas” tem do espaço público urbano que são usados para estacionamentos de veículos no centro da cidade.
[4] Idem a anterior.
[5] Esta noção não foi verbalizada pelos “flanelas”, mas percebida pelos pesquisadores através das atividades de campo.
[6] Fato relatado Por um “flanela” que entrevistamos e afirmava ter comprado aquele local de trabalho. Confirmava a sua compra através de uma declaração Por escrito de um “flanela” que atuava anteriormente naquele lugar e decidiu “vender” para o seu colega, pelo valor de R$ 50,00, “o direito de exploração da rua em que trabalhava”.

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

Etnografia - Cais do Porto









UM  OLHAR  ETNOGRÁFICO  SOBRE  A  ATUAL  DINÂMICA VIVENCIADA  NO CAÍS  DO  PORTO  DA  CIDADE  DE  PORTO  ALEGRE: Caminhando pelo o que restou de um período de pujança e desenvolvimento de uma cidade outrora voltada para o seu rio.
                                    
“(...)O Porto, em que acreditávamos tanto, terminou em frustração, com o projeto de transformar-se em área de lazer. Os barcos e os trens nos abandonaram, dando lugar aos caminhões. A indústria fabril, depois de um ciclo de prosperidade, migrou para outras paragens. O capital internacional não acha muitos atrativos numa área de caminhos estrangulados e de comunicações roucas.(...)”  (Franco, 1997)
                              

A
s palavras, supra citadas, do historiador Sérgio da Costa Franco sobre  Porto Alegre e, em especial, sobre o Caís do Porto refletem um pouco do imaginário que os porto-alegrenses atualmente constróem sobre a sua cidade, diante das inúmeras transformações ocorridas no últimos anos.   Neste imaginário encontramos narrativas que constróem um misto de desesperança, regado com um pouco nostalgia e uma porção de medo: medo do futuro, do novo milênio, da violência ou até medo do medo [1], enfim de uma verdadeira “Cultura do Medo”.
Recorremos aqui à etnografia de rua, a fim de percebermos um pouco da base empírica destas construções elaboradas e vivenciadas pelos porto-alegrenses. Passamos então a enfrentar o desafio que se assemelha a “(...) tentar ler (no sentido de ‘construir uma leitura de’) um manuscrito estranho, desbotado, cheio de elipses, incoerências, emendas suspeitas e comentários tendenciosos, escrito não com os sinais convencionais do som, mas com exemplos transitórios de comportamento modelado.” (GEERTZ, 1978)   
A descrição da minha etnografia inicia a partir do momento que me aproximo do Largo Glênio Peres e arredores do Mercado Público de Porto Alegre. Ao passar pelo largo, observo muitas pessoas que circulam pelo local com toda a “pressa” originária de um grande centro urbano. Apesar da “pressa” (ou aparente falta de tempo), algumas pessoas param e ficam observando os “artistas” que atuam naquele local. Destacaria o tradicional vendedor de remédios naturais que, com recursos diversos (aparelho de som, animais exóticos como cobras, apelo teatral e dramático), tenta vender os seus produtos no Largo e nas praças da cidade, sendo assim já bastante conhecido da população; e um músico que tocava violino, utilizando alguns recursos sonoros como caixas de som e amplificadores, chamando bastante a atenção das pessoas que por ali passavam. Pude observar o Mercado Público que, totalmente restaurado, estava enfeitado com painéis e desenhos alusivos a Primeira Bienal do Mercosul, evento cultural que tem mobilizado muitas pessoas na capital. Vencido o Largo, nos aproximamos da Prefeitura Municipal de Porto Alegre, passo a me encomodar um pouco com o grande fluxo de pessoas e procuro então me afastar das ruas mais centrais, andando em direção a Avenida Mauá, onde se encontra o Caís do Porto, ponto principal desta etnografia de rua. A tentativa de evitar o grande fluxo de pessoas, afastando-me das ruas centrais, e caminhando pela Av. Mauá não foi muito promissora, pois também ali o tráfego estava complicado, principalmente em função de alguns caminhões que descarregavam cargas nas proximidades do Prédio dos Correios e Telégrafos, prejudicando assim o trânsito de pedestres naquele local. Passo a mapear os principais vizinhos do Caís do Porto, dentre eles os Correios e Telégrafos, Secretaria da Fazenda, Delegacia Regional do Trabalho, terminais de ônibus coletivos urbanos de Porto Alegre e grande Porto Alegre (Viamão) e o Instituto Santa Marta (SUS).
A travessia da Av. Mauá (em direção ao Cais do Porto) é, sem nenhuma dúvida, “uma manobra bastante arriscada”. Neste local o trânsito de veículos é muito grande e a velocidade média dos automóveis, caminhões e coletivos também é alta em função da avenida ser extensa (uma grande reta),  larga (com 3 faixas de rolagem) e não existir nenhum dispositivo inibidor da velocidade (com exceção do semáforo). Existe uma faixa de segurança e uma semáforo quase em frente a entrada principal do Caís do Porto, o que, teoricamente, facilitaria a travessia dos pedestres, no entanto nem sempre é bem assim. Os motoristas costumam aproveitar ao máximo o tempo destinado para a sua travessia, transitando no momento em que o sinal fica no amarelo e até nos primeiros instantes em que o sinal aponta a cor vermelha, ou seja, propõe a sua parada e permite a passagem para o pedestre.  Portanto, o fato de o sinal estar apontando a travessia para o pedestre (vermelho para os motoristas) não representa uma situação de travessia segura para este. Uma outra situação que representa bastante risco para o transeunte que decide atravessar a Avenida é aquela em que o sinal muda quando o pedestre encontra-se no meio ou quase no final da travessia da Avenida. Neste caso, a pessoa precisa correr ou pular a fim de que não sege apanhada por um veículo, pois observei que os motoristas decidem aproveitar ao máximo todos os segundos destinados a sua travessia, não abrindo mão assim dos primeiros instantes da exposição do sinal verde, mesmo que o pedestre ainda se encontre no meio da sua travessia. Em resumo, atravessar uma avenida no centro da cidade não é uma tarefa muito fácil e nem muito tranqüila, pois exige do pedestre bastante atenção e perspicácia para perceber o momento exato que a travessia pode ser realizada sem nenhum risco para a sua segurança pessoal. Esta situação pode ser bem mais problemática para os idosos, crianças, gestantes e deficientes físicos por razões óbvias.
Vencida a travessia da Avenida Mauá, entro no portão principal do Caís do Porto. Entrando, a minha esquerda, encontro o posto da guarda portuária, onde um funcionário faz a segurança no local. Decidi solicitar informações sobre como deveria proceder para realizar a visitação naquele local. Fui informado que deveria me dirigir ao prédio da administração do Porto, onde deveria solicitar uma autorização (por escrito) para realizar a visita. Assim procedi, subindo ao quarto andar do prédio apontado pelo guarda, onde em contanto com a funcionária Dulce consegui a permissão, após ter me identificado e externado o objetivo da minha visita. De posse da autorização, me dirigi ao portão de acesso do Caís, apresentei a autorização para um outro guarda que a reteu, permitindo a minha entrada e informando que eu poderia visitar todo o Caís em sua parte  que estava a minha direita, e a parte que ficava a minha esquerda não poderia ser acessada por ser “área operacional”, palavras dos funcionários para referir a parte onde existe intensa atividade de carregadores, guindastes, carga e descarga de containers, etc.
Neste momento, já na beira do Rio,  acontece o meu primeiro contato com algo que me acompanharia, ou até me indicaria uma determinada trajetória nesta visita ao Cais do Porto do Rio Guaíba:  os trilhos utilizados para a locomoção de algumas  máquinas e / ou guindastes que carregam e descarregam as cargas dos navios. Observo que estes trilhos estão sendo usados pelos guindastes que estão a minha esquerda (lado operacional). Na minha direita os trilhos continuam existindo, mas parecem não estar sendo usados para o deslocamento dos guindastes observados a minha esquerda , fato que me leva a supor uma provável restruturação físico-espacial deste local, pois a existência dos trilhos no meu lado direito supõe a existência destes mesmos guindastes operando em um outro momento (outra época e organização deste espaço) anterior a este.    
A minha direita, tenho o Barco Cisne Branco ancorado com alguns homens no seu interior, parece que trabalham e organizam algumas coisas no barco. Observando o barco estão um grupo de alunos de uma escola que realizam uma visita ao Caís. Fotografam e são fotografados, conversam com os seus professores sobre o barco, sobre o rio, ... parecem estar gostando bastante do passeio, pois aparentam muita satisfação, descontração e interesse por tudo o que vêem ao seu redor. De fato, penso que nem poderia ser diferente, entre outros motivos, por estarmos vivendo um dia muito ensolarado, com temperaturas altas, céu claro e uma brisa gostosa a sombra.
O Barco Cisne Branco traz um sistema do som que ligado, espalha pelo ambiente músicas veiculadas por uma rádio local da cidade de Porto Alegre. Esta sonoridade traz, segundo o meu entendimento, consigo uma sensação de descontração para as pessoas que visitam o Caís.
Olhando para o interior do rio, vejo a primeira embarcação que circula pelo local, ela traz uma carga de areia e se desloca lentamente pelas águas calmas do Rio Guaiba. Na mesma direção podemos observar o topo de prédio que se encontra na Ilha do Presídio, ponto próximo ao Cais.
Ainda a minha esquerda, após passar pelo barco Cisne Branco, encontro trabalhadores que descarregam determinada carga de uma carreta estacionada neste local.
Vou caminhando a fim de explorar a região que me foi permitida o acesso, ou seja, lado direito de quem entra no portão principal do Caís do Porto. Após passar pelo primeiro armazém B1 (no seu interior estão grande rolos de papel, e pequenos pacotes também de papel), onde trabalhadores trabalhavam na descarga de determinado produto, me encontro nos fundos do prédio da administração, onde a bem pouco tempo estava solicitando a autorização para realizar esta visitação. Após este prédio, passo por um outro armazém (B2) fechado e sem nenhuma movimentação de pessoas.
Estacionado neste local, duas grandes carretas com cargas que parecem ser grandes transformadores de energia elétrica. Os caminhões que puxam a carreta são caminhões do tipo “fora de estrada”,  realmente muito grandes e contam com sinalizações especiais que chamam a atenção para o seu excesso de largura e comprimento (diante das dimensões normais utilizadas pelos veículos tradicionais). Ao me aproximar de uma das carretas, vejo que a altura  das rodas chegam próximo ao meu ombro. Como tenho 1,76 m de altura, a altura das rodas chegam a, aproximadamente, 1,40 m, são, portanto bastante expressivas.
Após as carretas, vejo mais três prováveis transformadores colocados em linha, os quais suponho estarem esperando para serem carregados. Faixas estão colocadas nestes transformadores estampando o nome da empresa de destino (ou de origem), COENSA.
Olhando a minha esquerda, avisto a Ponte do Rio Guaíba (em direção a cidade de Guaíba) e algumas ilhas do mesmo rio. Na minha frente mais um prédio, onde leio Fundação Nacional de Saúde (Vigilância Sanitária), local onde funciona algum setor deste órgão.
Logo a minha direita existe um portão  que encontra-se aberto e dá acesso ao Caís do Porto. Ao contrário do portão principal, neste não existem guardas nem outro tipo de segurança que dificultem o acesso. Esta observação leva ao entendimento que existe uma “ritualização” envolvendo o Caís no que concerne ao seu acesso, de uma forma diferenciada  para “os de fora” em ralação “aos de dentro”. Pois “os de dentro”, conhecedores das barreiras, portões e cercas de delimitação deste espaço, certamente usariam este portão para chegarem à beira do rio e não o principal pelo qual entrei.  Passo pelo portão e começo a percorrer a rua que é paralela ao rio, no interior do muro da Mauá, ou seja, entre o muro e o rio.
Percorrendo esta rua, chego ao primeiro (de uma série) ancoradouro na seqüência de quem vem do portão principal do Caís do Porto em direção a cidade de Canoas. O primeiro é um ancoradouro onde encontramos apenas alguns barcos de pequeno porte. Neste local existe uma placa onde leio: “Grêmio Náutico União, Estação Fluvial Nilton Silveira Neto, Embarque, Sede Ilha do Pavão”. Nas proximidades do prédio do Palácio do Comércio, me deparo com a estação dos bombeiros. Na parede está estampada os símbolos e uma mensagem (ou lema) do 3o. grupo de bombeiros da brigada militar : “Homem do salvamento, estar seguro, trabalhar com segurança, produzir segurança, mais do que um lema, uma filosofia em ação.”
Passo a perceber que, em verdade, o Caís do Porto possui toda uma cultura muita própria e muito sua. Cada ancoradouro, cada espaço ou cada ator social que aqui atua está inserido numa lógica e numa racionalidade que para ser percebida em sua integralidade demandaria uma investigação muito mais minuciosa e elaborada do que por ora realizo. É um pouco óbvio o que estou afirmando, no entanto é interessante de registrar esta minha percepção de que somente um envolvimento e uma interação maior com este local me permitiria perceber e reconstruir a “subjetividade portuária”, fato que nos revelaria, em detalhes, a verdadeira dinâmica, a real estruturação, organização e normalização deste “espaço não - urbano” da cidade de Porto Alegre.
Voltando a descrição físico-espacial do lugar, caminhando mais um pouco, me aproximo do prédio C3, onde leio garagem e oficina APPA - Portão 01.  Atento para a cobertura da rua que estou percorrendo que é de pedras do tipo paralelepípedo. Caminho no sentido centro bairro (no caso Centro de Porto Alegre - Canoas) e a minha direita tenho um trilho (o mesmo que começou o seu traçado logo na entrada do Caís) que percorre toda a rua, decido seguir a sua trajetória, pois percebo que, apesar de estar atualmente em desuso, este trilho já representou uma determinada dinâmica de trabalho do Caís do Porto. Seguí-lo, ou percorrê-lo é atitude óbvia para quem tenta perceber o que este trilho e o que este chão podem estar querendo “falar” para quem o “escuta” (ou quem com ele dialoga). Avisto o prédio C4 que tem as portas abertas e máquinas no seu interior, no entanto não existe movimento de trabalhadores neste momento (viria a saber, mais tarde que o que estava ali acondicionado era sal). Uma placa estampa a mensagem “Proibida a entrada” ao lado deste prédio (na verdade estas placas foram encontradas em vários locais do Caís, denotando as estratégias de contenção e normalização deste espaço, porém nem sempre elas pareceram atuais e operantes). Percorrendo mais um trecho da rua, chego a um outro ancoradouro (2o.) onde estão atracados navios de grande porte, Navio Taquari, Itapuã, ...  Fiquei tão impressionado com o tamanho das embarcações que passei a tentar quantificar o seu tamanho: eles teriam, aproximadamente, uns 10 metros de largura e uns 30 de comprimento. Neste mesmo ancoradouro, observo várias outras embarcações de menor porte que as três anteriores, apresentando um péssimo estado de conservação o que permite supor até que elas estão totalmente fora de atividade.
Continuo caminhando, em certo momento o capim esconde os trilhos e passo a pensar se estou seguindo a trajetória dos trilhos ou são os trilhos que acompanham a minha caminhada ? A resposta não é minha neste momento. Avisto um outro prédio que está mal conservado e tem escrito em suas paredes anúncios de venda de gelo.
Me aproximando da Elevada da Conceição, olho para o muro que separa a cidade do Rio e percebo a “força”[2] deste muro. É realmente um aparelho delimitador espacial que remonta a perspectiva da percepção “intra-muros” e “extra-muro” como a que já trabalhei em casos de realidades institucionais do estilo manicomial. Em outras palavras, a cidade está excluída deste espaço e vice-versa, o que nos coloca claramente a necessidade de se separar o que é urbano do “não - urbano”, ou a lógica urbana da lógica “não - urbana”. Esta proposta de delimitação passa a existir no Brasil a partir do século passado e está intimamente relacionada com o movimento que aqui já mencionamos: a higienização dos aparelhos públicos.  Este é um ponto (espacialidade do Caís) de análise deste local e desta lógica local que demandaria também um esforço maior de análise e de interação, como já havia afirmado antes. Nas proximidades da Elevada da Conceição, observo uma espécie de portão (na extensão do muro) que parece não ser utilizado visto a suas características de conservação e dos capins que o entornam.
Caminhando mais um pouco, avisto um outro prédio onde leio: Centro Integrado de Comercialização agrícola e, novamente, Venda de Gelo. Este prédio está desocupado e desabitado, além de mal conservado como o anterior. Ao lado do muro encontro bastante lixo neste trecho da caminhada, parece que na medida em que nos afastamos do portão principal do Caís do Porto aumenta o desleixo, a sujeira, a má conservação dos prédios, inexistência de atividades nos prédios, etc. Ou seja, na medida em que nos afastamos do “centro” deste local o que era belo, policiado e bem cuidado agora é o oposto de tudo isso.
Chego ao terceiro ancoradouro  e observo alguns barcos de grande porte. Uma das embarcações é parecida com as que carregam areia, não sei exatamente o nome específico. Posso perceber,  então,  mais um bloco de prédios que é o (c6), onde observo algumas caixas garrafas de bebidas sendo transportadas. O  prédio ao lado esta aparentemente sem atividade, não tem pessoas que circulam ou que estão trabalhando neste local. Alguns carros passam por mim e suponho que são funcionário que, nesse momento são 11:25,  estão talvez indo para de almoço. Me encontrava agora nas proximidades da rodoviária e da elevada da Conceição. Passo a ter  a impressão que esta estrada vai mais longe do que eu imaginei, portanto seria necessário ter uma condução para explorá-la em toda a sua extensão.
Tenho a minha direita o terminal do Trensurb, onde pessoas aguardam a chegada do trem. Me parece que este seria o terminal Estação Rodoviária. Vejo dois caminhões  velhos  estacionados ao lado do referido prédio. O Trensurb acaba de chegar no terminal e as pessoas que o aguardavam passam a trafegar nele. Neste momento, passo por cima dos trilhos  que  eu estava acompanhando, (ou dos trilhos que acabaram por definir a minha trajetória, ou trilhos me trouxeram até aqui, ou ...) ou seja eles cruzaram a rua em direção ao rio. Neste momento fico admirado com o que estou vendo:  uma caminhão, do tipo tombadeira, estaciona ao lado do prédio C6, operários colocam  caixas de garrafas de vidro neste caminhão e ficam quebrando as garrafas.  Parece que garrafas de vidros   realmente não são mais importante, pois estão quebrando e colocando dentro da tombadeira. Hoje, a hegemonia dos recipientes para acondicionamento de refrigerantes é do plástico.
Sinto a necessidade e a curiosidade de adentrar e explorar mais essa estrada que continua a minha frente, porém vou retornar, até porque os trilhos  me trouxeram até aqui. Neste momento acontece algo muito interessante: vejo um funcionário, um senhor de aproximadamente 60 anos, sair do prédio onde os operários quebravam as garrafas e decido passar a caminhar ao seu lado conversando com ele (em direção ao portão principal do Caís, ou seja, retornando), a fim de conhecê-lo e, ao mesmo tempo, conseguir algumas informações sobre a dinâmica do Caís que até então se  apresentavam como uma incógnita para mim. Foi um diálogo curto, porém muito interessante, pois o contato direto com um ator social local foi imprescindível para percebermos alguns detalhes da organização e da espacialização do Caís.
Sanislau, trabalhador do porto a mais de 30 anos, falou-me das suas percepções a cerca da situação atual do Caís, da existência do Muro da Mauá, das lembranças da enchente de 1941, entre outras coisas. Sobre a questão do muro, ele afirmou que “o muro matou o caís, olha isso aí, tudo parado !  Antes o movimento era grande, havia muito trabalho, (...)”.
Nas suas palavras, são claras as construções mnemônicas sobre as transformações negativas, segundo o seu ponto de vista, que a construção do muro da Mauá trouxe para as dinâmicas do Caís do Porto, reportando e relacionando a situação atual com  um tempo de pujança e de intensa atividade portuária,  anterior à construção do muro. Além disso, a sua fala traz um veio de esperança, no sentido da possibilidade de que haja um retorno ao período áureo do Caís, a um passado promissor que reconstrói na sua memória, verbalizando: “Parece que vão derrubar isso daí (aponta para o muro)”.
Perguntado sobre a enchente de 1941, Sanislau afirma: “Foi coisa feia meu filho. A água ia lá na Rua da Praia. Eu estava aqui e vi tudo.”  Mas, quando questiono-o sobre a possibilidade da ocorrência de uma nova enchente na cidade, semelhante a de 1941, a qual justificaria a existência do muro como proteção, irônico ela afirma: “É, ‘eles’ estão esperando uma outra enchente daquelas a mais de 50 anos.”  Externa assim uma posição pessoal clara sobre a não funcionalidade do muro como proteção da cidade em caso de enchentes e sim como um dispositivo que interrompeu o desenvolvimento das atividades portuárias.   
Na sua integra, foi uma conversa muito interessante de, aproximadamente, 20 minutos com seu Sanislau que, como outros antigos funcionários do Caís do Porto, integra o grupo dos maiores guardiões da memória deste lugar tão significativo para a constituição da cidade de Porto Alegre. Dentro do esforço de um trabalho etnográfico, recuperar esta memória e reconstruir o “edifício das memórias coletivas” (JEUDY, 1986) destes guardiões é a atividade que nos possibilitará avançar no entendimento da relação dos porto-alegrenses com o seu rio. 


























BIBLIOGRAFIA



1.    COSTA, Elmar Bones da. História Ilustrada de Porto Alegre. Porto Alegre : Ed. Já Editores, 1997.

2.    ECKERT, Cornelia. Antropologia do Cotidiano e Estudo das Sociabilidades a Partir das Feições do Medo e das Crises na Vida Metropolitana. Porto Alegre: UFRGS. Projeto de Pesquisa, 1997.

3.    FRANCO, Sérgio da Costa. Guia Histórico de Porto Alegre. Porto Alegre: Ed. da Universidade / PMPA, 1988.

4.    ________ , ___________ . Porto Alegre e Seu Comércio. Porto Alegre: Ed. Associação Comercial de Porto Alegre, 1983.

5.    GEERTZ, Clifford. A Interpretação das Culturas. Rio de Janeiro: Ed. Zahar, 1978.

6.    NORBERG-SCHULZ, Christian. Nuevos Caminhos De La Arquitectura - Existencia, Espacio y Arquitectura. Barcelona: Ed. Blume, 1975.











[1] Nome dado pelos psiquiatras e psicólogos para um tipo de distúrbio emocional, observado especialmente nas grandes cidades, marcado pelas tensões, fobias, e agregação de vários tipos de medos sentidos simultaneamente pelos pacientes.
[2] Força social e simbólica.